
Diz o dito popular da minha terra que quando se conhece o fruto é fácil identificar a árvore. Transferindo a metáfora para a experiência ciclocidadã que tivemos na cidade de Presidente Getúlio – SC, ao proferir nossas palestras gratuitas para mais de 440 alunos e alunas da EEB Orlando Bertoli, vemos que os motivos que temos para não parar com esta ação nos saltam aos olhos e à mente.

Diz o dito popular da minha terra que quando se conhece o fruto é fácil identificar a árvore. Transferindo a metáfora para a experiência ciclocidadã que tivemos na cidade de Presidente Getúlio – SC, ao proferir nossas palestras gratuitas para mais de 440 alunos e alunas da EEB Orlando Bertoli, vemos que os motivos que temos para não parar com esta ação nos saltam aos olhos e à mente.
Embora a cidade aparente ser uma pequena estância entre Blumenau e Rio do Sul, com menos de 20 mil habitantes, boa parte deles envolvidos em manter a maior bacia leiteira do estado de Santa Catarina, falamos de um lugar acolhedor, simpático aos olhos, pertencente ao Vale das Cachoeiras e promotor de lições de cidadania que dariam inveja a grandes centros urbanos ditos modernos.

Falo explicitamente sobre “lições”, porque como professor entendo que a lição é o bem aplicado exercício que põe em cheque algo estudado. Resulta da intermediação e problematização do tema por parte do docente, a reflexão do aluno dedicado, a discussão coletiva das inferências e a síntese dos entendimentos. A cidade de Presidente Getúlio demonstra reconhecer tais aspectos quando os explicita no seu traçado urbano, principalmente na convivência respeitosa e na partilha do espaço para trânsito entre veículos automotores e os de tração humana.

Ciclovias e ciclofaixas se fazem perceber no desenho viário, tanto quanto a boa e correta sinalização e a ordenação do fluxo do tráfego que, embora pequeno, é composto por caminhões de cargas agrícolas e industrializadas, ônibus, automóveis particulares e bicicletas, sendo estas últimas, utilizadas por alunos de todas as idades indo para a escola e para casa, trabalhadores no vai-e-vem cotidiano e por senhores idosos, que encontram na atividade a segurança necessária para buscar manter o bem-estar físico e mental. Além de tudo isto, no aspecto estrutura pública de trânsito, o que mais chamou minha atenção foi o comportamento dos usuários. Ou seja, a população demonstra entender bem seu papel enquanto produtora de uma cidade boa para quem lá vive, boa para quem lá visita!
A bicicleta nesta cidade não é moda, é meio. Meio para sentir, para estar, para viver. Pelo que vimos não se trata de um estilo recentemente adotado após a exposição midiática em algum programa televisivo. Ao contrário, a bicicleta está impregnada de sentido na vida da população local e seu uso indiscriminado promove a extensão da qualidade expressa na paisagem natural ou construída e na cultura benfazeja desta gente sábia e plural.

Durante nossa exposição na escola Orlando Bertoli, mais uma vez se nota a cultura de compartilhamento presente na forma hospitaleira de sermos recebidos, seja pela direção e corpo docente, seja pelas centenas de alunos e alunas que esperavam a tal palestra sobre bicicleta, os quais também atentos, comprometidos e embevecidos realizaram conosco momentos de aprimoramento e de reflexão.
Cada vez que voltamos às escolas, enquanto Professor Sobre Rodas, verificamos que mais importante do que a nossa humilde contribuição é o que resulta da sensibilização de alunos e alunas. Parte nos comove, parte nos fortalece, parte nos dá graça e incentiva a ir além, independente do apoio ou das adversidades que afetam a todos e a qualquer um de nós.
Ao final da exposição no período matutino, realizada no ginásio da escola, como sempre acontece, vários alunos e alunas vieram ter conosco, a fim de dialogar e tirar algumas dúvidas. Neste momento, procuro pedir que colaborem comigo dando um feedback ou testemunho a respeito da palestra. Um menino magrelo, beirando os 17 anos, iluminou o meu dia dizendo que “não sabia que algumas pessoas se importavam em dividir conosco suas experiências sobre a bike. Até hoje, usei minha bike como única alternativa para poder vir à escola, já que meus pais precisam do carro para trabalhar, faça chuva ou sol, e não posso ficar dependendo dos horários dos ônibus. Eu pensava que estava preso a isto... ‘meu’, hoje eu vou voltar prá casa me sentindo livre!”

Ao final da palestra da tarde, entre declarações espantadas sobre cicloviagens e opiniões divergentes sobre modelos de bikes com os moleques, fiquei atento à conversa paralela de duas meninas, com seus uniformes iguais, cabelos iguais, tênis iguais, porém, com proposições tão diferentes quanto infinitamente poderosas: “nossa, vou chegar em casa e contar tudo o que eu ouvi para o meu pai, caraca, ele vai ter que parar de usar o carro prá tudo, até prá ir buscar pão ele usa... por isso tá com aquela pança enorme e vive reclamando que dói tudo, dói as costas, dói as pernas...dói é a consciência dele, isso sim...”. E a outra, que ria muito enquanto a amiga expunha seu dilema, ao final completou: “...tá ligada, será que se eu convidar a ‘fulana’ e mais algumas das gurias elas topam da gente sair de bike nos finais de semana por aí? Uhuuu, já pensou, meu, masssaaaaa!!!! Vou mandar nossa foto prá revista!”, entre risos adolescentes e poses desconcertantes.
Quase indo descansar após a palestra da tarde, capturei um depoimento relâmpago de uma mocinha que, ao receber sua Revista Bicicleta disse apenas uma coisa: “...Tio, vou ler agora mesmo, porque lá em casa o bicho vai pegar!”

Para finalizar nossa partilha com os alunos e alunas desta escola, não poderia faltar uma declaração sobre o conceito particular de felicidade de um deles. Com uma das mãos sobre o meu ombro e a outra segurando a Revista Bicicleta que acabara de ganhar de cortesia, uma aluna do noturno disse sem tirar os olhos do magazine: “Eu esperei até hoje para tomar uma atitude como aluna do terceirão. Amanhã mesmo vou pedir uma reunião com a direção e irei propor a formação de um grupo de ciclismo aqui na escola, a fim de envolver pessoas com hipertensão e diabetes. Quem sabe isto faça alguma diferença para alguém que eu não conheça, além do meu pai”.
Fazer a diferença, estimular o convívio harmônico entre os diferentes, promover a paz, comungar do meio em que se vive de forma responsável e equânime, olhar além das possibilidades impostas. Você que está lendo estas linhas, sinta-se parte disto tudo.
Nós iremos continuar tentando, isto tudo, sempre mais.
A Revista Bicicleta e o Professor Sobre Rodas (Therbio Felipe M. Cezar) continuarão realizando este ano o Projeto Ciclocidadania nas Escolas, proferindo palestras gratuitas em instituições públicas de ensino, para as séries do Ensino Médio. Caso sua cidade (Secretarias Municipais de Desporto e Lazer, Educação, Turismo) ou sua escola queira receber nossas palestras, entre em contato conosco.
therbio@revistabicicleta.com.br
Fonte: Therbio Felipe M. Cezar - Professor Sobre Rodas
Professor Sobre Rodas nas Escolas

Este tempo de recesso escolar não foi, para muitos de nós, o que se poderia chamar de ‘férias’. Tivemos muito a considerar sobre o resultado do que buscamos realizar no ano que passou. A reflexão trouxe uma série de novas ‘dores de cabeça’, porque entendemos que apenas uma parte do caminho foi cumprida com êxito. Mas há que seguir, e seguir com propósitos.
Ao contrário do que possa parecer, não tirei férias. Ainda que as escolas estivessem fechadas, não poderia fazê-lo. Se assim procedesse, não haveria como fazer parte das descobertas ciclísticas do Alan, do Leba e do Kaléo, quando os mesmos resolveram reinventar-se conduzindo suas bicicletas pelos caminhos praianos que nos rodeiam. Ao ouvir desses jovens seus espantos, ao estar ali participando deles, rindo de suas molecagens sadias, pude levitar com eles nessa breve e marcante experiência.
Lá estavam e estão três dos bons exemplos do que resultou nosso esforço pelas escolas de Santa Catarina no ano passado, após proferir palestras para mais de 5.400 alunos. Mais além, estão sendo eles e tantos outros multiplicadores desta ‘nova ideia antiga’, porém, cravejada de sentido quando reconhecidos seus múltiplos e plurais benefícios para o indivíduo, comunidade e planeta.

