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Pedal Curticeira

Breve histórico e perspectivas do cicloturismo no Rio Grande do Sul

Revista Bicicleta por Leandro Karam / Pedal Curticeira
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23/08/2016
Pedal Curticeira
Foto: Leandro Karam / Pedal Curticeira

A partir do dia 5 de outubro de 2010, no Largo dos Artistas da praça Coronel Pedro Osório, a meu convite, cinco pessoas passaram a se encontrar semanalmente para pedalar. Em pouco tempo este número se multiplicou e passou dos três dígitos, chamando a atenção de muita gente. Tanta atenção, que a iniciativa do Pedal Curticeira, em 2012, virou matéria da edição 27 da Revista Bicicleta, de onde veio o carinhoso apelido de “Pirilampos Urbanos”, citado na edição. De alguma forma, era uma mudança interessante e oportuna na rotina da capital nacional do doce.

Interessados em experimentar outra maneira de observar e interagir com a cidade, em seus recantos urbanos e rurais, aglutinaram-se pessoas que experimentavam a bicicleta não apenas pelo corpo e o movimento cíclico dos pedais, mas por experimentar com isso uma forma mais profunda de observar e sentir a vida a que estamos todos, e juntos, entrelaçados. Da matéria bruta mineral à formação dos solos, organismos biológicos e, mais recentemente, a incrível evolução tecnológica que estamos vivendo hoje, a sociedade enfrenta a incorporação gradativa desta tecnologia na mediação também das relações humanas e processos de formação de valores sociais, hoje em grave crise, diga-se de passagem.

A bicicleta, no entanto, vem afirmando seu potencial de força motriz para a criação de uma nova onda global que se move na direção da interiorização da experiência e reconexão com a vida em todas as suas dimensões e formas. Interiorizar a prática do cicloturismo associado à experiência rural nos leva a conhecer não apenas o interior das cidades, mas também o interior das consciências individuais que se permitem experimentá-la. Atinge aqueles pensamentos mais íntimos que de fato revelam quem somos e a qualidade de como realmente nos relacionamos e criamos nosso legado ao longo das jornadas individuais de vida.

Em 2011, com o atropelamento de dezenas de ciclistas em Porto Alegre durante pedalada do movimento Massa Crítica, o cenário do movimento cicloativista se intensifica no país. Nesta ocasião, o Pedal Curticeira, em Pelotas, se une em mobilização junto ao Movimento de Usuários de Bicicleta (MUBPel) e realizam um passeio ciclístico que atinge público recorde, estimado em 200 participantes, segundo a mídia local. Chegava a hora de falar mais sério a respeito da bicicleta e seu papel socioambiental no cotidiano da cidade. O termo Mobilidade Urbana logo passa a estar presente nos círculos sociais e na agenda política dos candidatos ao cargo do executivo municipal (período 2012-2016) em seus programas de governo. Dos 21 vereadores, poucos, senão nenhum deles conhece o tema em profundidade. 

Em 8 de julho de 2011, durante o 1º Seminário de Mobilidade Urbana, que aconteceu na unidade Pelotas do Sest/Senat, especialistas, empresários, professores, estudantes e servidores públicos, ao longo dos encontros e conversas, decidem formar um coletivo de desenvolvimento que pretende debater assuntos de mobilidade e acessibilidade e criar alternativas sustentáveis à mobilidade urbana.

O seminário debateu alternativas para o transporte público e sua integração com outros modais, e culminou na elaboração de documento entregue aos gestores públicos municipais contendo propostas e apontando soluções para o planejamento da Mobilidade Urbana de Pelotas. O diretor do Sest/Senat, Roger Lange, em matéria publicada na mídia regional, afirma que mesmo investindo no transporte público, as autoridades precisam melhorar as condições das ruas e avenidas para receber o crescente número de veículos e realizar campanhas de conscientização para a adoção de outros meios de transporte, como as bicicletas. Nascia o Observatório da Mobilidade Urbana da cidade, do qual fui membro por dois anos e hoje, infelizmente, encontra-se inativo.

Em 2013 e 2014 são feitas novas ciclovias e ciclofaixas, como as das ruas Profº Araújo, Gomes Carneiro e Avenida Ildefonso Simões Lopes. O impacto no cotidiano da cidade favoreceu a evolução da compreensão do tema e início de um novo ciclo de apropriação coletiva das implicações da bicicleta nas ruas. A visibilidade das pedaladas promovidas pelo Pedal Curticeira também aumenta, e intervenções urbanas são realizadas pelo movimento, seus simpatizantes e em parceria com a Secretaria de Trânsito, que culminou na implantação de “bike-boxes” no centro da cidade. O assunto bicicleta e mobilidade, de fato, tomava grandes proporções.

Desde então, a incandescência do cenário ciclístico da cidade e a diversidade dos perfis que compunham os coletivos de pedaladas abre espaço para a formação de outros grupos. Surge então, no final de 2013, o Pedal Dominguera, iniciativa do comerciante e na época estudante de Processos Gerenciais, Telmo Coelho, que por orientação médica acabou encontrando na bicicleta uma nova perspectiva de vida. Hoje o Pedal Dominguera é o grupo que reúne maior quantidade de ciclistas na cidade.  

