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Velotur

Santa Catarina

Revista Bicicleta por Eliana Britto Garcia
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13/10/2011
Velotur
Foto: Marcos Tulio Barreto

"Velotour Costa Verde e Mar, lindo por natureza, emocionante pelos caminhos em meandros, pelos desafios sobrepujados, pelos suspiros que são lançados diante do que podemos ver, seja na terra preparada, seja na terra ainda bruta, com seus cantos e seus cheiros, seus sons de água, de pedra molhada, de águas em cascatas, de vida que passa e se demonstra para você, para nunca mais sair do seu ser. Nossos pneus conversam e mudam de assunto a cada terreno percorrido. Nossas correntes estalam conforme as inclinações vão se apresentando. Nossos freios uivam conforme a caça. Nossas vistas se apertam conforme as paisagens. Nossas almas ficam maiores, quanto mais próximos chegamos à Criação… Pedalar é repetir o ciclo para cima e para baixo, com cada um dos pés no pedal, mas trilhar o Costa Verde e Mar é viver os altos e baixos de uma saborosa aventura que chega a nos tirar o fôlego, nos acalma como os melhores calmantes, nos embebeda como o mais fino vinho, terra e mar, azul e verde, unindo-se pela alva espuma que se espalha pelas cálidas areias. Foram muitas imagens que custarão a se apagar… O calor das pessoas em querer ajudar, em querer receber. O prazer das pessoas em trocar ideias, ou simplesmente jogar conversa fora. O atendimento especial a nós ciclistas, e às nossas bicis, máquinas de fazer histórias, onde sempre houve jeito, e sempre haverá cuidado para que fiquemos mais felizes. Como sempre andando lá atrás, muito lá atrás, muito, muito, algumas vezes me perguntaram se eu estava perdido do grupo; eu apenas sorria e fazia sinal que não… Isso significa que somos notados, e bem-vindos, e bem tratados por gente que nunca vimos. Resta agradecer pela recepção, pelas toalhinhas bordadas com precisão, pela simpatia e atenção, pelos pães alemães, pela amizade, paciência, presteza, organização e simpatia na condução de tão belo passeio." (Paulo R. Boblitz)

Quando voltamos de uma viagem e mostramos as fotos para amigos e conhecidos, eles comentam: "eu também gostaria de fazer uma viagem de bicicleta; da próxima vez, me convidem." Muitas pessoas têm vontade de viajar de bicicleta e não sabem muito bem de que maneira começar. Entre se informar em sites e artigos e se lançar pela estrada existe um espaço de tempo, que às vezes pode ser de vários anos, até que de sonho, a viagem finalmente se torne uma realidade.

O Clube de Cicloturismo tinha vontade, já há bastante tempo, de combinar uma viagem de bicicleta onde várias pessoas pudessem ser convidadas para participar; sempre foi nossa filosofia desmistificar o cicloturismo e mostrar que é sim possível fazer uma viagem de bike. Assim, temos escrito artigos, feito palestras e encontros que ajudaram muitas pessoas, mas algumas ainda não passaram da teoria para a prática, por assim dizer. Ficávamos num impasse entre querer levar as pessoas para viajar e ao mesmo tempo incentivá-las a organizar sua própria viagem, para não perder o sabor especial de sua aventura.

Depois de muito quebrar a cabeça, bolamos o evento Velotour. Era preciso fornecer um mínimo de infraestrutura para os iniciantes nas aventuras cicloturísticas, e também era necessário permitir uma viagem com mais liberdade, não com grupos organizados como numa agência de turismo; aliás, a busca pela liberdade é natural para quem gosta de pedalar.

Uma viagem por agência tem suas vantagens, claro. Tudo está organizado e não há com o que se preocupar, mas a contrapartida é que se fica mais preso ao ritmo dos outros participantes, paradas e horários preestabelecidos. O Velotour é uma viagem totalmente autônoma, ou seja, o cicloturista carrega toda a sua bagagem e é responsável por si mesmo. Porém, o evento fornece uma estrutura de segurança mínima e a certeza de se pedalar na companhia de outros cicloturistas, em um local previamente escolhido. É o empurrãozinho necessário a quem estava precisando tomar coragem para planejar sua viagem.

