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Salar de Uyuni de Sul a Norte em Bicicleta

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Salar de Uyuni de Sul a Norte em Bicicleta
Foto: Ana Vivian e André Costa

Desde que ainda vivíamos em um pequeno apartamento na região universitária de Florianópolis, sonhávamos em conhecer o Salar de Uyuni. Naquela época hospedávamos ciclistas através do site Warmshowers, uma rede de hospitalidade entre ciclistas, e um destes ciclistas foi o boliviano Kevin Bauer, que passou por nossa cidade em 2011 em sua volta pela América Latina de bicicleta. Kevin foi um dos colaboradores na criação de um guia, feito para ciclistas, e por ciclistas que está disponível para download no site Tour.tk. Este guia é muito rico em detalhes importantes para quem viaja de bicicleta de maneira independente pela Bolívia, pois informa locais onde se abastecer de água e mantimentos, entre outras coisas. Kevin foi um dos principais colaboradores sobre as rotas mais interessantes a se fazer em bicicleta pelo Salar de Uyuni. Conhecê-lo pessoalmente, e poder tirar umas dúvidas com ele pela internet, logo antes de embarcarmos no "Mar de Sal", nos deu a coragem necessária para realizar este sonho de tantos anos. Ele nos contou que muitos ciclistas já perderam a vida no Salar, devido ao desconhecimento das condições climáticas e rotas, pois trata-se de um deserto, e em certas condições é muito fácil perder a direção, ficar sem água, ou passar frio à noite por falta de equipamento adequado, já que as temperaturas em certas épocas do ano podem chegar a -25°C.

Vínhamos de um longo e extenuante trecho pelo Sudoeste da Bolívia, uma região conhecida como Ruta de las Lagunas, que passa por dentro do Parque Nacional Eduardo Avaroa. Sabíamos que passaríamos dias e dias sem encontrar pontos de apoio para comprar comida, então tivemos de nos planejar bem ainda antes de deixar o Chile, em San Pedro de Atacama todo o roteiro até a cidade de Oruro. Quando chegamos ao povoado de San Juan de Rosário, já faziam 9 dias que vínhamos pedalando neste trecho difícil, pois as estradas por ali são não propriamente estradas, senão trilhas feitas pelos veículos 4x4 que levam turistas ao Parque Eduardo Avaroa. San Juan de Rosário foi para nós um oásis, e podemos descansar em uma hospedagem construída com blocos de sal muito econômica e aconchegante. Sabíamos que em San Juan só conseguiríamos o básico dos mantimentos, mas devido ao fato de que levamos uma dieta vegetariana estrita, ou seja, sem carne, leite, ovos e derivados, já estamos acostumados a garimpar entre os moradores locais em busca de vegetais, e conseguimos excelentes ingredientes mais uma vez, graças à solidariedade das pessoas, que nos vendiam batatas, cenouras e cebolas de seu próprio estoque.

San Juan de Rosário é praticamente a porta de entrada sul ao salar de Uyuni, e pretendíamos cruzar o salar de sul a norte sem passar pela cidade de Uyuni, evitando um desvio bastante grande. Pelas dicas de nosso amigo, sabíamos que deveríamos nos guiar pelo Vulcão Tununpa, ao norte, e que segundo ele, é a rota mais fácil para não perder-se. A entrada Sul ao salar de Uyuni não é obvia, pois há várias marcas de pneus em diferentes direções, o que pode desorientar quem não conhece a região, e além disso, a Ilha Incahuasi ainda não é obviamente visível do ponto onde o salar começa, ao olhar para o norte se pode ver diversas pequenas ilhas. De San Juan de Rosário teríamos que passar pelo povoado de ColchaK, mas pegamos a estrada errada e fomos parar direto no salar. Como o tal povoado seria nosso último ponto de apoio de água antes de chegarmos a Ilha Incahuasi, ficamos um pouco apreensivos. Havíamos trazido pouca água conosco, acreditando que não seria difícil perder o povoado. Por sorte encontramos um veículo turístico que levava uns brasileiros para a Rota das Lagunas, e o motorista nos informou que havia mais um povoado indo naquela direção, Puerto Chivica.