Então, como eu iria parar? Como eu poderia me furtar de fundar com outros amigos o grupo de ciclistas de Balneário Piçarras, embora grande parte da comunidade ainda se assuste ou se surpreenda com aqueles malucos e malucas colorindo os finais de tarde ou as manhãs de domingo com suas máquinas não motorizadas movidas a sonho? Como haveria de ser diferente?
Ah, é claro, posso começar lembrando do ‘batismo’ de pedal do Diogo, sob chuva refrescante de um sábado de começo de verão, sem ninguém com um carro por perto para ser testemunha. Foi, sem dúvida, uma das boas surpresas. Mas não foi a única. Sair para pedalar com meus amigos, o casal Jorge e Guga, experientes atletas e preparadores físicos, observando- os experimentar da ‘novidade’ revigorante do pedal fora da academia, pelos tortos caminhos rurais da região, tem sido um excelente impulso semanal para começar este ano.
Ainda na mesma esteira, ver o Rodrigo, ex-triatleta, voltar a pedalar fazendo parte de nosso grupo tem me inspirado a exigir novos desafios; a querê-los, sem exceções e desejar que eles venham, um a um, porque quero estar apto a superá-los, apesar de todas as limitações que possuo hoje e que possuirei em um futuro próximo.


O vento que re-energiza todo o ciclista, independente da modalidade praticada, é o mesmo. Não posso, de forma alguma, deixar de perceber o que foi colhido após tanto tempo de semeadura. É necessário enaltecer em voz alta que estamos conseguindo fazer alguma diferença! Talvez não seja a diferença que almejávamos, mas não deixa de ser, em parcelas ou fragmentos, algo a mais do que obtivemos no ontem.
Quando nosso grupo de bikers começou a tomar forma, meses atrás aqui em Balneário Piçarras, fiquei mais do que feliz quando me dei conta de que não fui o precursor disto, e sim, os companheiros e companheiras do cotidiano de minha simples vida que tomaram a iniciativa e assumiram para si a escrita desta página na região onde vivemos. E já soube pela boa boca que Penha, o município vizinho, também já está agrupando amantes dos caminhos e das magrelas. Ainda espero ver as duas cidades juntas neste aspecto. Não há regionalização se nem eu nem você damos o primeiro passo para atravessar a ponte.

E o que dizer da boa prosa enquanto o rodado girava, na companhia da Michaela e do Alexandre, entre risos e suor, antes e depois das subidas de terra e pedra, cercadas de verde pelo rural regional? E como não dar sentido maior para as promessas de pedalar com a Miúda, assim que todas as condições para tal sejam satisfeitas? Não quero e não posso me esquecer delas.

Por mais que estas realizações possam parecer tão humildes perto de um título conquistado, de um recorde batido ou do lançamento de um novo componente tecnológico para o universo da bicicleta, amigos e amigas leitores, elas são as mais perceptíveis e impactantes no ambiente em que vivemos, formado por pessoas simples, não atletas, que buscam como performance transcender sua condição de cidadãos. Sim, é bastante claro para nós que o universo dos atletas é bem mais complexo que o nosso, mas são eles a nossa boa referência, incentivo e estímulo. Perseguiremos seus feitos dentro de nossas limitações.
Sabemos pela lógica infeliz da sociedade de consumo que coisas ruins contagiam e, infelizmente, ganham mais marketing do que merecem. Porém, coisas boas também são contagiosas e criam um efeito positivamente benéfico na vida de inúmeras pessoas, de forma que o que elas mais querem é gritar que assim se sentem. Faz parte da nossa condição comunicativa. Ainda bem!

Quando percebo que a Fernandinha continuou a colecionar êxitos e vitórias, incentivada pela própria fé e pelas páginas da nossa revista que ganharam o Brasil e o mundo (sem exageros – exemplares da edição da Revista Bicicleta na qual conto sobre a batalha perseverante da minha amiga para-atleta chegaram à Europa e a países platinos nas mãos de outros amigos), sinto uma satisfação que não me coloca, de forma alguma, na confortável situação de dever cumprido, ao revés, me incita com força renovada a não esmorecer e a entender que esta é apenas uma linha de tantas páginas ainda a serem escritas.
Tudo isto, para mim é tão importante quanto o que vem acontecendo em várias cidades como Sorocaba (SP), Uberaba e Uberlândia (MG), Presidente Getúlio (SC), entre outras, claro, sem falar daquela que vem tomando para si o compromisso de buscar ser a excelência em planejamento da mobilidade não-motorizada, Niterói (RJ), sob a batuta profissional da equipe do Glauston.
Dias atrás, chamei o Fabinho para um pedal aqui no litoral, enquanto curtíamos um rolê pelas praias da nossa região, ouvi atentamente sua narração sobre como é andar de bike cotidianamente, usando terno e gravata, em plena Blumenau. Segundo o que tratamos, esta imagem impacta tanto e chama tanto a atenção quanto a passagem de um novo modelo possante de uma marca automobilística criada para poucos.
Por fim, verificamos que algo está mudando e somos partícipes destas transformações, porque escolhemos começar por nós mesmos. Você deve ter verificado que ousei tocar no nome dos meus amigos e amigas, assim, apenas o nome, porque são pessoas reais, cheias de aspirações, objetivos, realizações plenas, sonhos, enfim, são seres humanos lindos querendo mais humanidade em seu contexto de vida.

Além deles, eu poderia e gostaria de estar falando da Ana, do Célio, do engenheiro Pablo, da fisioterapeuta Gabriela, do mecânico José Carlos, do psicólogo Daniel e sua esposa, da família Quevedo e de seus amigos do bairro, ou talvez do prefeito Eduardo e da vereadora Albertina ou de você, entende? Eu poderia estar falando sobre nós... nós todos. Quem sabe na próxima edição da Revista Bicicleta?
Acredite, vamos continuar tentando.
A Revista Bicicleta e o Professor Sobre Rodas (Therbio Felipe M. Cezar) continuarão realizando este ano o Projeto Ciclocidadania nas Escolas, proferindo palestras gratuitas em instituições públicas de ensino, para as séries do Ensino Médio. Caso sua cidade ou sua escola queira receber nossas palestras, entre em contato conosco.
therbio@revistabicicleta.com.br

