REVISTA BICICLETA - Travessia das Suíças Nordestinas
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Travessia das Suíças Nordestinas

Mar Vermelho e Garanhuns são cidades localizadas na Zona da Mata de Alagoas e no agreste pernambucano. Ambas se diferenciam de outras cidades nordestinas pelo clima frio e baixas temperaturas, principalmente no inverno, e são conhecidas como as “Suíças” Alagoana e Pernambucana. Lá se realizam, em julho, os famosos festivais de inverno, com várias atrações musicais, eventos culturais e gastronomia. Nosso pedal também fez uma ponte por Bom Conselho, já no sertão pernambucano, onde fechamos um triângulo com os três microclimas da região nordestina: o sertão, o agreste e a mata.

Por Revista Bicicleta
2.680 visualizações
20/07/2017
Travessia das Suíças Nordestinas
Foto: Ruben Wanderley

Mar Vermelho é uma das cidades mais altas de Alagoas, a 650 m acima do nível do mar. Por possuir inúmeras espécies de Gravatá, um tipo de árvore que no outono deixa cair suas folhas de coloração vermelha no chão e nas águas dos lagos, recebeu este sugestivo nome. Possui também características de região europeia, com clima de serra e inúmeras fontes de águas minerais. Sua temperatura já chegou a atingir 10°C.

Gravatá, vegetação típica da zona da mata, origem do nome da cidade de Mar Vermelho. Foto: Ruben Wanderley

Ficamos acomodados em duas fazendas locais, próximas da cidade, e a partir daí demos início ao nosso pedal. O segredo para o sucesso da pedalada é acordar cedo e sair com o nascer do dia, para usufruir de uma temperatura mais amena e evitar um pouco o sol, que é bastante forte a partir das 10 h 30 min até a tarde.

No primeiro dia fizemos uma puxada direta e forte com paradas pequenas para vencer cerca de 98 km até Garanhuns (850 m de altitude), onde pernoitamos. Depois seguimos mais 55 km até Bom Conselho (700 m de altitude), já no sertão pernambucano, e no último dia seguimos de volta para o Mar Vermelho, em mais 75 km por outra vertente do caminho, num total aproximado de 230 km pedalados em três dias.

Cidade de Garanhuns. Foto: Ruben Wanderley

Neste cenário rústico, com vistas exuberantes do interior nordestino, pudemos presenciar de perto toda a profusão de cores e contrastes da região. Ao mesmo tempo, passamos a resgatar alguns valores que às vezes perdemos ou não percebemos no cotidiano do nosso dia a dia, com este contato mais íntimo com o ambiente rural, ao nos aproximarmos de pessoas, da história e do contexto local, vivenciando in loco toda a essência de uma vida que tem seu fluxo normal, simples, calma e sem pressa, típica do interior. Sentimo-nos também muito mais completos, como nordestinos que somos.

Nosso grupo “Os Dinossauros” já realizou este percurso duas vezes, e este ano recebemos outros convidados para juntarem-se a nós nesta difícil travessia. Geralmente fazemos com carro de apoio, pois os locais são bem ermos, com altas temperaturas.

Apesar das duas cidades possuírem climas amenos, o resto do percurso é extremamente quente, como em todo o agreste e sertão nordestino. O trecho Mar Vermelho / Garanhuns é praticamente de subida, atingindo em torno de 2.100 m de altimetria, o que já é bastante alto em termos de Brasil, então, imagine no Nordeste, onde suas cidades estão mais no nível do mar.

Nos sentíamos como numa verdadeira montanha-russa com subidas e descidas constantes, tendo sempre como recompensa os visuais incríveis do lugar. No primeiro trecho, pedalamos por pequenas estradas margeando vegetações típicas do bioma da região, como gravatás, cactos, ingazeiras e muitas áreas onde os lajedos e rochas afloravam na paisagem. É fácil notar também a religiosidade e a fé do povo do interior com a vista de inúmeras igrejas, capelinhas brancas e imagens espalhadas pelas curvas dos caminhos.

Foto: Ruben Wanderley

Cidades e histórias

Durante o percurso, fizemos algumas paradas estratégicas para descanso, lanches e sobretudo para conhecermos pequenas cidades e vilas carregadas de histórias interessantes e riqueza cultural, apesar de serem, em sua maioria, tão carentes e abandonadas por nossos legisladores.

Inicialmente margeamos o Rio Paraíba, passando pela Vila de São Francisco, que fica às margens deste mesmo rio. É lá que está enterrado Frei Damião de Bozzano, que viveu na vila seus últimos anos e pediu para ser enterrado ali.

Foi nesta vila que também ocorreu um dos crimes que mais chocaram Alagoas no início dos anos 50, e que reflete, infelizmente, muito do tipo de política que é praticada no interior nordestino até os dias atuais. Isto se deu a partir da chegada, em 1937, de Antônio Fernandes Amorim, o Beato Franciscano, como era conhecido. Na sua vida de verdadeiro monge, dormia em esteiras e se alimentava do que traziam para ele. Foi aos poucos desenvolvendo o lugarejo, que era um antro de prostituição e todo tipo de vícios, transformando-o em um lugar de rezas, fé e romarias. Em 30 de julho de 1954, por volta das 18 h, um defeito no fio de energia da casa do religioso fizera escurecer a residência, e Franciscano foi assassinado quando trocava uma lâmpada.

A verdade é que ele se transformou rapidamente num carismático líder religioso, a ponto de despertar interesses nos políticos dos municípios circunvizinhos, que procuravam seu apoio em busca de votos. Como aquele ano era de eleição para deputados, o beato deu seu apoio à candidatura do genro do candidato que viria a ser Governador de Alagoas naquele ano. Foi seu grande erro, isso despertou uma forte ciumeira política nos adversários, que passaram a vê-lo como extraordinário arrebanhador de votos.

