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Uma senhora - Görickewerke 1956

Revista Bicicleta por Valter F. Bustos
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21/08/2013
Uma senhora - Görickewerke 1956
Foto: Valter F. Bustos

Há pouco mais de um ano, tomei conhecimento da existência dessa Göricke, numa localidade de veraneio próximo à Joinville, chamada Praia da Enseada. Segundo informações seu estado de conservação era muito ruim devido à proximidade com o mar, e com acentuado ataque de corrosão através da ação silenciosa durante décadas. Outra informação dizia que a bicicleta mantinha seu estado original de conservação, presente na mesma família desde a sua aquisição. Durante esse período fiz vários contatos até descobrir onde essa raridade se encontrava. Desde o primeiro contato com a família, nossas conversas foram muito amistosas. No entanto, percebi certo receio ou desconforto, devido às condições gerais da bicicleta por parte de minha interlocutora, diga-se, sempre muito gentil e educada.

Finalmente, no dia 27 de outubro, um dia antes das eleições do segundo turno na cidade, fui buscar a bicicleta e me deparei com aquele emocionante quadro, prazerosamente vivido por mim muitas vezes. Uma manhã de sol, uma região extremamente bucólica de Joinville, uma casa antiga e bem conservada, ainda nos moldes da influência germânica de construção dos anos 50. Ao lado da casa, em terreno bem arborizado, uma pequena garagem. Descansando, encostada na parede à esquerda de quem olha da rua, a imponente e orgulhosa Göricke mantinha seu frontal altaneiro e robusto. Na emoção da pressa, ao sair para esse encontro que tinha data e horário marcado, esqueci de pegar minha máquina fotográfica. Porém, o registro da magistral cena eu nunca esquecerei. Com certeza, à revolução e à evolução pelo qual passa a fotografia, não tardará para que, em futuro não distante, tenhamos uma tecnologia capaz de transformar imagens registradas no cérebro humano em fotografias. Caso viva até lá, esse, entre tantos registros maravilhosos, poderão ser perpetuados. 

Numa ocasião como aquela, impossível não imaginar os milhares de quilômetros rodados nos passeios, nas viagens, nas alegrias, e por que não dizer, de seu silêncio sepulcral, ao testemunhar uma cena de amor ou carinho mais íntimo entre duas pessoas, às margens de um rio ou na beira do mar, locais próximos e comuns em nossa região. Notei que não havia campainha na casa. Antes de me anunciar através de palmas, não me privei de admirar e reverenciar aquela empolgante “senhora” que me recusei a chamar de velha. Clássica, sem nenhuma dúvida, lhe cai bem. Eu tremia, pois estava prestes a iniciar um ritual. Nem precisei bater palmas, pois fui anunciado por uma “guapequinha” toda espevitada que pulava e latia no portão descontroladamente. Em poucos instantes, me apresentei à Dona Margit. “Eu vou prender a cachorrinha e o senhor pode entrar e pegar a bicicleta que está ali”. Decidido a incomodar bem pouco a família, procurei ser rápido, mas foi impossível. Eu me dei conta que estava há instantes de realizar um ritual, prestes a tocar anos de história e de emoções ocultas. Emanava daquela Göricke uma energia muito agradável e positiva. Era como se já nos conhecêssemos há muito tempo, através de ocorrências e situações muito agradáveis. Naquele momento, nasceu um sentimento de respeito mútuo. Senti que ela não poderia ser aviltada na sua forma e beleza madura. 

Ouvi uma voz, era a voz do vento que me perguntava: “Você cuida de mim?”. Fiquei perplexo e sem ação. “Você cuida de mim?”. Vagarosamente fui fechando os olhos e baixei as minhas mãos até tocar a bicicleta. Ao mesmo tempo, bem de leve, toquei o selim e o guidão. Não havia mais pressa, era quase um êxtase. Novamente a voz do vento: “Eu te levarei para lugares incríveis e serei fiel, sempre! Toda a minha vida e dedicação será só para você. Quanto ao meu amor, será o mais resplandecente e virtuoso sobre a face da terra como você jamais conheceu”. Inebriado, perdi a noção do tempo, com aquela brisa fresca e suave, conversando com o meu rosto e envolvendo o meu corpo. “... O pensamento parece uma coisa a toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar...” 

Instantes depois, chegara o momento de voltar à realidade. Levara comigo algumas ferramentas fundamentais para uma desmontagem parcial da bicicleta. Começaram a surgir as primeiras descobertas: a bicicleta estava totalmente em seu estado original de conservação, exceto por sua engrenagem central (coroa), substituída devido ao desgaste, há mais de duas décadas. No mais, tudo original e funcionando. Apesar de pintura gasta, usada, as decais ainda são visíveis através de seus contornos. Todos os parafusos e porcas de fixação das partes móveis (paralamas, estirantes e cobre- corrente) são de metal. O selim de molas duplas, bastou um pincel para remover- lhe o pó e fazer transparecer seu conforto e resistência. Sua plaquinha ou brazão da “Görickewerke – Bielefeld, Nippel&co.”, estava presa através de um rebite, situação facilmente resolvida. Devido à impressionante facilidade na desmontagem das peças básicas, parti para a conclusão do trabalho rapidamente. Em casa, todas as peças foram limpas e tratadas com material antiferrugem de boa qualidade. Seguiu-se a limpeza e lubrificação do contra-pedal, cubos, movimento central, caixa de direção superior e inferior, e o freio de acionamento sobre-pneu. Em pouco mais de três horas de trabalho, a garbosa senhora estava novamente rodando. 

Ah! Pouco antes de retornar para casa, D. Margit me entregou a nota fiscal de compra, feita junto à “Companhia Importadora - Jobrasil” datada do dia 02 de maio de 1957. Para fechar, veio junto o “Certificado de Propriedade de Bicicleta” n° 4394, de 28 de julho de 1959, o último ano de licenciamento obrigatório para bicicletas na cidade de Joinville.

Ficha Técnica
Marca Görickewerke. 
Ano: 1956. 
Cor: bordô. 
Modelo: feminino. 
Aro: 26. 
Freios: contrapedal na roda traseira e sobre-pneu na roda dianteira. Acompanha cavalete central para o estacionamento da bicicleta. 
Condição: original/conservada. Acervo: MUBI.

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