Fonte: Therbio Felipe M. Cezar - Professor Sobre Rodas
Dando continuidade ao relato das experiências decorridas do Projeto Revista Bicicleta & Professor Sobre Rodas nas escolas, sigo a destacar algumas percepções que surgiram durante as últimas 22 palestras realizadas entre o mês de setembro e outubro de 2011, em algumas escolas públicas estaduais de Camboriú, Itapema, Penha e Barra Velha, Santa Catarina.
Novamente, os números surpreendem. Participaram mais de 1.300 alunos e alunas das séries relativas ao ensino médio, em escolas mergulhadas em diferentes contextos e realidades. Em todas, a acolhida por parte de alunos e professores para escutar o que resulta do universo do Cicloturismo e da Ciclocidadania foi sempre de extrema atenção e hospitalidade. Já realizei 384 palestras sobre este tema e o objetivo é chegar a 400 ainda este ano.
Os ideais do projeto não mudaram, porque percebemos que, por mais difícil que possa parecer, sustentar uma ação socioeducativa e emancipadora em escolas públicas gera um impacto positivo na vida dos alunos e da comunidade escolar, porque a partir do que relata o palestrante, resolvem eles escolher o que irão realizar em suas vidas, como irão auxiliar na transformação do contexto onde vivem, e de que maneira poderão, através do cicloturismo, reinventar-se.
É parte integrante das palestras uma exposição das experiências de vida do Professor Sobre Rodas, desde quando o mesmo descobre a bicicleta em sua infância até quando chega, em uma de suas viagens cicloturísticas, a marca dos 2400 km pedalados e a mais de 4.170 metros de altitude acima do nível do mar, além de outras expedições já apresentadas na Revista Bicicleta. Em meio a todos os relatos das cicloviagens, alunos e alunas vão percebendo que existem pitadas de valores humanos, solidariedade, engajamento comunitário, aceitação dos desafios, cidadania, uso consciente da bicicleta como meio de transporte ambientalmente responsável e socialmente justo, meio de intervenção social e promoção de bem-estar, produção de mínimo impacto e mínima interferência no ambiente por onde se viaja, enfim, um conjunto de conceitos e concepções implícitas no discurso do professor, que muda apenas conforme o público, a realidade escolar ou o nível de absorção dos alunos.

Seguimos com este projeto porque vimos o quanto ações como esta podem transformar, com tão pouco, a vida e as expectativas de alunos e alunas por onde passamos. É comum ouvir, no meio de uma palestra, o seguinte: “...professor, se cada um fizesse a sua parte para salvar seu pequeno espaço no mundo, o planeta como um todo teria importantes guardiões, mesmo que usassem uma bicicleta para fazer isto...”, e assim notamos, que a figura do cicloturista sensibiliza o visitado, assim como sensibiliza quem o vê, mesmo que por detrás dos vidros filmados das janelas de um automóvel.
Quando eu contava a respeito de uma expedição que realizei com alguns amigos cicloturistas a Desemboque (MG), matéria publicada nesta revista, na Edição nº 06, não pude deixar de ouvir as manifestações de espanto e de admiração dos alunos ao verem as fotos projetadas no quadro branco, quando de repente sou interrompido pela seguinte afirmação: “...poxa, ‘profe’, quer dizer que todas estas imagens cabem dentro da sua memória depois de cada viagem, e o custo disto são a força de suas pernas e a vontade em sua mente?”. Sim, a força do corpo e da mente associados podem realizar feitos incríveis, mas confesso que tão bom quanto estar nas estradas e nos caminhos rurais, dentro e fora do Brasil, é ter a chance de ver as expressões de sonho e de liberdade nos rostos de alunos e alunas por onde passo. São coisas difíceis de esquecer, porque de certa forma e em certa medida, o projeto está dando sua contribuição cidadã e fazendo uma grande diferença na vida destes jovens, e até mesmo, do restante da comunidade escolar. Nas centenas de ocorrências no Facebook onde os alunos deixam suas opiniões aos participantes de sua rede de contatos, estes jovens chegam a comentar que “nossa, hoje participei de uma palestra que vai mudar a minha vida, porque o meu conceito de pobreza mudou...de bike, posso ir a lugares que os carros não vão, e posso me sentir livre fazendo parte da paisagem por onde irei passando. Hehehe, eu não sou pobre por ter uma bike, eu sou livre!!!”.
Ao realizar palestras nas escolas, por vezes, falo para várias turmas do ensino médio no mesmo dia, nos períodos matutino, vespertino e diurno, e mesmo que a voz já não seja a mesma ao cair da tarde, alguma força me irriga para que eu siga para as turmas de EJA (Educação de Jovens e Adultos) ou para as séries do noturno, inclusive magistério, como é o caso, em algumas instituições. Com o cicloturista, não é diferente. Algo nos move para ir além.

Mas, gostaria de aproveitar para deixar claro, que em minhas ações nas escolas, busco entremear a conversa desafiando os alunos a superar a apatia em que vivem, para que possam dizer não para as escolhas de vida erradas, as quais, não poderão ser mudadas nos futuro. Além disto, insisto que através da escolha que fazem pela bike, podem realizar-se e buscar a felicidade concretizando os seus sonhos e os de outras pessoas ao seu redor. Que ao usar a bike, eles modificam a si mesmos (saúde, bem-estar, experiências novas), o ambiente em que vivem (menos poluição, menos automóveis pela rua, menos violência urbana, melhoria na imagem da cidade) e ainda, conseguem contribuir para que as relações entre os sujeitos melhorem, sejam mais fraternais, mais justas e igualitárias, sem falar, que irão conseguir fazer com que o tempo não passe menos veloz, mas que passe diferente.
Em Barra Velha, por exemplo, na EBB Conselheiro Astrogildo Odon Aguiar, a intervenção do Professor Sobre Rodas repercutiu tanto, que surgiu dos alunos, através de inúmeros contatos pelo Facebook, a idéia de começar a ‘conhecer nossa região usando a bike’, e passada apenas uma semana da realização das palestras na referida escola, um grupo de alunos já se organizou para o primeiro pedal Barra Velha – Piçarras – Penha.
Na EBB Manuel Henrique de Assis, na Penha, instituição que há três anos nos recebe carinhosamente, as intervenções do Professor Sobre Rodas já são esperadas por alunos que, ano passado, não estavam no ensino médio, e que agora, já podem assistir a palestra que tanto mexeu com seus colegas. Quando explicava sobre os benefícios do Cicloturismo e o quanto era simples começar a pedalar com esse intuito, uma menina perguntou “se é tão simples, porque muitas pessoas ainda preferem o carro?”. Quando me preparava para responder, um colega interrompeu dizendo que “as pessoas ainda olham a bicicleta como coisa de pobre, que ao viajar assim não existe conforto ou status. Pena que não se dão conta de que o que observam de dentro do carro mal cabe em suas janelas, enquanto os 180º de visão do cicloturista garantem uma experiência única que pode mudar a noção que temos sobre simplicidade”. Acredito que este jovem do ‘terceirão’ respondeu melhor do que eu e muitos outros companheiros do caminho conseguiríamos.
Mas, o que mais moveu minha mente nestes dias foi ter recebido o convite da direção para realizar a experiência na EBB Alcuíno Gonçalo Vieira, localizada no bairro Tabuleiro, em Camboriú. Para quem não sabe, a escola está no entorno do sub-distrito chamado Monte Alegre, que segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado de Santa Catarina, é o mais violento espaço comunitário do estado, onde a violência em todas as suas formas toma as ruas, em diferentes horários do dia e põe em risco a vida de inocentes a todo instante.