José Calcutá, o executor do crime, foi detido e preso. A partir daí, criando mirabolantes álibis, sem citar nomes e causando mistérios e dúvidas para esconder a verdade sobre os mandantes, deixou até hoje a incógnita sobre a morte do Franciscano.

Quando morreu, Franciscano já havia entregue a vila aos frades capuchinhos, e o provincial, na época, Frei Otávio, era pertencente aos frades da província de Lucca, na Itália, ordem à qual pertencia Frei Damião. Tanto que hoje a vila é comandada pelo Frei Fernando Rossi, que acompanhou Frei Damião ao longo de aproximadamente 50 anos.

Outra cidade que passamos ainda em Alagoas, próxima da vila, foi “Quebrangulo”, onde nasceu o grande escritor alagoano Graciliano Ramos. Pudemos admirar sua singela e despretensiosa arquitetura, típica do interior nordestino, com seus conjuntos de casas conjugadas com cores alegres e contrastantes. A cidade fica também às margens do Rio Paraíba e tem a origem de seu estranho nome no líder dos negros fugitivos que ali se instalaram, quando da derrocada final do Quilombo dos Palmares em Alagoas. Alguns remanescentes dos Palmares se refugiaram na região, Quebrangulo era o nome do líder dos negros fugitivos.

Foto: Ruben Wanderley

Tivemos, ainda na cidade, a surpresa da visita do ex-prefeito, que nos contou fatos e histórias interessantes sobre a mesma, sugerindo que fôssemos conhecer um dos principais biomas de mata atlântica de Alagoas naquela região, a reserva de “Serra Talhada”, inclusive com banhos de cachoeiras. Saímos em direção à reserva, mas um desvio da rota naquela hora poderia nos atrasar em nossos objetivos, já que havia ainda uma boa distância a percorrer. Resolvemos continuar em nosso itinerário e deixar para uma próxima vez esta visita, que julgamos interessante conhecer.

Seguimos por estradões de terra e alguns singletracks, já sentindo o efeito do sol, que àquela hora estava bastante forte. Nossa parada para almoço foi na cidade de Lagoa do Ouro, já em Pernambuco, que tem seu nome ligado à cor de suas areias, que brilham, sobretudo quanto mais forte está o sol. Acredito que algum mineral produza este efeito luminoso e dourado, bem visível no solo árido de suas estradas, que foi por onde iniciamos nosso último trecho de pedal para Garanhuns, a Suíça Pernambucana, chegando por volta das 4 h da tarde.

Todo o trecho que fizemos durante o dia foi por estradas de terra, porém, neste trecho final, percorremos uns 4 km de pista (com pouca movimentação) tendo a escolta do carro de apoio como proteção contra acidentes. Sofremos bastante no total do percurso com o calor e as intermináveis subidas, mas depois de uma atividade física intensa como a que fizemos, nada como um bom banho para tirar a fadiga, uma refeição decente para repor as calorias e um descanso merecido para se recompor do desgaste.

Depois de pernoitarmos na “Cidade das Flores”, fomos conhecê-la de bicicleta, seguindo para Bom Conselho, cidade que marca o início do sertão pernambucano. Seu nome é em razão da construção do monumental colégio de Nossa Senhora do Bom Conselho. Esse foi o primeiro educandário de grande porte para a educação feminina no Nordeste. É célebre a frase de seu fundador, o capuchinho Frei Caetano de Messina: “Educando-se uma menina, educa-se uma mãe; educando-se uma mãe, transforma-se uma sociedade”.

Em todos estes dias de pedal, tivemos a oportunidade de conhecer mais profundamente nossa região. 

Seguimos pedalando para vencer mais de 1.050 m de altimetria pelo município que está inserido em sua maior parte no planalto da Borborema, com relevo suave e ondulado. Ao sul, parte da área insere-se na depressão sertaneja, e sua vegetação nativa é composta por caatinga com pequenos trechos de floresta.

Bom Conselho se notabilizou na época do cangaço, por possuir um dos maiores líderes sertanejos do Nordeste, o coronel José Abílio de Papacaça (antigo nome da região). Foi em seus domínios que se refugiou, buscando proteção, o jovem Virgulino Ferreira da Silva e seus irmãos, quando da morte de seus genitores em Alagoas, se transformando no terrível cangaceiro “Lampião”.

Depois de um café da manhã bem sertanejo, já finalizando nosso trajeto, seguimos fechando o triângulo, direto para Mar Vermelho, em Alagoas, em mais 75 km de trilhas, via Serra do Chorador (o nome diz tudo). Galgamos 1.500 m de altimetria em nossa última escalada, que terminou com uma deliciosa buchada de bode, prato típico sertanejo, para garantir a sustança necessária para repor as calorias perdidas pelo esforço desprendido no aclive final.

Cidade de Mar Vermelho. Foto: Ruben Wanderley

Em todos estes dias de pedal, tivemos a oportunidade de conhecer mais profundamente nossa região. E nada melhor do que fazer isto de bicicleta, que tem a capacidade de nos colocar em um contato direto e íntimo com a rica cultura local. Desta forma, passamos a valorizar mais nossas raízes e este povo tão abandonado e sofrido do interior, embora seja tão trabalhador e sempre presente na preservação de seus costumes, crenças e tradições. Apesar do desgaste, das subidas, do mormaço e, sobretudo, do calor escaldante do sertão, como num verdadeiro efeito estufa, ainda não foi desta vez que “Os Dinossauros” foram extintos. Muito pelo contrário, depois de conhecer as duas Suíças Nordestinas, seguimos para um pedal de aproximadamente 15 dias na verdadeira Suíça Europeia.

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