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Patrícia Sadalla Collese - Eu Pedalo

Revista Bicicleta por Patrícia Sadalla Collese
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28/11/2012
Patrícia Sadalla Collese - Eu Pedalo
Foto: Arquivo Pessoal

Quem pedala nunca esquece a primeira vez! No meu caso, foi aos sete anos e minha infância foi brincando, de vez em quando, de pedalar com alguns de meus irmãos. Lembro-me de uma vez que eu e meu irmão descemos a ladeira de nossa rua numa bike velha e sem freio comprada numa garagem de uma família americana que vendia brinquedos usados importados.

Eu na garupa, ele pedalando... Foi um tombo fenomenal e algumas semanas para cicatrizar os joelhos. Acho que bicicleta traz essas lembranças remotas da infância e quem pedalou um dia NUNCA MAIS ESQUECE.

Nunca fui ciclista, mas sempre gostei de brincar de pedalar mesmo que só de vez em quando. Quando eu tinha 16 anos, meu pai (que lia muito sobre o mercado de bicicletas da China) resolveu fazer uma bicicleta elétrica, porque ele achava (isso em 1979) que São Paulo ia parar e tinha que fazer alguma coisa para evitar isso. Então, ele montou uma bike elétrica com motor de caminhão e bateria de avião comprados num ferro velho.

Foi uma emoção e durante dois anos meu pai ia para o trabalho dele de bicicleta para chamar a atenção das autoridades, mas o que acontecia é que ele era chamado por muitos de louco, pois queria melhorar o trânsito de São Paulo que naquele momento ainda era razoavelmente tranquilo. Um dia perguntei ao meu pai qual era o sonho dele e então ele me disse que gostaria muito de ter nascido nos Estados Unidos e trabalhar num laboratório de invenções; ficar inventando coisas sem a preocupação de ter verba ou não. Aquele papo ficou na minha cabeça pois vi meu pai frustrado muitas vezes por não ser compreendido pelas autoridades.

É muito difícil ser um visionário num mundo em que o que predomina é o imediatismo e o status! Passados alguns anos, fui morar na Inglaterra quando tinha 23 anos. Lá aluguei uma bike e ia para todo lugar com ela, que se tornou minha companheira diária de locomoção. Em Cambridge, onde morei, a grande maioria das pessoas utilizam a bike pra se locomover. Não tinha tempo ruim, nem idade e nem condição social pra ir de bike para o trabalho, escola, supermercado, cinema, etc. O que mais me chamava a atenção eram as velhinhas que me passavam nas ladeiras e os homens e mulheres vestidos de forma bem social, no sol, na chuva, na neve. Nem preciso dizer que em pouco tempo me acostumei e ia para todo canto com ela. Assim como as inglesas, eu também pedalava de saia e salto. Foi uma época maravilhosa em que me sentia livre e de bem com a vida. O que mais me lembro era o respeito que os carros tinham com os ciclistas o que nos encorajava a sair de bike pra todo lado.

Ao retornar para o Brasil, nunca me conformei com o trânsito de São Paulo e sempre sonhei em poder voltar a pedalar um dia. Apesar de utilizar o carro pra tudo, tentei várias vezes sair para passear de bike, contudo, só conseguia pedalar por perto de casa, pois não tenho muita resistência e as subidas pra mim sempre foram uma dificuldade. Com o coração acelerado e um cansaço descomunal, voltava pra casa e nunca conseguia acompanhar meu marido nos passeios de bike, uma vez que ele sempre pedalou e tem boa resistência.

Tudo começou a mudar quando, aos 44 anos, trabalhando como consultora de seguros, notei que meus clientes, ao chamarem o guincho para socorro do automóvel, me ligavam bravos porque o guincho não conseguia estacionar e demorava muito pra chegar no local. Junto a isso, a Porto Seguro resolveu iniciar um projeto piloto, colocando algumas bicicletas para ir socorrer os clientes. Quando eu conheci esse projeto (que só tinha poucos meses), só pensei em realizar o sonho de meu pai e enviei um e-mail ao dono da Porto Seguro sugerindo que meu pai poderia ser um voluntário num projeto piloto de bicicletas elétricas.

Em 2008 o sonho de meu pai se realizou e em 2009 a Porto Seguro resolveu colocar à venda as bikes elétricas. Além disso, a Porto colocou o nome de meu pai na bicicleta e no manual de instruções a Porto Seguro resolveu contar um pouco dessa história. Dessa forma, a nova Felisa (junção do nome de meu pai Felício Sadalla), teve seu início.

A primeira Felisa foi entregue para mim de presente quando completei meus 45 anos de vida. Bom, nem preciso dizer que de lá para cá tive que reaprender a pedalar e foi quase um ano para dominar a magrela e perder o medo do trânsito, da rua, mas a paixão pela Felisa foi fulminante; desde então ela passou a fazer parte da minha vida. Com a bike elétrica Felisa, consegui pedalar sem o coração pulando pela boca, além de poder ir mais longe. Hoje chego a pedalar uns 50 km por dia e ganhei saúde, disposição e bom humor.

O que eu sinto é que a bike elétrica ainda é algo curioso e que desperta curiosidade. Alguns sentem repulsa por ela porque acham que a bike elétrica vai atrapalhar os ciclistas. Ledo engano dos ciclistas, pois a bike elétrica é uma companheira simpática e de grande utilidade para pessoas como eu, por exemplo, que não são esportistas e detestam subidas mas querem fazer um exercício leve e constante o dia todo. A bike elétrica vem junto com as bicicletas comuns, brigar por mais espaço público. Muitas pessoas gritam pra mim no trânsito: essa não vale porque você não pedala. A falta de informação faz escutarmos este tipo de frase, uma vez que a bicicleta elétrica tem que ser pedalada o tempo todo e o motor elétrico serve como um grande auxiliar nas subidas e para ganhar um pouco mais de velocidade nas retas. Além disso, com a bike elétrica eu posso trazer peso na bike que a pedalada continua leve e agradável.