Ainda que cercados por este universo desfavorável, a cordialidade, a gentileza e o sonho são apenas três aspectos gerais dos alunos da referida escola. Ao receber o Professor Sobre Rodas, passaram a declarar cotidianamente o quão capazes eram de romper com as barreiras que os cercam e oprimem, que se sentiam capazes de buscar outras realidades e efetivamente, a felicidade. Camboriú tem uma área rural privilegiada, além de estar separada da afamada Balneário Camboriú apenas pela BR – 101, ou seja, espaços rurais e urbanos acessíveis para fruir sobre a bicicleta. Ao falar sobre o que o Cicloturismo me havia dado em todos estes anos, um jovem comentou que “não sabia que andar de bicicleta podia realizar tanto uma pessoa!”, e completou dizendo que talvez ao pedalar desta forma ele pudesse descobrir o que é ser livre, realmente. Muitos foram os testemunhos escritos pelos alunos e alunas desta escola, os quais guardo como folhas de uma árvore que não quero que envelheçam. Alguns deles, mais reveladores, outros nem tanto. Porém, dentre eles, destaco o de uma jovem que dizia o seguinte, literalmente: “Eu sempre acreditei que fazer coisas deste tipo era para gente rica, atletas, enfim, gente diferente de mim. Eu ando de bicicleta para ir de casa para o trabalho e do trabalho para a escola. Sou gorda, passo vergonha às vezes, me sinto ridícula, incapaz, frágil. Hoje, percebi que não sou nada disso, que sou alguém que pode superar qualquer obstáculo, porque o meu caminho é feito ‘pedalada após pedalada’, e conforme a paisagem for mudando, eu irei mudando. Obrigado por me ajudar a saber que eu sou capaz e a não desistir!”
Tamanho impacto trouxe estas palestras à escola Alcuíno, que antes de sair de lá, já no terceiro dia de intervenções, a diretora profª Cíntia Mendes Fernandes chamou-me para uma conversa e de lá saímos com uma proposta concreta de realizar, na escola, em novembro, oficinas de manutenção de bicicletas, cursos de condução de bikes e outro de bike guides, visto que muitos jovens, em situação de primeiro emprego, conhecem muito bem sua cidade e região, e poderão, após o curso, iniciar atividades que lhes garantam renda digna, intercâmbio cultural e ainda qualidade de vida. Estamos apenas aguardando o momento certo para sentarmos com a Secretaria de Educação, Secretaria de Turismo e algumas forças vivas da comunidade para, enfim, colocar em andamento e concretizar este sonho que nasceu a partir dos alunos.
Sim, companheiros dos caminhos, esta aposta da Revista Bicicleta tem encontrado eco em diferentes âmbitos, não apenas na região onde atuo como Professor Sobre Rodas. Algumas prefeituras e empresas pelo Brasil têm entrado em contato conosco para realizar intervenções, consultorias, palestras, cursos, seminários, com a finalidade de capacitar a comunidade a transformar seu entorno sociocultural através da escolha pela bicicleta. Apenas para citar um esforço que já começa a dar resultados é o começo de uma parceria com a cidade de Niterói – RJ, por iniciativa do cicloativista Glauston Pinheiro, do pessoal da Transporte Ativo, entre outros companheiros.
Esta matéria foi parte escrita em casa, em Piçarras, parte durante a Bike Expo 2011, e fiquei imaginando, humildemente, como seria se várias marcas, produtos e serviços nos apoiassem nesta tarefa de multiplicar professores sobre rodas pelo país. Será que não estaríamos fazendo mais do que vender bicicletas? Será que não estaríamos conquistando mercados conscientes e auxiliando na melhoria das condições de saúde e socioambientais de centenas de localidades pelo país? Será, mesmo que eu seja um grande sonhador com pinta de acadêmico, que já não somos parte de um movimento ideológico de transformação social adiante de seu tempo?
Bom, tudo bem, acredito que a grandiosidade da feira e o poder que lá presenciei fizeram com que minha cabeça pensasse alto demais. De minha parte, com a força de minhas pernas de 41 anos e enquanto a minha velha bike GTProM5 aguentar, me obrigarei a encontrar mais e mais alunos e alunas por onde andar, até porque, uma das frases que uso desde há muito tempo e das que mais surtem efeito nas palestras é que ‘todo caminho leva a algum lugar e a alguém’. Prefeituras, secretarias de desporto, turismo e lazer, entidades classistas, escolas públicas ou privadas, ONGs, indústrias e empresas, enfim, que quiserem levar esta experiência cidadã para sua localidade, basta entrar em contato com a revista e encaminhar solicitação, a qual responderemos com a máxima urgência. Nosso sonho não é pequeno. Queremos ver a bike na vida das pessoas, com outros sentidos mais profundos. E que os caminhos que escolhemos nos levem sempre a outros lugares e alguém que lá nos espera.
Fonte: Therbio Felipe M. Cezar - Professor Sobre Rodas
Enquanto este texto é produzido centenas de milhares de pessoas no mundo inteiro são vítimas da exclusão social e de um sem-número de mazelas. Culpados? Não nos cabe enumerá-los. Sujeitos capazes de fazer a diferença? Poderemos começar por nós mesmos. Os direitos primordiais dos seres humanos passaram a constituir um campo de disputa pela sobrevivência e perpetuação da espécie, tão somente. A nova ordem mundial, os reflexos da globalização possível e insidiosa, além das tomadas de decisão por parte dos chefes de estado dos países poderosos atingem a todos, no presente e no futuro, não importando raça, gênero ou cultura. Porém, neste mesmo universo destaca-se uma nova leitura de comportamento sociocultural, em escala global, uma notável evolução do ser humano em direção a si mesmo. A Ciclocidadania.

O Projeto Professor Sobre Rodas é uma experiência ciclocidadã que leva às escolas e universidades, públicas ou privadas e ainda às empresas, dentro e fora do país, reflexões sobre a promoção da felicidade, levando à construção coletiva da liberdade possível e a integração comunitária através da Ciclocidadania, produzindo-se uma comunidade mais apta para a nossa humana ‘com-vivência’, e não apenas ‘sobre-vivência’.
Venho desenvolvendo intervenções sobre este tema no formato de palestras, conferências e oficinas desde março de 2007, em diferentes ambientes, seja em escolas da rede pública ou particular do Cerrado Mineiro, no litoral de Santa Catarina ou na Serra Gaúcha, ou ainda em universidades públicas e privadas espalhadas por mais de seis estados brasileiros, e até internacionalmente. Já ocorreram mais de 370 palestras a convite destas entidades, incluindo trabalhos com ONG’s, OSCIP’s, Fundações, Sindicatos, Cooperativas e Secretarias Municipais. Neste formato, o Professor Sobre Rodas já falou sobre estes conceitos para mais de 35 mil pessoas no Brasil. Minha intervenção enquanto Professor Sobre Rodas também já foi acompanhada por milhares de pessoas nas páginas da Revista Bicicleta, outras revistas de Turismo e Meio Ambiente, nos programas televisivos Globo Esporte, Rede Minas e no site de informações da Globo, o G1. No exterior, um dos espaços de maior intervenção do Professor Sobre Rodas são as províncias de Posadas e Corrientes, na Argentina, desde 2008.
No ano de 2011, minha parceria com a Revista Bicicleta ganhou força e colocou as rodas e o professor nas estradas e salas de aula, dada a realização de uma série de palestras e conferências no litoral catarinense, no espaço que, circunstancialmente, está disposto entre os três roteiros cicloturísticos: Costa Verde e Mar, Vale Europeu e Barra do Piraí – envolvendo, assim, mais de 30 municípios, desde a cidade-balneária de Barra Velha até Tijucas, e de lá até Presidente Getúlio, quase chegando à sede da Revista Bicicleta, em Rio do Campo.