Depois de empurrar a bicicleta por uma hora em um trecho de sal úmido e lamacento, chegamos a uma estrada nas bordas da montanha, e logo encontramos Puerto Chivica e o mar branco. Puerto Chivica não passa de uma meia dúzia de casinhas, uma hospedagem simples, uma pequena vendinha de suprimentos básicos e uma placa. Nos abastecemos de água em nossa máxima capacidade e ingressamos ao Salar de Uyuni de uma vez por todas, já era metade da tarde, havia muito vento contra e o tempo nublado deixava nossos corpos gelados a qualquer pausa para lanche ou descanso. No início, se segue uma estrada de terra por uns 3km, elevada sobre o salar, até que se encontra uma bifurcação não muito óbvia e se inicia a pedalar no terreno completamente branco do salar, em direção levemente noroeste. 

Não encontrávamos nenhuma "pista", apenas algumas marcas suaves de rodas que iam em todas as direções possíveis. Neste dia ainda podíamos ver o Vulcão Tununpa muito ao longe, e alguns veículos minúsculos no horizonte branco, então deduzimos mais ou menos uma rota, e logo percebemos que não perderíamos o rumo graças ao Xixi. Sim, ao xixi! Afinal descobrimos que o salar não é tão branco assim. Como o pessoal que viaja de carro turístico ou de bicicleta não tem moita para se esconder, o jeito é aliviar suas necessidades no meio do deserto branco, a maioria não se dá ao trabalho de se afastar da "pista" principal. Aí fica fácil saber qual o lugar onde mais pessoas passaram, guiando-se pelas manchas amareladas sobre o salar. 

Nossa primeira noite no salar, já estávamos longe do povoadinho de Puerto Chivica, sem ainda ter em nosso horizonte a Ilha Incahuasi, nos sentíamos um pouco nervosos e ao mesmo tempo muito felizes por estar ali, passando a noite numa imensidão branca, vendo com nossos próprios olhos uma paisagem que mais parece um cenário de um sonho surreal. Ao cair da tarde já não passam mais veículos, e pudemos escolher o melhor lugar, que neste caso poderia ser em qualquer lugar, a imensidão estava à nosso dispor!

Prontos para montar nossa casa, havíamos lembrado da importante dica de Kevin de carregar uma pedra para auxiliar a montagem da barraca e poder fixá-la bem com todas as cordas. Por ser um deserto, é comum ventar forte, e pela superfície ser extremamente dura, enfiar os pinos no chão não é tarefa fácil sem uma boa pedra. Assim que o sol se foi no longíncuo horizonte monocromático, o frio se apoderou de nossos ossos. Sabíamos que poderia ser tão frio como as noites na região Sudoeste da Bolívia, onde comumente acordávamos pela manhã com o termômetro marcando -17°C. Então nos preparamos para uma noite fria, seca e ventosa. Quando já dormíamos profundamente em plenas nove horas da "madrugada", escutamos um estranho ruído de plástico amassando, pensamos "Ratos por aqui, mas que merda, estão a revirar nossos alforges de novo!". Abrimos o zíper da barraca e percebemos que uma fina chuva, um pouco congelada caía, por isso estavamos passando calor com tanto agasalho dentro do saco de dormir, o clima havia virado e a temperatura havia aumentado um pouco. E como sempre, o André foi quem teve que sair da barraca naquela friaca para cobrir os selins da bicicleta, que se estragam com a chuva. "Que azar", pensávamos," justo no salar vamos pegar chuva? É a maldição da Carretera Austral nos perseguindo?". Em seus sonhos esta noite, Ana se via acordando com a barraca toda cheia de sal encalacrado, as bicicletas cobertas de ferrugem e um sal formando uma crosta seca nas correntes e relação da bicicleta, um pesadelo!