Surgem também outros grupos mais discretos, como o Pedal da Parceria, as Mutantes (1º grupo feminino da cidade), o Pedal das 7, os Mamutes e também o peculiar Metal Pedaleira, coordenado pelo Designer e entusiasta Paulo Momento, figura ícone do cenário underground de Pelotas e usuário inveterado da bicicleta. Enfim, a cultura de grupos de ciclismo passa a se consagrar na cidade e região. A partir deste momento, o foco do Pedal Curticeira transcende a mobilização de ciclistas que já acontece espontaneamente e parte para o desafio de buscar a estruturação do território para o desenvolvimento do cicloturismo cultural de experiência que fomente processos de cidadania de modo mais efetivo.

Em novembro de 2013, com vistas à formatação de uma agenda anual de eventos, o Pedal Curticeira busca parceria para o desenvolvimento de um programa de cicloturismo rural de experiência agroecológica. Encontra junto ao pesquisador Joel Cardoso, coordenador do projeto de Sistemas Agroflorestais da Embrapa Clima Temperado, a parceria ideal. Juntos, dirigem a proposta à Associação Regional de Produtores Agroecológicos (ARPA-SUL) e com o apoio institucional da Embrapa e dos comércios locais de bicicleta (JL Casarin e Nobre Bicicletas) estruturam uma série de eventos, que até o momento acumula um histórico de 17 visitações a estabelecimentos agroecológicos de Agricultura Familiar, tendo impactado o total de 14 famílias de agricultores que seguem o modelo agroecológico de produção de alimentos na região.

Dada a relevância social deste modelo de trabalho, os Roteiros Agroecológicos se tornam pauta da edição nº 47 da Revista Bicicleta, (dezembro de 2014) em matéria que relata com primor os passos iniciais desta jornada de sustentabilidade nas relações entre a cidade e o campo.

O ano de 2015 foi marcado pela definição dos rumos do trabalho do Pedal Curticeira para os próximos anos. Tenho articulado junto às prefeituras da região para sensibilizar gestores públicos da importância de potencializar as riquezas culturais locais e dar início à criação do “Circuito Serra dos Tapes de Cicloturismo Agroecológico”, projeto turístico regional que foi relatado em matéria escrita por mim na edição de número 57 da Revista Bicicleta, matéria que deu início à minha recente parceria na condição de redator de conteúdo da revista, assumindo então o compromisso de atualizar seus leitores sobre os processos e rumos do cicloturismo no extremo sul do país.

Em reuniões com os agricultores, há constantes relatos do aumento de clientes impulsionados pela experiência do projeto. Além disso, a relação que se faz entre produtor e consumidor se torna mais pessoal, associando as pessoas e os lugares visitados com a qualidade e variedade dos alimentos no balcão da feira.

Atualmente, os Roteiros Agroecológicos continuam gerando indicadores positivos e seguem atraindo mais praticantes da bicicleta, lembrando que a relação entre todos envolvidos é do tipo “ganha-ganha”. Ganham os agricultores que veem seu trabalho sendo valorizado, ganham os consumidores que passam a consumir alimentos de melhor qualidade, ganha a natureza que vê suas riquezas e diversidade serem respeitadas em diversidade e ganha o prestador de serviço, como o Pedal Curticeira, que faz o intermédio desta experiência e tem seu trabalho cada vez mais demandado e valorizado. Bom para todos!

Atentos à viabilidade deste caminho para a região da Serra dos Tapes, outras instituições passam a agregar força ao projeto. A recente aproximação com o Sebrae, com o Instituto de Biologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e com uma rede de estabelecimentos comerciais de produtos oriundos da agricultura familiar local, aumentam as perspectivas para 2016.

Mas nem tudo são flores neste trabalho. O movimento Pedal Curticeira, desde o seu princípio, ainda não conta com aportes estáveis de recursos e nem sempre conseguimos otimizar os custos com a infraestrutura para execução dos eventos. Tudo o que foi conquistado até então deve-se em grande parte à iniciativa deste que vos escreve, e que por vários momentos, quase se deixou desanimar pelas dificuldades do caminho.

Para sanar esta lacuna, temos uma meta importante para o 1º semestre de 2016. Estamos empenhados na realização de uma campanha de financiamento coletivo com o objetivo de levantar recursos para a aquisição de infraestrutura de reboque e bicicletas que serão utilizadas nos eventos de cicloturismo.

Através de articulação junto à 5ª Coordenadoria Regional de Educação, uma das metas que temos para 2016 com a aquisição dos equipamentos citados, é a disponibilização da experiência cicloagroecológica para alunos da rede pública de ensino. O objetivo da proposta é prover apoio a metodologias interdisciplinares de abordagem das disciplinas da grade curricular em sala de aula, visando aumentar o interesse e entrosamento entre professores, alunos e comunidade, dado o contexto real da produção de alimentos em nosso território, chamando atenção para questões sociais, culturais, econômicas, de uso do solo, conservação da biodiversidade, de recursos de água e outros tantos temas que transversalizam a experiência.

A Utopia que nos move a pedalar das baixadas arenosas da Lagoa dos Patos aos mais altos afloramentos graníticos da Serra dos Tapes, é que em um breve futuro, que está sendo experimentado, a metade sul do Rio Grande do Sul se consagre enquanto um dos principais destinos de turismo de experiência agroecológica do Brasil. Esperamos e trabalhamos para que, a exemplo de outros projetos, como o da Acolhida na Colônia - SC, as transformações que já conquistamos sejam apenas a ponta do iceberg de um novo e sustentável ciclo de desenvolvimento para a metade sul do Rio Grande do Sul.

Este é o nosso sonho e te convidamos para acompanhar e viver esta transformação juntos! 

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