O teor das palestras (gratuitas para instituições públicas de ensino) atinge especialmente alunos e alunas do ensino médio, os quais se encontram em um determinado momento de apatia em relação à sua participação enquanto cidadãos de um ‘novo mundo em construção’, sendo a cada minuto atropelados pela globalização, seus maniqueísmos (seu lado bom e seu lado não tão bom), pela informação fragmentada, entre outros aspectos. Vemos estes jovens tentando sobreviver às cidades cada dia menos humanas, sucumbindo à violência banalizada em todas as suas formas e a um ambiente em degradação, porque degradada está a sociedade que aceita passivamente perder seu espaço para o concreto, para a velocidade e poder atribuídos aos automóveis, ou simplesmente, por haver esquecido de sua parcela humana, sensível, romântica, dócil, sonhadora, entre tantas outras particularidades
Ao usar ou valer-se da bicicleta como veículo não violento, economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente responsável, o cidadão encontra à disposição toda uma nova maneira de atuar ou ser protagonista de uma ordem que se permite observar expressa nas paisagens, urbanas e/ou rurais. Ele descobre-se inteligente e redescobre-se plural, aopromover um ambiente mais coerente com a qualidade de vida que a grande maioria almeja, ou seja, uma qualidade possível a todos, uma simplicidade latente que busca virar expressão sobre rodas silenciosas, as quais não deixem rastros indeléveis.
Este é o ideal perseguido pelo Professor Sobre Rodas, uma proposta de realidade onde professores e alunos, ambos aprendentes e brincantes, reconstruam seus universos, patrimônios e saberes, seus espaços de convivência, trabalho e frugalidade, reinventando-os e reinventando-se. A ideia de 'rodas' não se refere apenas ao uso da bicicleta como meio de intervenção nas comunidades por onde se passa. Um pouco mais além, as rodas querem sugerir, em cada contexto, o ciclo. A vida é cíclica; o conhecimento é cíclico; a renovação social é cíclica; enfim, somos cíclicos.
Ao completar 20 anos de docência em cursos superiores de Turismo, Hotelaria e Meio Ambiente, percebi que havia muito ainda para fazer. E entendo que o jovem brasileiro sente uma carência ainda maior por não perceber-se atingido pela socialização a respeito do vasto campo de possibilidades socioeconômicas presentes em cada localidade, em sua natureza e cultura, além do cuidado urgente com a gestão dos ecossistemas em risco.
Enquanto professor, sempre entendi que não existe conhecimento sem emoção, não existe aprendizagem se não existe amor ao ‘estranho’, ao outro. Não existe educação se não existe a promoção do ser humano. Sem emoção não existe fé no homem e na transformação da sociedade; sem emoção não existe significado de vida, coisas que aprendemos ao nos lançar ao caminho, nesta ‘sala de aula sem paredes’... Tenho buscado emprestar essas reflexões em meus encontros dentro das salas de aula formais.
“O cicloturismo ajuda a ver que a vida não é movida apenas por dinheiro ou bens materiais, mas sim pelas pequenas, porém importantes coisas. Através do cicloturismo você passa a ser a paisagem, você consegue apreciar, sentir, emocionar-se, e isto eu pretendo levar para a minha vida: coragem para enfrentar os obstáculos que surgirem, assim como o cicloturista os enfrenta, seja o frio, a dor, o cansaço, e embora tudo isto, nunca desiste de chegar a seu destino! (Jeferson J., 17 anos – Escola Manuel Henrique de Assis – Penha - SC).

“Como muitas pessoas dizem, todo cidadão tem uma missão. Meu caro amigo Professor Sobre Rodas, certamente está cumprindo a sua. Seu trabalho de mostrar a nós que sempre deve haver a esperança de ser feliz, da forma mais simples que exista, nos atinge com tamanha convicção que faz com que, se já não acreditamos, voltemos a rever nossas percepções. Cicloturismo e Ciclocidadania são formas de se olhar o mundo de maneira renovada, e tomara que um dia, todos pensem assim.” (Marcos V.S., 17 anos. E.E.B Alexandre Guilherme Figueiredo – Piçarras - SC)
“... depois de ter ouvido aquela palestra senti que eu precisava fazer algo, fazer algo pra me sentir bem e fazer com que as pessoas também se sintam. A história desse Professor Sobre Rodas me fez enxergar que realmente o céu é o limite e que até com uma "simples bicicleta" você pode mudar a vida de uma pessoa.” (Brendon E.V., 17 anos - Escola Alexandre Guilherme Figueredo – Piçarras – SC)
“Sempre busquei mostrar o que aprendi a tantas pessoas eu pudesse, pois acredito ser muito importante que, principalmente nós estudantes, que somos presente e futuro de toda sociedade, possamos parar para refletir um pouco sobre nós mesmos. Não me emociona o fato deste professor falar outros idiomas, ou por ter vivido em outros países, mas sim o simples fato de que quando ele está falando, quem fala é o coração e a essência cultural desses vários povos. As pessoas se identificam com suas palavras encorajadoras, que nos convidam a conhecer mais sobre diversas culturas, sobre o que, querendo ou não, faz parte de nós.” (Auara C. 18 anos – Uberaba – MG, atualmente, estudante de Direito)

“Compreendi como a vida pode ser melhor se ajudarmos o planeta e a sociedade, usando a bike como um veículo da felicidade. Escutar atentamente ao Professor Sobre Rodas mostrou-me que se pode ser feliz deixando que a bike nos proporcione observar as melhores coisas da vida, a natureza, a cultura e a sociedade.” (Emily T. 16 anos - Escola Alexandre Guilherme Figueredo – Piçarras- SC)
“Nossa vida é marcada pelo que somos e pelo que fazemos, e não por um status. Ser feliz e ajudar alguém, fazendo a diferença, é o que importa. (Gabriel G., 16 anos – Escola Alexandre Guilherme Figueredo – Piçarras – SC)
“Depois da palestra fiquei com uma mente mais ampla para o que está acontecendo ao meu redor, da mesma forma como comecei a refletir sobre o que estou fazendo da minha vida, se é certo ou errado e, principalmente, o que quero ser realmente. Ele usa argumentos reais e persuasivos de uma maneira estapafúrdia, porque ele mostra o que é de compreensão difícil parecer fácil e divertida.” (Helena L., 16 anos – Centro Educacional Prisma – Piçarras- SC)
“Entendi que se pode ser feliz com um simples gesto de humanidade, e que isto o deixa com a mente limpa, tranquila. Muitas vezes reclamamos que não temos ‘uma bolacha recheada pra comer’, enquanto tem gente que morre por um simples copo de água. Sempre pensei assim, mas nunca coloquei para fora o que sinto sobre essas coisas... Penso que muita gente não teria a cara e a coragem de ir lá na frente de tantos jovens, fazer e falar tudo o que o ele (o Professor Sobre Rodas) nos proporcionou.” (Rebecca Z., 16 anos – Centro Educacional Prisma – Piçarras – SC)
Fonte: Therbio Felipe M. Cezar - Professor Sobre Rodas

