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O essencial é invisível aos olhos

Marleide Maria da Silva perdeu a visão em 2005, mas descobriu no esporte uma chance de recomeçar. Não enxergar me limita de algumas coisas, mas eu não fico em casa esperando que as coisas caiam do céu, diz a primeira e, por enquanto, única triatleta deficiente visual da América Latina.

Revista Bicicleta por Anderson Ricardo Schörner - Colaboração: Adriana Dias
34.438 visualizações
20/08/2013
O essencial é invisível aos olhos
Foto: Divulgação

Marleide Maria da Silva é a primeira e, por enquanto, única triatleta com deficiência visual da América Latina. Nascida no sertão de Pernambuco, na cidade de Caraibeiras, em 1970, viveu uma infância não muito fácil, mas normal e feliz. Na adolescência, jogava futebol, mas apenas por lazer, sem levar o esporte a sério.

Aos 22 anos, quando deu à luz seu único filho, Marleide sofreu um derrame na vista. Ela descobriu que estava com retinose pigmentar, doença degenerativa que, a qualquer momento, a faria perder a visão. E esse momento chegou em 2005, treze anos depois. 

Contato com o esporte

Graças ao convite de sua irmã, Neide, que tem a mesma deficiência, o esporte entrou na vida de Marleide. "Ela já morava em Santos e soube de um projeto chamado Motivação, criado por um sargento da Polícia Militar chamado Wilson, que ensinava diversas modalidades esportivas a pessoas com deficiência. Comecei a correr e em seguida tomei gosto pela natação também. Logo depois conheci o ciclismo, essas duas últimas através das escolinhas de esportes de Santos", diz Marleide, que hoje pratica as três modalidades separadamente e também participa de competições de triatlo.

O triatlo é um esporte difícil: imagine para quem tem alguma deficiência. Mas é ele justamente a grande paixão de Marleide. "Quando faço triatlo, esqueço o cansaço e os problemas que tenho com a falta de estrutura", ela diz. Se a dificuldade é maior, o prazer em completar o percurso e fazer as transições de uma modalidade para a outra também engrandece.

Para conseguir se interar nesses esportes superando sua deficiência, o primeiro e maior desafio foi aprender a ter confiança em outras pessoas. Para nadar, pedalar e correr, ela precisa de guias. "Na natação, a guia nada ao meu lado, orientando sobre a direção que devo seguir. No ciclismo, uso uma tandem, bicicleta de dois lugares em que a guia vai à frente no controle das trocas de marcha e direção. Na corrida, uso uma pulseira que me une à guia por uma corda elástica", conta.

A partir de então, a frase de Antoine de Saint-Exupéry passou a fazer muito sentido para ela e para quem acompanhou sua rápida adaptação: "só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos".

Outros Obstáculos...

Não ter técnico, patrocinador nem assessoria, embora torne tudo mais difícil, nunca impediu Marleide de correr atrás de seus sonhos e de praticar o esporte que ama. Não ter retorno financeiro limita o trabalho, pois dessa forma é preciso conciliar os treinos com o tempo livre de suas guias, que prestam um serviço voluntário e possuem outros trabalhos para se sustentarem. "Minhas guias são a luz dos meus olhos. Sem elas eu não saio do lugar", diz a triatleta.

Por mais títulos que um paratleta conquiste, por mais capacidade que ele prove, a falta de reconhecimento também é um entrave. Marleide exemplifica com o caso das Paralimpíadas: "todos viram o desempenho dos atletas com deficiência e a quantidade de medalhas que trouxeram para o país. Mesmo assim, o que aparecia nos noticiários eram apenas os resultados dos mesmos! Não houve cobertura de alguma emissora, como aconteceu com as Olimpíadas. E é sabido que um paratleta naturalmente se desdobra ainda mais para superar seus limites. Ainda assim, poucos dão o devido valor a nós. É difícil conviver com isso. Mas, com certeza muita coisa já melhorou e eu confio que a tendência seja melhorar cada vez mais".

...E outros benefícios

"Eu era muito tímida, obesa e desanimada. Depois que eu comecei a praticar esporte, perdi um pouco a minha timidez e foi através do esporte que eu decidi que iria para a feira, para o supermercado, enfim, para onde eu preciso ir sozinha. Eu viajo para qualquer lugar e sem medo", conta Marleide.

As pessoas próximas dela, como a amiga Adriana Dias, reconhecem a importância do esporte para a sua vida. "Como para qualquer atleta, o esporte dá maior disposição e melhora muito a autoestima. No seu caso, o esporte não deixou que ela se entregasse às lamúrias ou ao mau-humor, e a impediu de sentir pena de si mesma", diz Adriana.

Marleide relata que "o esporte me fez entender que mesmo com minhas limitações, eu poderia levar uma vida praticamente normal, o que me deu maior segurança e independência. Eu me tornei uma pessoa autoconfiante e, por consequência, mais feliz".

Sobre a bicicleta, especificamente, Marleide fala sobre a sensação de liberdade que ela proporciona. "Embora tenha sempre alguém me guiando na frente da tandem, sinto que posso cada vez ir mais longe e me superar sempre. Tenho minha limitação, mas o que atrapalha mais a pessoa com deficiência são os obstáculos que a própria pessoa se impõe. O segredo é ter amor ao que faz e não desistir diante dos obstáculos. A velocidade e o vento no rosto é uma sensação muito boa e viciante. Pedalando, eu esqueço meus problemas e até acredito que posso voar... Cada vez mais alto!"

Conquistas

· Tetracampeã Brasileira de Paraciclismo de Contrarrelógio

· Pentacampeã Brasileira de Paraciclismo de Estrada
· Tricampeã Paulista de Paraciclismo
· Vice-campeã UWCT UCI Campeonato Mundial Ciclismo Amador, realizado no  
  Rio de Janeiro, em categoria única - masculino, feminino, misto e def. visuais
· 4ª Colocada no Parapan 2011, no México.
· 8ª Colocada no Mundial de Triathlon em Auckland, na Nova Zelândia

Agradecimento especial à amiga de Marleide, Adriana Dias, que prestou colaboração essencial para que a matéria pudesse ser realizada.

 

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Comentários
1 comentário.

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Adriana Dias

24/08/2013 às 01:07

Essa matéria ficou ótima! Guardo a revista com muito carinho!
Atualmente Marleide é a 1ª colcada no ranking mundial de Paratriathlon em sua categoria e estamos correndo atrás de recursos para que ela possa competir no mundial em Londres no mês de Setembro.
Com todos esses títulos em sua carreira, Marleide não tem nenhum patrocínio. Mas a guerreira não desiste nunca. E os amigos estão sempre prontos a ajudar. Valeu Revista Bicicleta.
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