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Porto Alegre, RS - As Ciclovias de um Porto não muito Alegre

Cidade talvez entre as mais belas capitais do Brasil, não há sequer uma via que comporte o ciclista com segurança e agilidade

Por Revista Bicicleta
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03/10/2012
Porto Alegre, RS - As Ciclovias de um Porto não muito Alegre
Ciclovia em outros lugares é vista como uma alternativa importantíssima de mobilidade urbana; na capital gaúcha, é vista como zona de lazer ou trechos para pequenos deslocamentos.
Foto: Roberto Furtado

A cidade de Porto Alegre caminha gradualmente para entendimentos dos conceitos relacionados à mobilidade urbana no assunto bicicleta. Na cidade linda, talvez entre as mais belas capitais do Brasil, não há sequer uma via que comporte o ciclista com segurança e agilidade quando comparadas às cidades de referência no mundo.

Porto Alegre pode não ser cidade de primeiro mundo, contudo, está entre poucas que possuem um plano cicloviário. A lei complementar 626 de 15 de julho de 2009 deveria garantir certos direitos para os cidadãos ciclistas, mas de alguma forma isto ainda não é colocado como prioridade. Talvez seja uma questão de tempo, e somente com o tempo saberemos. “Nas ruas de um Porto que anda não muito Alegre”, a nitidez dos excessos cometidos por motoristas demonstram muitas incoerências sobre o trânsito. Tais problemas não se restringem aos motoristas, mas também são percebidos em pedestres. Trata-se de uma questão de educação, de planejamento das vias e de compreensão sobre os riscos empregados na forma de como se comportar no trânsito.

Sobre o planejamento das vias, observa-se que uma cidade com excelente infraestrutura apresentaria um grande complexo de ciclovias, da qual Porto Alegre nem de longe é ainda portadora. Assim mesmo, as ações, ensaios e discussões realizados através de reuniões da prefeitura em conjunto com a comunidade ciclística, em sua grande parte são projetos que não saíram definitivamente das intenções, ou são projetos que deixam os usuários frustrados.

Percebendo que seria necessária uma metodologia organizada para que a comunidade ciclística fosse representada de forma legal e adequada, alguns ciclistas formaram a Associação de Ciclistas de Porto Alegre (ACPA). O principal objetivo desta associação é a busca por melhores condições para os usuários da bicicleta em suas mais diversas modalidades. Por meio de estudos em grupo, os ciclistas buscam levantar questões e soluções relevantes para o presente e futuro do plano cicloviário. A ACPA representa com valor uma grande parte de interesses da comunidade ciclística, manifestando estas intenções de forma ponderada, dentro da lei, e conhecendo verdadeiramente os problemas que atingem a cidade. Pouco a pouco, em conjunto com o Poder Público, as ideias e soluções são discutidas e aplicadas. A comunidade ciclística considera que a cidade de Porto Alegre tem poucas ciclovias, e que apenas recentemente começou a elaborar as adaptações para responder a uma necessidade que não é brincadeira.

Ciclovia em outros lugares é vista como uma alternativa importantíssima de mobilidade urbana; na capital gaúcha, é vista como zona de lazer ou trechos para pequenos deslocamentos. Não é raro ver crianças de pouca idade brincando nas ciclovias, ou pais passeando com carrinhos de bebês, pessoas com seus cachorrinhos, skatistas, ou jovens jogando bola sobre as vias específicas para bicicleta. As ciclovias visitadas apresentaram algum tipo de problema, dos quais podem ser abordados como falta na qualidade do pavimento, existência de obstáculos na própria via (postes, cabos e outros), deformidades de nível do piso, existência de vagas de estacionamento no lado esquerdo da ciclovia, estreitamentos de pista, falta de sinalização clara etc. Sem falar em trajetos cuja ciclovia é invadida por veículos automotores, como motocicletas ou até carros, denunciando um erro de projeto ou falta de fiscalização.

Abordando os problemas de cada uma das ciclovias, estes ficam evidentes para o leitor. Iniciando pela Ciclovia Ipiranga, aponta-se como grave problema o fato da mesma estar localizada em apenas um dos lados do Arroio Dilúvio. Com isto, a ciclovia passa a ser bidirecional, e como há estreitamento em alguns trechos, devido a postes, fica inviável que duas bicicletas em sentidos opostos passem pelo mesmo local. Outro descontentamento dos ciclistas é que uma vez precisando acessar o lado oposto do arroio, é necessário deslocar-se até um pontilhão de pedestres ou pontes para veículos. Estando o ciclista desmontado da bicicleta, transforma-se ele em um pedestre que empurra uma bicicleta, e com isto ganha o direito de transitar pelos pontilhões da mesma forma que os pedestres que utilizam o acesso. Mesmo assim, diversos ciclistas protestaram contra este projeto que exigia trocar de lado da via, pois na continuidade da obra, a ciclovia ficará no lado oposto do Arroio Dilúvio, também de forma bidirecional. Esta opção sobre a ciclovia ser projetada, parte de um lado, parte em lado oposto, causou grande polêmica, pois o tempo para cruzar a Ipiranga de bicicleta, através desta ciclovia, ficará certamente maior do que é possível fazer hoje nesta avenida. Outros problemas que são constatados nesta ciclovia correspondem à proteção colocada. Uma proteção foi instalada de ambos os lados da ciclovia, evitando que o ciclista caia para dentro do arroio ou para a via onde trafegam os veículos. Esta proteção, mesmo após a inauguração do trecho, estava incompleta. A inauguração do primeiro trecho gerou diversas discussões, onde muitos a chamavam de “a menor ciclovia do mundo!”, por ter menos de 400 metros.