Foram interessantes estes últimos meses. Em verdade, foram reflexivos, por vezes intensos, reafirmaram pontos de vista e promoveram novas concepções.
Ao dizer isso, baseio-me na experiência que tivemos enquanto Revista Bicicleta e Professor Sobre Rodas em nossa ação junto às escolas públicas catarinenses, dentro de um contexto geográfico determinado, quando intervimos falando sobre a cultura em torno da bicicleta, seus resultados ou efeitos ambientais, socioeconômicos e culturais. Mais do que tudo, ao abordar sobre que mundo surge quando fazemos nossas escolhas plurais sustentadas, tanto na realidade, quanto na perspectiva da bicicleta.
Impactamos a vida dos jovens. Esta é uma certeza que já nos parece ser resposta para as promessas e planos que fizemos tempos atrás, e eis que tais jovens não são como nos acostumamos a pensar, os sujeitos do futuro, mas são os cidadãos do dia de hoje e da deste momento em que escrevo e você lê.
Eles estão em toda parte, indo de lá para cá, causando efeito em cada ponto, presentes, ora abertos ou descobertos a um mundo que os engole vorazmente. Eles estão estudando, ou não; trabalhando, ou não; praticando esportes; criando ou modificando nossos padrões de comportamento, mas acima de tudo, eles estão sendo a transformação social no tempo imediato, tão velozes quanto navegam pela internet, reinventam o significado para uma palavra casual ou desafiam as leis da gravidade e da coragem com novidades atléticas ou lúdicas.
É para eles que fazemos páginas todos os meses, não por eles. É para eles que repensamos o que fizemos, para que eles façam de melhor maneira hoje. Os jovens não são nossos planos, penso, são nossas perspectivas e expansões, e possivelmente, consigam realizar mais do que, humildemente, tentamos.
Quando chegamos a esta época do ano, refazemos planos, reorientamos nossas dúvidas e questionamentos, propomo-nos outras atitudes, enfim, a agir diferentemente em alguns aspectos de nossa vida, que não resultaram nos melhores momentos destes doze meses mais recentes.
Estamos, a todo instante, vendo reclames televisivos em torno do consumo em épocas de festa, sugestões para equilibrar o orçamento no próximo ano, soluções hipotéticas de como obter índices espetaculares, fazendo o que está na moda, ainda que a moda esqueça que somos todos diferentes, que não existem, por mais que nos sufoquem com esta ideia, fórmulas uniformes, que correspondam a todos nós, inequivocamente.
Reflito a respeito do que temos feito em torno do universo da bicicleta, todos nós, professores, pais, alunos, comunidade, dirigentes, enfim, não a título de julgamento nem de avaliação, porém, com significados relacionados à transformação que prometemos ano passado, nesta mesma ocasião, e que não conseguimos, pelas mais diferentes desculpas, levar à efetividade.
Atribuímos nosso insucesso em sustentar uma cidade em todas as suas dimensões, às forças da natureza, mas devíamos ter pensado melhor antes de especular o espaço litorâneo, ou a várzea, ou a cuesta (ficaria melhor costa. SUFESTÃO, apenas), ou ainda, o banhado. Será que não seria melhor ter reservado entre nossas promessas, mais espaço para as pessoas e menos espaço para os carros? Mais espaço para estar culturalmente com o outro, ao contrário de impermeabilizar o solo e verticalizar a paisagem, quem sabe?
Falamos tanto a respeito da violência e não a reconhecemos na velocidade atroz e impiedosa de um veículo motorizado sendo ‘pilotado’ por alguém igual a nós, porém, que crê que tem mais poder e, consequentemente, mais direito.
Ironicamente, fazemos jardins nos terraços e sacadas nos altos prédios, mas não pensamos neles antes de escolher pelo desenvolvimento que exclui antes de virar estatística. As reflexões são inúmeras, mas afinal, o que estamos, realmente realizando?
Em nossa singela tarefa cicloativista, já dissemos repetidamente os benefícios que o uso consciente da bicicleta no cotidiano traz à vida de todos, já indicamos técnicas, orientações e baseamos nossas inferências no que de mais vanguardista há na ciência e na cultura, que envolva o hábito cidadão de ciclodeslocar-se.
Apontamos caminhos, sugerimos equipamentos, aconselhamos gestores públicos a contar com profissionais que entendam a cidade como um ser vivo. Dividimos experiências, retransmitimos exemplos de personagens, de comunidades e de organismos institucionais. Ousamos propor conceitos, compartilhamos de um sonho que está parcialmente realizado porque parte de nós já escolheu por ele. A outra parte, independente de proporção, ainda está fazendo promessas que serão adiadas no final de 2012.
Estas promessas, em grande parte, comprometem a vida de muitos ao nosso redor, põem em risco a saúde e a beleza da cidade; adiam para um tempo que não está em estoque aquelas decisões que transformam tais promessas em compromissos realizados e cumpridos.
Penso que precisamos sair dos planos. Efetivar as transformações com as quais sonhamos. Realizá-las. Uma pedalada após a outra. Tornar cíclico o ato de pensar, compartilhar e agir em conjunto. Valendo-me, por fim, do lugar comum, quem sabe esteja na hora da tal fraternidade ser descolada dos anúncios de final de ano e ser impressa em nosso fazer individual e coletivo.
O que fará no próximo ano? A Revista Bicicleta e o Professor sobre Rodas continuarão. E todos aqueles (públicos e privados) que quiserem tomar para si o plano comum que temos, sintam-se convidados a contribuir nessa ação ciclocidadã. E então, vai pedalar?
Fonte: Therbio Felipe M. Cezar - Professor Sobre Rodas

Por compreender o turismo como uma busca, não como uma fuga, eu, Therbio Felipe Cezar, gaúcho da cidade de Pelotas, Turismólogo e especialista em Educação Ambiental e meu grande amigo uberabense Tássio Franchi, mestre em História, à época professores da Universidade de Uberaba-MG, resolvemos buscar algo de diferente para realizar em nossas férias docentes, no verão do ano de 2007.
Optamos, então, pelo cicloturismo - um estilo de viajar que atende a um segmento de turistas exigente, principalmente no tocante aos roteiros elaborados e que, neles, esteja sempre presente o envolvimento com as culturas por onde passar, a inserção na paisagem, o deslocamento não-poluente, a integração com o ambiente e a liberdade do uso do tempo de interação da viagem.
A ideia inicial baseava-se em realizar uma viagem de estudos valendo-se da bicicleta como veículo, desde Foz do Iguaçu – PR até a fronteira da Argentina com o Chile, na Cuesta Lipan, atravessando as províncias argentinas de Misiones, Corrientes, Chaco, Salta e Jujuy, através daquela que é considerada pelos cicloturistas como uma das dez estradas mais bonitas do mundo, a Ruta 12. Interessante é que nem eu nem meu grande amigo (a quem eu chamo de irmão) éramos atletas.

Vale lembrar que muitas vezes, antes de empreender uma viagem, o viajante se mune de ideias formadas, pré-concebidas, a respeito do lugar a ser visitado e parte, carregando consigo alguns conceitos que, em certos casos, bloqueiam ou dificultam uma percepção mais apurada das paisagens e, em grande medida, da cultura a encontrar pelo caminho. Conosco não foi diferente. Colocamos na bagagem além do material necessário para pedalar por muitos dias e quilômetros, toda uma experiência acadêmica do caminho a qual julgávamos seria determinante. Ledo engano. Desde as primeiras horas do percurso, o caminho já demonstrava como ‘ele’ queria que o percorrêssemos.

Naquele momento, embalado apenas pelo som das rodas das bicicletas sobre o estreito acostamento de asfalto quente, passando por Puerto Esperanza, lembrei-me de uma canção antiga, argentina, do poeta Juan Manuel Serrat, a qual me orientava dizendo que “caminante, no hay camino, si hace el camino al andar...”. Este foi o primeiro de um sem-número de ensinamentos: é necessário ser humilde e perceber o que o caminho quer mostrar, como ‘ele’ quer se mostrar, e como ‘ele’ permite que descubramos as riquezas por traz de cada curva, os segredos por detrás dos traços das construções e do colorido das vestes, e o mais importante, o significado da experiência resultante do encontro entre quem visita e quem é visitado. E afirmamos que depois deste encontro, nem um nem o outro são os mesmos.
Imaginávamos, a priori, realizar uma viagem de aproximadamente 1.700 km, sem carro de apoio, carregando nos alforjes das bicicletas, cada um, 40 kg de bagagem escolhida a dedo, passando por regiões onde a temperatura oscilava entre os 17ºC e os 36ºC no verão e ainda, alcançar a altitude de 3.000 m acima do nível do mar, pedalando cerca de 6 horas por dia. Mais um engano. Na região, chove pelo menos 15 minutos por dia no verão. Em quase todos os dias a chuva transformou o peso da bagagem dos alforjes em quase 60 kg. Além disso, as temperaturas durante o dia chegavam a 44ºC e no asfalto, a sensação era de mais de 52ºC. Já à noite, em alguns pontos experimentamos, em pleno verão, temperaturas próximas ao zero grau.

Em alguns dias chegávamos a pedalar 10 horas seguidas, interrompendo apenas para a tão esperada siesta, uma parada que os argentinos daquela região sabiamente mantêm como costume, descansando entre o almoço e às 16 h, quando o comércio reabre e a vida segue. Iniciamos a pedalada a 20 de dezembro de 2006 e encerramos a 23 de janeiro de 2007, após mais de 2.000 km entre paisagens e gente da melhor qualidade.
Na província de Misiones, banhada em toda sua extensão norte pelo rio Paraná, encontramos povoados costeiros muito simples, de gente amistosamente curiosa, sorridente e acolhedora. Seguíamos de alma leve em direção à capital da província de Misiones, Posadas, sem saber do carinho gratuito e fraternidade que haveríamos de encontrar pelo caminho. A água com a qual abastecíamos os Camelbacks (mochila de hidratação) e caramanholas (garrafinhas de água),por vezes era de qualidade duvidosa, ainda que solidariamente cedida pelos habitantes dos vilarejos ribeirinhos, debruçados de um lado sobre o rio Paraná, e de outro, sobre a Ruta 12. Em decorrência disto, por infelicidade,
Tássio foi acometido de uma infecção gástrica forte, o que o debilitou e arrancou suas forças. Ao chegar à cidade de San Ignácio, encontramos mais uma vez a cordialidade e gentileza gratuita do povo local, na pessoa do señor Jiménez, proprietário do hostel onde nos hospedamos, descendente de nativos paraguaios. Ao ver que Tássio não convalescia, este senhor buscou fazer-lhe um chá de Ajenco, algo que lembrava nossa losna mais amarga. Não sei se o chá ou o amor ao estranho do qual estava impregnado levou Tássio a recuperar-se. Na verdade, agora sei.