No Velotour a liberdade é muito grande, há uma flexibilidade de horários de saída e de chegada, e cada um faz as paradas conforme seus interesses e necessidades. Não fica a impressão de pedalar em um grupo grande, pois os participantes acabam se espalhando bem ao longo da rota, que costuma ser de 50 km por dia, em média.

Outra característica importante é o fato do Velotour ser um evento gratuito para os ciclistas, já que o evento é viabilizado através de patrocínios e apoio de prefeituras locais, dando a possibilidade de participação de um maior número de pessoas. E como cada um pode escolher entre as opções mais adequadas de hotéis e restaurantes, o evento se torna bem democrático.

Desde a primeira realização do Velotour, pode-se perceber o clima de união que se cria entre o grupo. Talvez pelo fato de não existir um carro seguindo o grupo, e todos estarem independentes e carregando todo o peso da bagagem, a integração e a preocupação uns com os outros se intensificou. Com isso forma-se um ambiente de solidariedade e companheirismo em toda a viagem, e nascem grandes amizades.

É importante salientar que até existem alguns outros eventos na Europa com este mesmo nome, mas são diferentes. Pode-se dizer que o sistema de funcionamento do controle foi inspirado no Audax, outro evento que vem crescendo no Brasil. Porém os objetivos são bem diferentes: enquanto no Audax busca-se a superação de limites, no Velotour procura-se aproveitar o máximo do caminho e dos lugares, com objetivo de integração com o meio e com os outros participantes.

Conforme Vilma Moraes Batista da Silva, participante do Velotour, esse modelo de cicloturismo oferece maior segurança, sem tirar o gostinho da aventura. "Eu fui no carnaval de 2010. Fiz o trajeto completo de sete dias e gostei muito: paisagens maravilhosas, lugares tranquilos, calmos e acolhedores. A subida para a cachoeira do Zinco e a família da fazenda do Zinco com o jantar que nos ofereceu num lugar muito simples e bonito ficará para sempre na minha lembrança, entre outros momentos especiais. Adorei a proposta do Velotour, ao mesmo tempo que você está acompanhado, fazendo amizades pelo caminho e nas paradas das pousadas, você está por sua conta, independe para parar, comer, fotografar, conversar. No Velotour me senti segura porque sabia que se houvesse qualquer problema poderia contar com o suporte da equipe do Clube de Cicloturismo, que são pessoas maravilhosas." 

Como funciona o Velotour

O Clube de Cicloturismo, que organiza o evento, divulga a data da viagem, e os participantes fazem suas reservas nos hotéis e pousadas. Cada um escolhe os locais aonde vai se hospedar e cuida de sua própria reserva. Não é cobrada taxa de inscrição, assim os participantes gastam somente com as despesas normais da viagem. Cada um é responsável também pela manutenção de sua bicicleta, mas no final de cada dia um carro percorre o trajeto verificando se alguém teve algum problema.

A viagem é feita por um percurso definido, sinalizado e planilhado de forma que seja autoguiado, portanto cada cicloturista cuida de sua navegação.  São colocados alguns postos de controle (PCs), no início, no meio e no final do trajeto de cada dia, para nos certificarmos que ninguém se perdeu. Em cada um destes PCs, o cicloturista carimba sua credencial do evento e no final da viagem, estando com todos os carimbos completos, recebe o carimbo final de conclusão.

A estreia do Velotour foi em 2006, no Circuito Vale Europeu. Atualmente, esta nova modalidade de cicloturismo já está se tornando um tradicional ponto de encontros para ciclistas.

O que levar

Para uma viagem como esta, o ideal é que o peso total da bagagem fique no máximo entre 10 a 12 kg. Não é necessário levar saco de dormir, isolante térmico, roupa de cama, toalha e barraca. Sempre transporte todos os pertences em sacos plásticos para protegê-los de uma eventual chuva. Adapte a bagagem de modo que seja fácil de colocar e retirar da bicicleta, pois em todas as noites será necessário tirar toda a bagagem, e recolocá-la na manhã seguinte. O ideal é utilizar alforjes, próprios para cicloviagem. O capacete é item obrigatório.

Para auxiliar você na composição de sua bagagem, elaboramos esta sugestão de lista de bagagem; mas faça sua própria lista, de acordo com suas preferências e necessidades.