Mas pela manhã não estava tão mal como no sonho da noite anterior. O salar estava levemente alagado, fazia pocinhas salgadas por toda parte, e uma fina chuva caía. Enquanto tomamos nosso café da manhã a chuva parou e uma claridade ameaçou abrir um céu azul. Mas foi tudo enganação porque assim que estávamos prontos para pedalar, o céu se fechou outra vez, começou um vento frio nos empurrando nas costas como quem diz "Vai meu filho!", e seguimos um pouco emburrados pensando "Que droga, todas as fotos que vimos do salar eram de pessoas alegres pedalando sob um céu azul, sobre uma superfície lisamente branca, isso aqui não é nada como imaginamos!". A superfície era rugosa, como a de uma estrada de chão cheia de pedras salientes, estava frio, o céu era tão branco quanto o salar, só víamos uma fina linha acinzentada que dividia o firmamento da terra, o Vulcão Tununpa sumira de nosso horizonte, não sabíamos que ilha das que víamos era a que teríamos que mirar, não tínhamos nenhuma vontade de comemorar estarmos realizando nosso sonho, tínhamos um pouco de mau humor, causado sobretudo pela falta de energia feliz que nos traz o sol de cada manhã. Rezávamos para o tempo limpar. Ainda cedo pela manhã não víamos nenhum veículo. Seguíamos com dúvida naquela paisagem completamente branca, céu e terra pareciam ser uma coisa só, como um cenário de fundo inifinito por todos os lados, silêncio absoluto se não fosse pelo ruído de nossas bicicletas, uma sensação estranha, não estaríamos dentro do show de Truman?

Ao avançarmos começamos a visualizar a Ilha, quanto mais pedalávamos mais firme sua imagem, mas parecia não chegar nunca. Nada mudava ao avançarmos quilômetros senão o tamanho da Ilha e mais dores no corpo devido a trepidação da pista, tudo ao redor era monótonamente branco, mas tínhamos um vento frio a nosso favor e isso era bom! A 3km da Ilha, Ana não conseguia mais pedalar, tomada pelo desânimo, começou a caminhar, seus ombros doíam demais, André gentilmente acompanhou também caminhando neste trecho, não trocávamos palavra, azedos que estávamos. Na Ilha tomamos um lanche observando as poses as vezes hilárias e as vezes patéticas dos turistas que faziam fotos de perspectiva forçada, o que foi suficiente para recuperarmos um pouco o humor. Economizamos o dinheiro de entrada na ilha porque nos restava pouco, e com o pouco que tínhamos teríamos que chegar até Oruro. 

Nos informamos da direção a seguir para alcançarmos o povoado de Tahua, que fica ao lado oeste do Vulcão, a partir da Ilha a "pista" melhora consideralvelmente, é bem marcada e deliciosamente lisa! Pedalamos até o entardecer e nos afastamos um pouco da rota para montarmos nossa casa de tecido. O céu começava a abrir um azul suave e o sol se despedia em meio a algumas nuvens insistentes, causando aqueles lindos reflexos que mais parecem a presença de Deus a nos abençoar. Nos sentimos verdadeiramente abençoados de estarmos mais uma noite ali, naquele lugar único no mundo, realizando um grande sonho, com o sol recuperamos a vontade de comemorar, pulamos, gritamos, fizemos fotos bobas e felizes da vida cozinhamos nossa gororoba para a janta, mais um macarrão com orégano, azeite e habas¹ que parecia um banquete para nós, estávamos famintos.

Na manhã seguinte frestas de azul celeste se mostravam como manchas esparsas no céu, fiquei imensamente feliz de finalmente ver alguma cor que não o branco acinzentado do dia anterior. Ficamos boa parte da manhã fazendo as mesmas poses patéticas, tal qual os turistas que vimos no dia anterior, centenas de fotos de perspectiva forçada até quase acabar a bateria da câmera, éramos crianças bobas e felizes. Pra completar nossa coletânea de fotos bobas, tiramos todas as roupas e pedalamos pelados por um pequeno trecho do deserto imenso. Mas assim que vimos um minúsculo veículo ao longe, começamos a nos vestir o mais rápido que pudemos, sentindo como se tivéssemos aprontando uma travessura. Poucas vezes na viagem nos divertimos e rimos tanto quanto nessa manhã, as mandíbulas doíam. Se alguém um dia por acidente ver estas fotos secretas vamos dizer que era porque precisávamos um pouco de vitamina D que havia faltado no dia anterior.

Ainda pela manhã alcançamos a margem norte do mar de sal, ao longe o brilho do sol refletido nos vidros das casas indicava onde estava o povoado. Chegamos à praça central da cidade justo quando desabou uma chuvarada de uma nuvem só, que esbarrava no Vulcão Tununpa. Dali em diante seguiríamos por uma estrada de terra, a primeira estrada de verdade desde que entramos na Bolívia.

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