Nesta região visitamos reduções jesuíticas guaranis muito bem conservadas e abertas à visitação, algumas delas datadas de 1695. San Ignácio, Loreto e Santa Ana são três preciosos resquícios do período no qual jesuítas levavam os nativos a construir verdadeiras fortificações de defesa contra os espanhóis, hoje, tombadas pela UNESCO como patrimônio da humanidade. Vale, neste momento, fazer o primeiro elogio ao povo argentino, o qual sabe muito bem preservar seus legados culturais e, como um regalo, brindar aos olhos e à alma do visitante toda uma experiência de cultura nativa. Em nenhuma das visitas feitas às ruínas jesuíticas guaranis vimos lixo, depredação, vandalismo ou descaso público. Estas localidades são um exemplo de como cidadania, cultura e turismo podem, juntos, dar certo em pequenas vilas ou cidades, inclusive, no Brasil.
Este lugar de uma simplicidade especial nos trouxe, já nos primeiros dias de viagem, uma sensação de que esta experiência seria ímpar. Lembro-me de ver meu ‘irmão’, sozinho e ajoelhado em plena praça das ruínas de San Ignácio, emocionado, confessando em sussurro entre lágrimas, que havia estudado a vida toda sobre aqueles povos e lugares, e agora ele estava ali fazendo parte da história. Jamais vou esquecer aquela cena. Não se esquece aquilo que se ama e não se ama aquilo que não se conhece.

A energia de San Ignácio (e o chá do señor Jiménez) nos renovaram e contribuíram para a sequência de nossa empreitada, tomando, novamente, a Ruta 12, sentido oeste, em direção à bonita Posadas, capital provincial às margens do Paraná. Lá, tivemos a grata companhia de um casal de médicos, señor Rolando Mondelo e esposa, que nos abordaram gentilmente questionando sobre nossa viagem e dedicaram uma hora de seu momento de almoço para compartilhar conosco. O mais emocionante é que, após a longa conversa fraterna e fotos, o casal se despediu e foi-se, deixando ao Tássio e a mim embargados e com os olhos marejados, quando descobrimos momentos depois, ao pedir a conta ao garçom, que o casal havia pagado tudo, e nem tivemos a chance de agradecer.
Restaurados pela refeição e pelas dádivas do caminho, seguimos em direção ao balneário de Ituzaingo, já na província de Corrientes, sem nem sequer imaginar o que, a esse ponto, o caminho reservava. Além da beleza da praia de Soró, do sabor da gastronomia local baseada em pratos de surubim, a pequena cidade oferece o que muitos turistas necessitam após um longo trecho de viagem: hospitalidade.

Após algumas horas relaxando sob o sol de janeiro, nas águas límpidas, tépidas e convidativas do rio Paraná, eu e Tássio fomos procurados por um senhor, de nome Miguel Müleck, descendente de alemães e mergulhador profissional, ali residente. A conversa foi rica em cultura, honesta e se constituiu em uma troca tão intensa que, ao final de três horas, Miguel nos convidou a cear com sua família, logo mais, à noite, já que se tratava de 31 de dezembro. Quem em sã consciência, nos dias de hoje, se preocuparia em convidar a dois estranhos viajantes a passar a noite de Réveillon em sua casa, entre seus amados e amadas? Bom, penso que isto desafia a qualquer um de nós. Em poucas e valiosas horas, o casal Miguel e Mónica, e os filhos, Bárbara, Ingrid e Lucas souberam transformar-se na nossa família em Ituzaingo – Argentina. A hospitalidade não é um predicado exclusivo dos brasileiros, e gostaria de deixar patente que durante toda nossa viagem, em nenhum momento as conversas penderam para banalidades ligadas à disputa entre os ‘reis do futebol’ ou para a infeliz ideia de rivalidade que ainda repousa nas mentes de algumas pessoas quando o assunto é Argentina. Estamos falando de um povo culto, muito bem informado e politizado, conhecedor das maravilhas e dos defeitos do seu país, apaixonados por nós, por nossa música (de boa qualidade, é lógico), pela cadência que temos ao andar, pela sonoridade de nossos falares, pelas nossas paisagens, enfim, admiradores das coisas que valem a pena em nós e neles. São eles senhores da hospitalidade, e detrás dos meus óculos, se um destino turístico pode ser considerado assim, por sorte, é a Argentina.
Depois de três dias em Ituzaingo, outras pessoas maravilhosas faziam por onde manter-nos na acolhedora e singela cidade. Não há como deixar de citar Maria Lourdes Galarza e Verónica Fieni, da Secretaria de Turismo de Ituzaingo, das quais recebemos todas as informações e o primeiro chimarrão amigo ao chegar.
Havia que seguir, ou melhor, fugir... saímos cedo demais para sermos notados, silenciosos e furtivos entre os primeiros raios de sol, seguindo a Ruta sem trocar sequer uma palavra por horas, tamanha era a emoção de deixar para traz uma cidade que é sinônimo de ‘casa’ para nós. Como se pode notar, o caminho brindou-nos com paisagens, mas o melhor sempre são as pessoas. Cruzamos Corrientes, El Chaco, chegando a Salta, uma das capitais culturais argentinas, a qual abriga folclore, excelentes universidades, saborosa gastronomia del gaucho, paisagens espetaculares e mais gente linda.

Deixando Salta e a Ruta 12, subindo a Ruta 9 em direção à província de Jujuy notamos que a paisagem mudava a cada quilômetro, visto que a cordilheira já se fazia perceber. Ao chegar quase na fronteira com a Bolívia, contemplamos, sem fôlego (paulatina e subjetivamente falando) a Queblada de Humauaca, um cânion gigantesco, imponente, que destaca o vale do Rio Grande e que convida ao viajante a conhecer e encantar-se com a cidade de Humauaca, localizada a 3.000 m de altitude, composta de vielas, ruas estreitas, pão ázimo sendo assado em uma grelha na calçada, nativos cholas, quechuas e casas de adobe quadricentenárias, albergues da juventude e campings, além de lamparinas e lampiões nas fachadas das casas que dão um toque sépia ao cenário. O lugar foi rota de grupamentos pré-incaicos e via de comércio entre o Rio de La Plata e Potosi, no sudoeste da Bolívia.
Dois dias se passaram em meio à interação com várias pessoas que buscavam, como nós, o melhor da cena puneña, como os casais Damian e Celina, turistas de Buenos Aires e Carlos Alba e Clarisa, proprietários do El Parador, restaurante típico local. Seguimos viagem ruma à última parte de nosso trajeto, tomando o rumo da Puna Jujeña em direção à Tilcara. O colorido das montanhas, em várias tonalidades, contrastava com o verde pujante de algumas vilas silvícolas como Maimará e Huacalera, debruçadas sobre a estrada. Ao chegarmos a Tilcara (2.900 m acima do nível do mar) verificamos que a data coincidia com o Festival Folclórico de Verão, no denominado Enero Tilcareño, ocasião em que a cidade se veste de cultura nativa para receber turistas de toda a parte. Tilcara também é considerada a Capital Arqueológica de Jujuy, dado o imenso acervo de materiais que datam de séculos atrás.
Lá visitamos o imponente Pucará (lugar fortificado, na língua quechua) de Tilcara, um fortim construído a 70 m de altura pelos nativos humauaquenhos a fim de defender-se do Império Inca do norte e de algumas investidas dos povos do oeste, ao final do século XV. O campo de visão de 360º dá a noção da resistência a invasões oferecida em Tilcara, além de uma contemplação surpreendente.
Fonte: Therbio Felipe M. Cezar - Professor Sobre Rodas