Roupas (1,5 kg) - Duas bermudas de ciclista, três pares de meia de pedalar, uma calça de tactel, uma jaqueta corta vento ou anorak, um boné ou chapéu, três camisas de manga curta (uma de algodão é duas sintéticas) e uma camiseta manga longa.

Para o frio (1 kg) - Um par de meias, uma calça fleece, um agasalho de fleece, um colete, camiseta segunda pele, cachecol ou bandana, luva e gorro.

Calçados (1,25 kg) - Uma sapatilha ou tênis de pedalar, um tênis ou bota extra e um chinelo.

Kit de Higiene (600 g) - Sabonete pequeno, shampoo, condicionador e creme hidratante acondicionados em embalagens pequenas, pente, escova, cortador de unha, escova e pasta de dentes, fio dental, papel higiênico, toalha pequena tipo "packtowl", no caso de se banhar nas cachoeiras.

Proteção Solar (200 g) - Filtro solar e protetor labial.

Kit de Ferramentas (900 g) - jogo de chaves allen, kit de reparo de câmaras, bomba de ar, câmara reserva, chave de fenda, alicate de bico, chave de corrente, chave de raios, chave de boca regulável, canivete, lubrificante, raios extras, sapatas ou pastilhas de freio, gancheira, pano e escovinha para limpeza. Caso sua bicicleta necessite de ferramentas e peças de reposição específicas, leve-as também.

Kit de Primeiros Socorros (400 g) - Faixa de crepe, esparadrapo, micropore, gaze, algodão, curativo, água oxigenada, agulha, pinça, termômetro, analgésico, anti-histamínico, sal de frutas, pastilhas para garganta, colírio, sal e açúcar, soro de reidratação em pó, isqueiro.

Equipamentos (500 g) - Celular, máquina fotográfica, farol, pisca, GPS (opcional), cabos e carregadores.

Outros (500 g) - Capa de chuva, sacos plásticos, refletivos, recipientes para água (garrafas pet), tranca, extensor, mapas e cardeneta de anotações.

Alimentação (300 g) - Leve frutas secas, castanhas, barrinhas de cereais e lanches para comer durante a pedalada.

Dicas

Utilize uma bicicleta mountain bike, com relação de marchas bem leve, ideal para as subidas. Os pneus devem ter cravos, para uso na terra. Faça uma revisão completa na bicicleta antes de viajar. Adapte um odômetro (ciclocomputador) para poder seguir as planilhas e se orientar nos mapas.

Apesar de algumas facilidades, a proposta é simular uma cicloviagem real. Então, faça reservas em hotéis com antecedência. Lembre-se  de verificar as agências bancárias disponíveis no percurso, e programe-se para que esteja com dinheiro suficiente: nem pouco, nem demais. Estude a classificação de dificuldade física do roteiro e confirme se está preparado para este desafio. Seja responsável também pelo lixo que produzir, afinal, um lugar de natureza tão bonita merece todo o nosso respeito, e deve-se provocar o menor impacto possível.

Outra dica importante de Paulo R. Boblitz, participante do Velotour Costa Verde e Mar, é registrar tudo no GPS e na máquina fotográfica: isso permite recordar e reviver o passeio. "Tratar as fotos e os dados estatísticos dia a dia faz renascer emoções. Ao despejar minhas rotas para o Google Earth, acabei trilhando o Velotour Costa Verde e Mar pela segunda vez. A cada ponto lembrei do porquê da parada, do suor que a montanha produziu em ziguezague, das carreiras que as descidas proporcionaram, das conversas, principalmente comigo mesmo. Quando vejo no GPS um pontinho quase sobre o outro, lembro que a subida foi lenta e trabalhosa; ao vê-los espaçados, sei que a descida foi prazerosa. Por isso não antecipo a rota no aparelho, pois que ele me retorna mostrando os segredos, os apertos, os volteios, os erros que cheguei a cometer. Trilha gostosa é sempre aquela que você exercita inclusive o verbo, pois conversar com os da região é conquistar simpatias. Seguir as setas é cômodo e até seguro, mas perdemos no espírito aventureiro, daquele sem rumo que sonhamos... Seguir o mapa roteiro é mais gostoso, pois exercitamos nosso sentido da navegação, parando para raciocinar, para baixar o fogo, descobrir que entramos para o lado errado... No computador, trilhei novamente o Velotour Costa Verde e Mar, e reparei que o belo que achei é muito mais bonito, pois agora, privilegiado, voava sobre ele, descobrindo que passei por precipícios, rios e riachos, florestas, campos cultivados, povoados bem pequenos, e pela história da própria região."