A Ciclovia Restinga, embora com grandes problemas, incluindo postes, carros estacionados sobre ela e acúmulo de areia em alguns pontos, foi bem vista pela comunidade local. O bairro Restinga é retirado em relação ao centro de Porto Alegre, e sempre visto como abandonado pela prefeitura, mas com a confecção da ciclovia, os moradores ficaram satisfeitos. Atribui-se a isto o fato de que grande parte dos moradores viu tal obra com uma calçada de boa qualidade. Na maior parte do trajeto não havia nenhum tipo de calçamento, então a ciclovia construída tornou-se um lugar para passeio de pedestres, com direito a mães que passeiam com carrinhos de criança! Tente imaginar uma pobre mãe empurrando um carrinho de bebê sobre a areia e mato e saberemos porquê ela adorou a ciclovia. O ponto favorável é que se os ciclistas e pedestres, também os motoristas, souberem o limite do respeito atribuído ao próximo, então pode ser que a ciclovia seja vista com uma solução urbana popular. A prefeitura criou um problema neste local, onde será difícil precisar as responsabilidades nos acidentes envolvendo ciclistas e pedestres. O ciclista deve zelar pelo pedestre, mas o pedestre, em lei não deve transitar sobre a ciclovia. E agora?

Uma boa referência é a Ciclovia Ipanema. Esta ciclovia possui os melhores comentários dos ciclistas, embora seja curta e localizada em um ponto onde o objetivo é unicamente do lazer. Apesar de ser considerada uma via de passeio, e que não ajuda muito na mobilidade urbana, está bastante satisfatória em termos de largura e sinalização. O pavimento é reconhecido como de boa qualidade, mesmo que próximo aos bueiros ocorra grandes depressões que poderiam causar tombos em ciclistas distraídos. Não é uma ciclovia perfeita, mas está acima das demais em qualidade, projeto e execução.

Entre o Barra Shopping Sul e o lago Guaíba, está localizada uma ciclovia que foi muito criticada. A Ciclovia Diário de Notícias foi construídautilizando o pavimento formado a partir de tijolos de encaixe. A diferença de nível ou o vão entre estes blocos acarretou um péssimo pavimento para deslocamento de bicicletas. As bicicletas tipo Road, ou até mesmo as MTBs com pneus lisos ou estreitos, tornam-se bicicletas extremamente inadequadas sobre tal pavimento. A prefeitura, hoje, reconhece que este pavimento foi uma tentativa infeliz de criar uma forma eficiente de drenar a água. Sim, o idealizador do projeto pensava isto, acredite! Não fosse este um grande problema, tal ciclovia ainda carrega um segundo problema, semelhante à ciclovia da Restinga e todas as demais que foram construídas no nível do passeio. Não possuindo uma calçada em toda a sua extensão, os pedestres passam a utilizar a ciclovia como se fosse para tal finalidade. Então, neste trecho, o ciclista que anda na ciclovia tem que ficar advertindo pedestres ou andar na via dos veículos junto ao meio-fio, arriscando sua vida, porque os motoristas simplesmente voam nesta avenida. Não podemos esquecer que de acordo com o Código Brasileiro de Trânsito (CTB), havendo ciclovia, o ciclista deve trafegar exclusivamente através dela. Talvez, no dia em que esta ciclovia for devidamente corrigida e construído o passeio de pedestres, então ela será uma ótima ciclovia.

