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Pedalando em Família

Litoral Sul de Santa Catarina

Revista Bicicleta por Ricardo Machado
36.529 visualizações
07/11/2012
Pedalando em Família
Foto: Arquivo Pessoal

Com um planejamento rápido através da internet, e alguns telefonemas para reservar hospedagens, realizamos uma viagem de quatro dias, com custo baixo e pouca bagagem, por paisagens deslumbrantes do litoral sul de Santa Catarina. Partimos em seis pessoas da cidade de Imbituba, no dia 04, e chegamos a Balneário do Arroio do Silva no dia 07 de janeiro de 2011. Tratou-se de uma viagem familiar, condição esta dos integrantes do grupo e das amáveis acolhidas na saída e na chegada. Entre os membros do grupo, alguns pilotos e veículos mais preparados e experientes para a viagem; e outros nem tanto, demonstrando que para praticar o cicloturismo não é preciso ser atleta ou contar com equipamentos caros.

Por onde passávamos, chamávamos a atenção, não somente por não ser comum ver cicloturistas nestas regiões, mas sobretudo, pela presença do Ademar – que não perdia a oportunidade de puxar conversa com as pessoas que encontrávamos no caminho – e da Dalila, quase sempre puxando a fila – ambos no auge dos seus 69 anos, mantiveram durante toda a viagem seu entusiasmo e bom humor. Além deles, que foram um charme a mais em nossa viagem, eu, Daiana, Roberta e André completávamos o grupo.

Entre a saída e a chegada, aquilo que no mapa apresentava-se como uma linha ligando dois pontos em um plano, revelou-se uma terra de natureza e gente envolvente.

1° dia

A cidade de Imbituba foi o ponto de encontro, pois nosso grupo vinha de regiões distintas de Santa Catarina. Naquela manhã, acordamos cedo e estávamos ansiosos para o início da jornada, sobretudo devido à incerteza sobre as condições do tempo. O dia amanheceu com um sol tímido, mas que logo se revelou. Ainda antes da partida, os últimos ajustes nas bicicletas e calibragem dos pneus. Nesta primeira etapa, optamos em seguir pela areia da praia, já que segundo informações, até Laguna é comum parte da faixa de areia ser compacta.

Isto era verdade, no entanto, em muitos trechos, mesmo próximo a água, a areia acabava sendo fofa demais para pedalar, exigindo um avanço desmontado. Além disso, este foi um dia de vento sul, que nos empurrava no sentido contrário em que seguíamos. Estes dois elementos fizeram com que, neste trecho inicial, nossa velocidade ficasse muito abaixo do esperado, com uma média de 11 km/h, fazendo com que nosso destino parecesse muito mais longe do que em condições normais. Apesar disso, a beleza das dunas, o brilho do mar e a animação do grupo compensaram as dificuldades.

Passava das 14h quando, após 35 km de pedalada, chegamos ao centro da cidade de Laguna. Após o almoço, uma parte do grupo precisou procurar uma oficina de bicicletas para pequenos reparos, e o restante aproveitou e literalmente dormiu alguns minutos na grama da praça central da cidade. Momento restaurador que foi complementado com o frescor e pureza da água de uma antiga bica de uma fonte natural, conhecida como “Fonte da Carioca”. Curtimos o ambiente e enchemos nossas caramalholas para o resto do caminho. Após atravessar por balsa a barra da Lagoa de Santo Antônio, pedalamos mais 22 km até o Farol de Santa Marta, percorrendo uma estrada de barro com vista para a Lagoa e a comunidade de pescadores que residem em sua margem.

Quando o cansaço começou a tomar conta de todo o grupo, aumentado pelo pavimento do tipo “costela de vaca”, a vista ao longe do Farol trouxe novo gás. Um dia difícil, mas o prazer em chegar à praia do Cardoso e, em seguida, do alto do morro, a vista belíssima da praia do Farol foi algo indescritível. Nossa pousada situava-se no alto da montanha do Farol, com uma visão que constituía uma bela composição da geografia: o mar, o costão no sentido oposto, as casas coloridas e as dunas ao longe. Diante deste espetáculo, findos 57 km sobre a bicicleta, comemoramos a superação dos nossos limites, e as boas sensações que a natureza nos proporcionava.

2° dia

No dia seguinte, optamos por ficar mais um dia na praia do Farol, com direito à visita ao Farol de Santa Marta e a um Sambaqui. Este dia rendeu boas caminhadas, fotografias e anchovas grelhadas.

3° dia

O amanhecer, regado a sanduíches e sucos diante da paisagem, foi nossa despedida do Farol. Dali, seguimos pela praia da Cigana e margeamos a lagoa do Camacho, em uma estrada de barro em condições muito melhores do que passamos nos trechos anteriores. Nossa primeira parada do dia foi na Estação de Permacultura Casa Colméia, na localidade de Garopaba do Sul, município de Jaguaruna. Na “Colméia” vive a família composta por Juliano, Teresa e Tiê, em uma experiência bem-sucedida de permacultura e bioconstrução.

Mais do que uma alternativa sustentável ambiental e socialmente, a cada palavra Juliano demonstrava todo seu entusiasmo na possibilidade de produzir um lugar melhor para se viver, e ainda permitir manter contatos com muitos visitantes (inclusive estrangeiros que vêm conhecer esta experiência). Saímos dali com a cabeça a mil. Éramos, todos, só entusiasmo.