Conheça os dois roteiros

O clube organiza dois eventos Velotour por ano: no carnaval é percorrido o Circuito Vale Europeu e em novembro, o Circuito Costa Verde e Mar, ambos em Santa Catarina. A intenção do Clube de Cicloturismo é formar um calendário anual com vários Velotours, em diversas partes do país. Acompanhe como foram as últimas edições do Velotour.

Velotour Costa Verde e Mar

Pedalar pelas praias de Santa Catarina é algo que nos faz sentir privilegiados, afinal este estado possui um dos litorais mais belos de todo o país. Durante o Velotour, tivemos a sorte de pegar lindos dias de sol na praia; a chuva deixou para nos pegar no trecho de interior. O roteiro do circuito margeia o mais próximo possível as praias, pegando todos os caminhos alternativos possíveis. Assim, poucos quilômetros depois de deixarmos a agitada Balneário Camboriú, início do circuito, já estávamos numa estradinha de terra, admirando a paisagem a partir de um mirante no alto do morro.

O grupo era formado por cicloturistas iniciantes e experientes, vindos de várias partes do país. Tínhamos participantes de vários estados: desde o Rio Grande do Sul até o Sergipe. Estávamos em 25 pessoas, dos mais variados perfis e profissões, como é característico no cicloturismo. O interessante é que as diferenças, as profissões e até mesmo as idades, nada disso interfere para se fazer amizade durante um pedal. Muitas vezes pedalamos por vários dias ao lado de alguém e de repente nos damos conta de que nem perguntamos o que a pessoa faz da vida. E realmente não importa muito, o que interessa mesmo são aqueles momentos e o prazer de viajar de bicicleta.

Logo nos primeiros dias já se formaram alguns grupos menores, por afinidade e ritmo de pedal. A primeira turma saía logo cedo e puxava bastante, com o intuito de chegar cedo e assim pegar pouco sol na pedalada e descansar durante a tarde na pousada. Outro grupo saía mais tarde, parando bastante para fotografar. Um terceiro grupo saía bem mais tarde, no limite do horário do PC, por volta das 10h30min. Este era o grupo do sossego. Tudo era motivo para uma parada, uma água de coco, uma conversa com pessoas locais, mais uma parada no bar e a chegada era geralmente no final da tarde, depois de curtir cada quilômetro da pedalada.

A vantagem do Velotour é esta: ninguém fica preso a um horário só, pois cada um pode ditar seu próprio ritmo. Outra vantagem é sempre ter alguém com um ritmo parecido com o seu para te acompanhar. Se quiser, é claro, porque alguns estavam a fim de pedalar sozinhos, num momento mais introspectivo, e assim o fizeram.

Seguimos pelo litoral por Itajaí, Navegantes, Penha, até alcançar Balneário Piçarras, onde foi nosso primeiro pernoite. A turma combinou de jantar toda junta, numa grande confraternização, que se repetiu várias noites ao longo da viagem. Em Piçarras, deixamos o litoral e seguimos em direção ao interior. Incrível como numa curta distância já se nota a diferença cultural, no jeito das pessoas, maneira de se vestir e de se portar. A bicicleta favorece esta percepção e ainda facilita muito a aproximação.  Passamos uma noite em Luís Alves, capital catarinense da cachaça, que fez a alegria de alguns aficionados por esta bebida. Outra noite ficamos em Ilhota, um grande pólo produtor de lingeries e biquínis, que desta vez fez a alegria das meninas do grupo. Mais uma noite no interior, em Camboriú, e voltamos para o litoral.

De volta às praias, mas também de volta aos morros. Deixamos para trás as planícies e plantações de arroz do interior e voltamos a encarar as íngremes subidas da beira do mar. Passamos por Itapema, Porto Belo e chegamos a Bombinhas, num dia de tantas paisagens e praias maravilhosas que parecia não caber tudo em nossa memória, e nem na memória da máquina fotográfica!  Ao chegar a Bombinhas e tomar um banho de mar no final da tarde, a vontade foi de ficar ali por pelo menos mais uma semana. Ou quem sabe a vida toda... Porém o dia seguinte nos aguardava cheio de outras praias paradisíacas e também de intermináveis subidas.