Nos olhos dos jovens encontramos o brilho especial de quem sonha e espera um futuro melhor. No calor da família, estes sonhos encontram o ambiente ideal para as mudanças saudáveis e necessárias. E a bicicleta é o veículo que transporta estes ideais, no tempo certo, permitindo o contato com o caminho e com as pessoas, para um lugar mais humano e mais igualitário. O encontro da ambição dos jovens pela novidade com uma causa benéfica como é a da bicicleta, que tem impacto direto na qualidade de vida e sustentabilidade, proporciona as ondas mais altas do mar da vida, que trazem mudanças relevantes e grandiosas.
Foi com o intuito de fortalecer esta constatação e divulgar a cultura da bicicleta, que o editor da Revista Bicicleta, Jota Petris, aceitou o convite para conversar com a comunidade da Escola de Educação Básica “Dr. Fernando Ferreira de Mello” e, em palestra, abordar o assunto. “Visto que a maioria dos participantes eram jovens, que já usam a bike para o lazer - o que é muito bom - a palestra enfatizou os objetivos mais nobres da bicicleta: mobilidade, qualidade de vida, meio ambiente, sustentabilidade como um todo”, destaca.

A escola localiza-se no município catarinense de Rio do Campo, que possui pouco mais de 6.000 habitantes. É a típica cidade calma e acolhedora que muitos moradores dos grandes centros gostariam de estar. Clima agradável, relevo relativamente plano, trânsito tranquilo e a parte urbana compacta... Ideal para pedalar! Adriana Vavassori, professora que participou do passeio, aproveita estas condições e já utiliza a bike no dia a dia. “Costumo vir de bicicleta para a escola e também a uso para visitar meus familiares, que moram em uma localidade rural, a 14 km.”
Com alguns cálculos, foi apresentada a diferença que faz um carro a menos na rua, e como o futuro do planeta e da humanidade depende de ações assim. Com breves comparações, também foi mostrado porque a bicicleta é o veículo mais eficiente da terra. Outro tema abordado foi o mito de que a bicicleta é veículo de pobre, cultura bastante arraigada no sul do Brasil. Os jovens foram incentivados a promover a causa da bicicleta junto aos familiares e amigos e terem orgulho de usar a bike.

Conceição Aparecida P. Debarba, coordenadora do projeto e professora da escola, revela que “a ideia do passeio ciclístico surgiu como forma de incentivar as crianças e os jovens a usarem a bicicleta de modo consciente e refletir sobre a cultura da bicicleta”. Mas o que, a princípio, seria apenas um passeio ciclístico com os alunos, ganhou contornos mais abrangentes. “Depois de discussões sobre o evento, chegou-se à conclusão de que era preciso envolver não apenas os alunos, mas também a família. Além disso, não bastava apenas andar de bicicleta, era preciso ir mais longe, aprofundar o assunto de tal maneira que alunos, pais e comunidade escolar se sentissem responsáveis também pela divulgação dessas novas informações”.
Para o assessor de direção da escola, Veroni Alves, “o evento conseguiu envolver alunos, pais, professores, avós, crianças que nem vem para a escola ainda. Isso tem um impacto muito positivo, não só nos benefícios da bicicleta, mas também no entrosamento dos jovens e das famílias. Quando vemos um pai aqui, pedalando junto com a família, com certeza ele está sendo um bom exemplo”. Clarisse Becker Felizardo, diretora da escola, destacou a empolgação dos alunos nos preparativos do passeio. “Havia uma expectativa muito grande para o evento por parte dos alunos, que surpreenderam e trouxeram vários da família. Penso que precisamos realizar cada vez mais eventos assim. Essa conscientização tem que ser uma ação contínua, porque mudar uma cultura não é fácil”.

Com a participação efetiva das famílias e da escola, um grande número de alunos, familiares e professores partiram para o Primeiro Passeio Ciclístico da E.E.B “Dr. Fernando Ferreira de Mello”. “Nós estamos ansiosos, porque estamos esperando isso faz tempo”, revelou Kardec Ramos, um dos pais presentes. “Sempre passa pela nossa cabeça andar de bicicleta. Aliás, já passou da hora de usarmos a bike no dia a dia. Por isso, essa iniciativa é excelente. Mudou e ainda vai mudar a cabeça de muita gente”, finaliza Kardec.
Para o presidente da Associação de Pais e Professores da escola, Darci Kotelak, “o passeio foi ótimo. Deveria acontecer mais vezes por ano”. Dr. Luiz Eduardo Andrade também participou do passeio com sua filha. “Foi uma experiência muito bonita. Um estímulo para as pessoas começarem a utilizar a bicicleta. Rio do Campo é uma cidade muito boa para isso, eu uso pouco o carro aqui, normalmente saio a pé ou de bicicleta, mas as pessoas ainda são sedentárias, utilizam muito o carro. A questão é cultural, mas também falta incentivo, e esse evento, com a palestra e o passeio, funciona justamente como um estimulante”.
Para o professor Claudino Debarba, “o evento foi maravilhoso. É assim que se faz, plantando uma sementinha que a gente vai colher os frutos daqui uns dias. E os jovens estão muito abertos para isso. Quando se fala em alguma coisa para ser diferente, eles estão dentro”. Além da conscientização, o passeio proporcionou momentos de lazer e descontração. “Foi muito divertido”, declarou Amanda Rebeca Vargas, aluna.

Segundo Petris, “o principal é que a maioria se conscientize de que precisa mudar, e que para isso, não adianta ficar só reclamando e esperando mudanças. Precisamos fazer parte da mudança, por fazer a nossa parte: mudando hábitos, conceitos, reivindicando de forma pacífica e, principalmente, pedalando”.
Reivindicar e fazer a diferença combina muito com a energia dos jovens. Por isso é tão importante apostar neste trabalho nas escolas como forma de conscientização para o fortalecimento da cultura da bicicleta. Os jovens acreditam que podem mudar o mundo, e precisam ver que realmente podem: não sendo o “cara mais rico”, a “mulher mais bonita” ou “a pessoa mais popular”, mas cuidando das pequenas coisas, às vezes anônimas, simples, como andar de bicicleta, mas realmente importantes.

Os participantes fizeram o Primeiro Passeio Ciclístico da E.E.B “Dr. Fernando Ferreira de Mello” ser um verdadeiro sucesso. Mais do que isso, deram um primeiro passo importante para a conscientização sobre a cultura da bicicleta, e “depois que se dá o primeiro passo no caminho do conhecimento, é impossível retornar”, como finaliza Conceição.
No final do passeio, foram sorteadas quatro bicicletas, um computador, capacetes e outros acessórios, e distribuídos vários brindes, o que foi possível graças ao apoio de: Isapa, JK Bike, Revista Bicicleta, Banco do Brasil, Lojas Berlanda, JSS Confecções, Supermercado Uliano, Refrisul, Panificadora La Petitosa, Academia Body Evolution, Farmácia Farmalu, Vida e Saúde, Comercial Baldo Master Vale, Auto Elétrica Miranda, Loja Maria Flor, Hermes Vidros, Mercadão do Dia, Sirlei Bazar e Presentes, Mari Modas, Auto Peças Avenida Ltda, Auto Escola Rio do Campo, Loja Tiane, Auto Posto Rio do Campo, Cresol e Drª. Maria Angélica Lucca.
Fonte: Revista Bicicleta