Vou para o supermercado, para o trabalho ( levo meu notebook nas costas) e pego subidas que se tornam retas super agradáveis. Com a bike elétrica consigo aliar, exercício leve constante e diário com a ida aos locais sem a menor preocupação de procurar um local para estacionar e sem nenhum trânsito. A única coisa que ainda me atrasa um pouco são os faróis de trânsito que demoram alguns minutos para abrir. Espero que um dia uma outra grande invenção de meu pai seja concluída por alguém que é uma passarela, leve e barata que permite que os ciclistas não parem nos faróis.

Hoje, já há dois anos utilizando a minha Felisa, aprendi a dominar a bike, perdi o medo das ruas, pois na grande maioria das vezes faço trajetos de ruas pequenas, arborizadas e evito avenidas. Com a bike minha vida mudou completamente e São Paulo ficou uma cidade agradável, pequena e sem estresse. Eu relaxo aonde as pessoas mais se estressam: no trânsito!

Estou mantendo meu peso em dia, meus exames de sangue estão ótimos e sinto que o ato de pedalar melhora em muito a circulação (principalmente para mulheres que tem a famigerada celulite) ajudando qualquer pessoa a manter boa saúde. Outro detalhe importante é que quando você pedala não tem depressão nem dia ruim. O bom humor predomina, acho que é a adrenalina que dá!

A hora que fecho meu escritório, por volta das 18 h 30 min, é quando São Paulo está um verdadeiro caos e tudo está parado. Aí começa minha diversão, pois no intuito de aguçar a curiosidade dos motoristas e de divulgar a Felisa, a qual eu vendo, subo as ladeiras ao lado do trânsito totalmente parado e fico em pé sem pedalar para chamar a atenção das pessoas. Na maioria das vezes estou de saia, salto alto e colar de pérolas, pois com a bike elétrica posso ir trabalhar com roupas sociais.

Em Janeiro de 2011 participei do Bike Tour e notei que ao acabar o passeio as pessoas erguiam placas de papelão tentando juntar o maior número de ciclistas no intuito de voltarem para suas residências pedalando em grupo, pois quanto mais ciclistas juntos menor o risco no trânsito das ruas de São Paulo. Notei que a bicicleta une as pessoas e o carro isola!

Eu ia raramente visitar meus pais que moram há 13 km de minha casa e para ir à noite de carro até a casa deles, levo em torno de duas horas infernais de trânsito hiper, super congestionado. Hoje, vou pedalando, cantando e apreciando o sol, o céu azul, o vento, e levo em torno de uma hora para chegar na Vila Mariana, bairro onde moram meus pais. Durmo por lá e volto no dia seguinte. Saio da casa dos meus pais às oito horas da manhã, quando São Paulo está totalmente parado e lá vou eu de volta para meu escritório que fica há 13 km de distância. Então, às nove horas já fiz meu exercício leve diário e começo meu dia Felisa da vida!!! Além disso, meu carro fica praticamente parado na garagem de casa, gasto em média R$ 5,00 de conta de luz a mais por mês (para pedalar 100 km, gasto em média R$ 1,00).

A bike para passeio é vista com simpatia pela grande maioria das pessoas e é uma pena que o medo ainda domine muitos daqueles que com certeza utilizariam a bike para ir para o trabalho. O que é uma delícia é que estando numa bike você vai cumprimentando as pessoas nas ruas e principalmente os colegas de luta (ciclistas). Somos como uma tribo e quem pedala se sente unido na mesma causa por espaço e respeito nas ruas.

E para concluir, deixo aqui meu recado a todos: os motociclistas, os ciclistas e os motoristas. Sei que estando sobre uma e-bike, sou uma pessoa que ainda causa muita controvérsia, pois os motociclistas pensam que estou numa bike, os ciclistas pensam que estou numa moto e os motoristas ficam curiosos e intrigados, como pode uma mulher subir uma ladeira em pé numa bike? No intuito maior de divulgar a bicicleta elétrica, deixo de pedalar só quando quero ser vista pelas pessoas que estão paradas no trânsito, embora o correto é subir a ladeira pedalando e utilizando o motor como auxiliar.

Na minha opinião o ato de pedalar uma bicicleta elétrica não passa de um veículo simpático e que, sabendo utilizar da forma correta, não vai atrapalhar ninguém. Assim como meus colegas ciclistas, sou um carro a menos nas ruas de São Paulo e isso me dá uma grande esperança de acreditar que ainda veremos uma São Paulo melhor, pois São Paulo parou, as pessoas não aguentam mais e estão começando a pressionar as autoridades por mais ciclovias, ciclo-rotas e ciclofaixas.

Se em 1979 meu pai era um louco, hoje a louca é a sua filha que utiliza um veículo ainda um pouco estranho mas que dentro de pouquíssimo tempo vai ser só mais uma ciclista ‘elétrica’ nas ruas do Brasil e quem sabe do mundo.

BICICLETA: AME-A OU DEIXE-A – não tem meio termo para quem pedala. Uma vez ciclista, sempre ciclista. E quem nunca foi ciclista e nem pretende ser um, seja um ciclista elétrico.

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