Próxima da avenida Diário de Notícias, encontra-se a avenida Icaraí. No lado direito da avenida, sentido Bairro-Centro, está localizada a Ciclofaixa Icaraí. Esta ciclofaixa parece ser um projeto experimental, gerou polêmicas e atingiu a satisfação de alguns ciclistas. A grande crítica desta obra foi quanto à criação de vagas de estacionamento para veículos em seu lado esquerdo. Ou seja, o ciclista trafega em único sentido, entre o passeio de pedestres e veículos estacionados. Inicialmente, muitas reclamações sobre isto surgiram devido à possibilidade de um carona de um veículo abrir a porta sem verificar se neste momento passava um ciclista. O resultado seria catastrófico e conhecido por alguns ciclistas, a bicicleta e seu condutor, certamente iriam ao chão. Diz a legislação de trânsito que o motorista tem a responsabilidade de verificar se há aproximação de outro veículo ao manifestar intenção de abrir sua porta. Contudo, esta cultura inexiste para o lado direito, onde se encontra o carona e que este pode não ser motorista, desconhecendo esta obrigação. Outro fato a abordar sobre esta via é que em determinado ponto também não possui passeio de pedestre, trazendo estes para competir o restrito espaço com o ciclista. Quando o pedestre caminha em fluxo contrário percebe a bicicleta, quando caminha em mesmo sentido, passa ser uma vítima acidental em caso de ciclista distraído. Novamente, de quem é a responsabilidade? Outro ponto desfavorável desta avenida é que possui ciclofaixa em apenas um sentido, então, no sentido contrário, estará o ciclista “disputando” seu espaço como em uma avenida qualquer.

Um projeto extinto recentemente foi a Ciclovia Caminho dos Parques. Esta ciclovia tinha funcionalidade em domingos e feriados, oferecendo o deslocamento do usuário do Parque Moinhos de Ventos, passando pelo Parque Farroupilha e terminando nas imediações do Parque Harmonia. Após anos e anos de desrespeito por parte dos motoristas que estacionavam sobre a ciclovia de compartilhamento, a própria prefeitura optou em extinguir a opção. Não seria viável multar os condutores que deixavam os carros sobre a ciclovia? A sinalização e indicação dos limites da mesma estavam apagadas, denunciando um abandono de longa data. Outro fato curioso era a forte presença de obstáculos, sendo dois bem lembrados pelos ciclistas que costumavam utilizar o caminho dos Parques: um deles era a presença de um cabo de aço que dividia a pista bem ao meio (localizado na avenida Goethe), outro era na rua República, onde uma árvore absolutamente deitada avançava por cima da via. O caso da árvore é comum acontecer em cidades arborizadas. Já o cabo de aço, planejamento mal elaborado.

Fazendo parte do projeto, na continuidade da Ciclovia da Diário de Notícias, em sentido ao centro da capital, uma grande e importante ciclovia esta sendo reformulada juntamente com as obras de duplicação da avenida Edvaldo Pereira Paiva. A Ciclovia Edvaldo Pereira Paiva é larga suficiente para o que frequentemente ocorre, a divisão desta entre ciclistas e pedestres. Acredita-se que nesta reestruturação a ciclovia seja fortemente sinalizada e iluminada, e que desta vez seja construído o passeio de pedestre. Esta ciclovia fará um grande trajeto entre o centro cultural Usina do Gasômetro e o museu Iberê Camargo. Unida à Ciclovia Diário de Notícias surgirá, talvez, uma das mais longas ciclovias de Porto Alegre, e com real importância em termos de mobilidade urbana. Este trajeto será rápido para ciclistas, pois os carros realizam o caminho com muitas sinaleiras. Esta é uma aposta que muitos ciclistas fazem.

O Plano Diretor Cicloviário de Porto Alegre é uma esperança para a comunidade ciclística. No plano estão contidas dezenas de ciclovias, todas ainda na espera. Segundo este grande plano que envolve dezenas de projetos, Porto Alegre terá ciclovias e ciclofaixas espalhadas em toda cidade. Algumas que levam até Alvorada e outras cidades vizinhas, vias que ligam pontos importantes e centrais, ou simplesmente facilitam o cotidiano. A construção de uma grande malha cicloviária permitirá que cada vez mais pessoas despertem para o uso da bicicleta, motivadas pelo trânsito engarrafado dos automóveis. Além das vias destinadas à bicicleta, estão sendo estudados pontos onde deverão ser instalados bicicletários. Não adiantaria que Porto Alegre possuísse dezenas de vias e grande viabilidade de deslocamento, se não houvesse onde colocar a bicicleta. Toda a estrutura que comporta a bicicleta precisa estar nivelada. Como ir, onde deixar a bicicleta, horários alternativos, valorização da cultura de pedalar, estas são questões que o processo terá de absorver. Um grande processo, onde a prefeitura ainda amadurece os projetos junto com a sociedade, para quem sabe, colher bons frutos no amanhã. Se a realidade atual do trânsito assusta, o que será de 2014? Ano da Copa no Brasil com direito a mobilidade urbana ou engarrafamentos duradouros? Fará Porto Alegre um caminho para a bicicleta? Aguardemos para ver, dias melhores, virão.

(Agradecemos a valiosa colaboração de Pablo Weiss, advogado, presidente da ACPA, e ciclista de Porto Alegre.)

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