O último dia é o mais puxado do circuito, o único realmente pesado do Costa Verde e Mar. Para evitar a temível BR-116, o circuito nos leva para um trecho de interior para voltar ao litoral mais adiante. Assim, somente cruzamos a rodovia, sem ter que pedalar por ela e seus caminhões. Voltamos ao litoral num dos trechos mais famosos da região, a Rodovia Interpraias. É uma via turística, asfaltada, ligando uma sequência de praias. Apesar do asfalto, a dificuldade é bem alta, pois a inclinação das subidas é muito forte. Estas subidas, somadas ao cansaço acumulado dos seis dias de viagem, fez muita gente empurrar a bicicleta e se arrepender de todos os pecados. Mas no final de cada subida vem sempre a deliciosa descida, que nos fazer esquecer de todos os perrengues e só sentir o vento no rosto e mais nada. Ao final da Interpraias chegamos à balsa que liga nos leva ao destino final da viagem, Balneário Camboriú. Os que chegaram primeiro esperaram para atravessarmos todos juntos. Aguardamos a balsa, todos reunidos, mas já com um gostinho de despedida no ar, cada um fazendo sua retrospectiva interna, refletindo sobre o significado daqueles últimos dias. Foi o primeiro Velotour no Costa Verde e Mar, uma bela estreia, com um grupo muito bacana, unido e divertido, que com certeza vai deixar saudades em cada um de nós.
Patrocínio: 
Apoio: Rezende Hotel, Hotel Colinas, Hotel Ilhota, Hotel Arco do Sol, Pousada Zimbros, ACBC e Consórcio de Municípios Citmar.

Velotour Vale Europeu

Esta foi a quarta edição do evento no Vale Europeu. Nunca uma viagem é igual a outra, pois mudam as pessoas do grupo e a cada ano é uma nova história. Desta vez estávamos com o recorde de público, percorremos a parte baixa do circuito com 70 pessoas. Muita gente não pode emendar a semana toda do carnaval, e assim, fizemos a parte alta com 35 participantes.

O Circuito Vale Europeu já se tornou um clássico do cicloturismo nacional, e mesmo tendo sido inaugurado há pouco mais de quatro anos, já é um dos destinos brasileiros mais procurados. Este ano, tivemos ciclistas de mais de sete estados pedalando juntos. É uma chance única de encontrar outras pessoas de longe, mas que possuem os mesmos ideais e a mesma paixão pela bicicleta. Novamente se formaram os pequenos grupos, conforme interesse e ritmo de pedaladas. O curioso é que o grupo da frente era formado principalmente por pessoas de mais idade, autointitulado “grupo dos 58”, uma referência a idade dos integrantes. Eram os mais festeiros, mas sempre acordavam cedo e pedalavam forte.

Vários grupos intermediários se formaram, e por último ficava um grupo realmente tranquilo. Saíam tarde, pedalavam com calma, curtiam todo o caminho, tomavam banho em cada cachoeira e, invariavelmente, acabavam chegando à noite. Mas tudo com muito bom humor e muitas histórias para contar. Ou seja, cada um curtiu a viagem a sua maneira, e essa é a essência do Velotour.

No primeiro dia de pedal, saindo de Timbó, todos estão sempre bem ansiosos e o pedal é feito em ritmo forte, pelas baixadas e vales. Isto até encontrar a subida do Rio Ada, para arrefecer os ânimos e nos lembrar que a viagem não vai ser moleza. Vencido o subidão, descemos para encontrar a Rota Enxaimel, uma rota turística e histórica na área rural de Pomerode. Nela estão várias construções típicas alemãs, com mais de um século de tradição. O mais impressionante é que todas as casas possuem moradores, que são os descendentes dos primeiros imigrantes que as construíram.