Com trechos de asfalto ou de estrada de terra boa, neste dia o pedal rendeu. Ainda antes do almoço, uma parada para comer uma melancia comprada do próprio produtor que vendia na beira da estrada. Fomos flertados pelo seu filho de uns 12 anos,  com grande olhar de curiosidade. Ali trocamos algumas informações e fizemos fotografias. Na hora de pagar a melancia, o produtor não aceitou: “esta fica por minha conta”, disse ele, em total camaradagem conosco. Paramos para almoçar logo em seguida, no Balneário Arroio Corrente, ainda em Jaguaruna.

Após o almoço, seguimos pela via principal do Balneário, onde atraíamos a curiosidade dos moradores, muitos deles aproveitando para descansar em frente a sua casa. Neste trecho, tivemos companhia de dois rapazotes, de não mais de dez anos, que pedalaram um bom trecho conosco. Os meninos estavam entusiasmados com nossa presença e nos encheram de perguntas sobre a viagem. Somente após sugerimos que eles voltassem é que desistiram de nos seguir. De alguma forma, fica a ideia de que nossa viagem possa influenciar futuros cicloturistas. 

Dali em diante, por uma estrada em sentido oposto ao mar, passamos pela comunidade rural, no município de Içara. Trata-se de uma comunidade de agricultores cortada por uma estrada central. Ao pararmos para descansar, logo atraímos algumas crianças e uma senhora agricultora com a qual conversamos alguns minutos. Ela nos falava das dificuldades na lavoura, atualmente, e da velocidade dos automóveis - que aumentavam a cada dia na comunidade. A todo o momento ela interrompia a conversa para mandar as crianças saírem da rua, afinal há poucos dias aconteceu um grave acidente quase em frente a sua casa. Mesmo ali, numa rua que esperávamos pouco movimento de automóveis, ela não nos deixou sair sem nos contar a história do trágico acidente.

Após nos despedirmos, conversávamos:
- “Histórias de automóveis são todas iguais...”
- “Porque tem sempre um imprudente?”
- “Não, porque são sempre marcadas pela tragédia.”

Partimos, pois a chuva ensaiava no céu. Após passarmos uma pequena ponte pênsil, uma estrada em linha reta nos levou direto ao centro de Balneário Rincão. A chuva ameaçava engrossar quando chegamos, após 60 km, ao nosso destino do dia. Desta vez, ficamos em um hotel de melhor qualidade, bem na área central da cidade.

4° dia

Este último dia rendeu alguns contratempos que nos fizeram atrasar bastante a partida; botamos a roda na estrada já passava das 09h30min. E ainda, para piorar, furou o pneu de uma das bicicletas. Após o conserto, percorremos a região do Balneário em um longo trecho de estradas de lajota. Seguimos em uma longa estrada até a comunidade de Barra Velha, onde, segundo indicações, no final dela teríamos que empurrar as bicicletas por mais de 1 km por uma estradinha de areia. Este caminho, que parecia interminável, ficava entre dunas e restinga, e com aquele calor, a sensação era de estarmos em um deserto. Quando o desânimo tomava conta, alguém sugeriu verificarmos se dava para ir pedalando pela areia na praia. Rumamos em direção ao mar e, quando chegamos, avistamos uma paisagem paradisíaca.

Chegamos à barra onde desemboca o rio Araranguá, que, em contato com o mar, forma grandes lagoas de água salobra. Nem houve discussão: ao chegarmos, todos nos lançamos na água. Após nos deliciarmos com a paisagem e com o frescor da água, seguimos a jornada, margeando a “lagoa” que passava em meio à areia da praia. Logo, chegamos a uma pequena comunidade pesqueira que vive às margens deste encontro entre rio e mar, conhecida como Ilhas ou praia do Rio Araranguá. Depois descobrimos que esta localidade é uma das mais antigas da região. Paramos no primeiro restaurante que avistamos; era um restaurante simples, mas que nos serviu a melhor anchova da viagem. E mais: tudo isto em uma agradável sombra de frente para aquela paisagem maravilhosa. Almoçamos com a excitação de, em poucas horas, chegarmos ao nosso destino final.

Após o almoço e um breve descanso, seguimos mais alguns quilômetros até a balsa que atravessa o rio Araranguá. De lá já avistávamos o magnífico Morro dos Conventos. Nesta parte, encontramos as primeiras estradas íngremes de barro com muitas pedras. Passamos por algumas plantações e casas de pequenos agricultores. Ao parar para pedir informação a duas senhoras, sentadas numa varanda, como muitos outros, elas se admiraram com a disposição do Ademar em realizar a viagem. De imediato, com um sorriso no rosto, ele terminou a conversa: 

- “Ficando aí paradas, não se chega a nenhum lugar!” Aos risos, saímos para as pedaladas finais da jornada.

Alcançamos a estrada principal que nos levaria ao Arroio do Silva, nosso destino final após 36 km pedalados naquele último dia. Quando faltavam no máximo uns 5 km, para confirmar o caminho certo, pedimos a última informação para um rapaz. Ele colocou a mão na cabeça e disse: 
- “O caminho é este, mas é muito longe!”

 Frase muito engraçada pra quem já havia pedalado quase 150 km.

 

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