Em Pomerode, o tradicional chope alemão matou a sede do grupo. Do segundo dia em diante, cada um já traçou melhor sua estratégia de pedal, planejando os horários para pedalar e os pontos de parada que queria fazer. Ficamos quase todos no mesmo hotel em Indaial, o que ajudou a integrar mais ainda o grupo. Dia seguinte era despedida para alguns, os que fariam somente a parte baixa do circuito, e desafio para outros, os que seguiriam viagem, encarando as famosas subidas deste trecho. A finalização da parte baixa foi feita na vinícola San Michele, em Rodeio, com direito à degustação de vários tipos diferentes de vinhos e espumantes. Dali a Timbó são somente 16 km de asfalto, então quem terminava a viagem por ali estava sem pressa. Para quem ia subir para a Fazenda Campo do Zinco, continuando o circuito, tinha ainda mais de oito quilômetros contínuos de subida. Este é o dia de maior dificuldade física do Vale Europeu e terminamos todos bem cansados. Mas uma vez lá em cima é como chegar ao paraíso. Comida boa, acolhida carinhosa, paisagem magnífica e uma cachoeira de deixar qualquer um boquiaberto. Somada à sensação de vitória por todo o esforço da empreitada até ali, com a missão comprida, relaxamos e dormimos como bebês.

No quarto dia pudemos descansar e sair um pouco mais tarde, já que a etapa até Dr. Pedrinho é mais curta. Sentimos a mudança do clima, mais frio e com ar de montanha, bem agradável para se pedalar. À noite tivemos a apresentação de um sanfoneiro, que tocou músicas típicas da região sul e também sucessos da música caipira. Tivemos até a presença do prefeito que foi prestigiar a passagem do grupo pela cidade.

No quinto dia, após a parada quase que obrigatória na belíssima Cachoeira Véu da Noiva, começamos a enfrentar uma chuva fina, que nos acompanhou até o dia seguinte. Este é o verdadeiro teste para o cicloturista, e a turma reagiu bem, mantendo o alto astral o tempo todo. Chegamos a Alto Cedro, que é a região de duas represas, numa paisagem que parece ser retirada de um calendário europeu. Belas casas em estilo alpino refletidas nas águas, com montanhas ao redor. Este foi o cenário para as pedaladas do sexto dia, que não apresentava nenhuma grande subida, mas inúmeras subidas pequenas, o famoso “serrote”, que acaba também minando nossa resistência. O último dia é praticamente só alegria. Muita, muita descida mesmo, um bom trecho plano e uma única e matadora subida. Esta pouquíssimos sobem pedalando inteira, pois é a pior de todas, mas felizmente não é muito longa, pouco mais de um quilômetro. Lá em cima, quem já havia subido aguardava para dar força aos que ainda estavam chegando.

Dali em diante já pedalávamos com uma certa ansiedade de chegar, mas felizes por completar uma bela viagem. O final é no Restaurante Thapyoka, em Timbó. Hora do merecido brinde e muitos abraços de comemoração. Neste momento bate uma tristezinha, mas que vai embora ao lembrar que outros Velotours virão.

Apoio: Park Hotel Timbó, Hotel Fink, Pousa Campo do Zinco, Bella Pousada, Família Duwe, Pousada do Faustino, Vinícola San Michele, Restaurante Thapyoka, Consórcio de Municípios Cimve e Associação Vale das Águas.

"Por onde passamos, sujos, suados, talvez fedorentos, fomos recebidos com carinho, fomos vistos com interesse, fomos cumprimentados, principalmente pelas crianças, pureza desse mundo. Arrozais, flores, florestas, igrejas, barcos, gente simples, mar, areia, pedras, rochedos, montanhas, vales, rios, cascatas, estradões, asfaltos, paralelepípedos, até gente se jogando para boiar no vento, ser pássaro por instantes, tudo isso se pode ver entremeado de belezas, todas elas naturais, aliado à simpatia de um povo ordeiro e trabalhador. Jovens, em seus automóveis passando por nós, acenavam, buzinavam, incentivavam, gritavam “iurrúúúú..!”, como se tocados pelo feito, como se também quisessem participar do passeio. Não aconteceu apenas uma vez, mas várias e naturais reações alegres de comprometimento, de apoio e de aprovação. Pegue seus alforjes e descubra por si só. Valerá cada centavo, cada pingo de suor…" Siga essa dica de Paulo e aproveite a segurança do Velotour e a beleza dos roteiros de Santa Catarina para iniciar suas cicloviagens.

Mais Informações

Ficou interessado no destino? Acesse www.bemvindocicloturista.com.br, tenha acesso às fichas técnicas dos roteiros e baixe grátis seus guias e arquivos para GPS. Texto: Aluysio Ferreira – Projeto Bem Vindo Cicloturista Fotos Marcos Tulio Barreto.

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