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O Caminho Velho da Estrada Real em poucas palavras

Revista Bicicleta por Antonio Olinto
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20/05/2013
O Caminho Velho da Estrada Real em poucas palavras
Foto: Rafaela Asprino

Assim como muitos, quando estava no ensino fundamental, aprendi que o Brasil havia sido descoberto acidentalmente em 1.500 por Pedro Álvares Cabral, após ter pegado uma calmaria e ficar perdido.

No segundo grau descobri que Portugal e Espanha haviam assinado o Tratado de Tordesilhas em 1.494 e que os comandantes dos navios portugueses são comparáveis aos pilotos de naves espaciais da atualidade, ou seja, mesmo sem GPS, Cabral provavelmente sabia muito bem onde estava: ele veio tomar posse das terras em nome do Rei.

Como algo tão simples e crucial na história de um país pode ser destorcido desta forma? Imagine o que pode acontecer com o trajeto da Estrada Real?

Se perguntarmos para 10 pessoas o que é a Estrada Real, podemos receber umas 15 respostas diferentes e todas muito bem embasadas. Apesar de esta revista primar pelo conteúdo de suas matérias, acredito que não há espaço para esgotar o assunto. De toda forma, gostaria de fazer alguns comentários para o cicloturista que deseja viajar pela Estrada Real não cair nos principais enganos.

Primeiro é importante separar duas coisas: Estrada Real e Projeto Turístico Estrada Real.

O Projeto Turístico Estrada Real é um projeto criado por Áttila Godoy e Prof. Oyama Ramalho em 1994 para o desenvolvimento turístico na região de certos caminhos oficiais utilizados nos séculos 17 e 18. Este projeto grandioso cobre 177 cidades e mais de 1.500 km de caminhos que englobavam o Caminho Velho, o Caminho Novo e o chamado Caminho dos Diamantes: “Caminho Velho das Minas” (de Paraty até Ouro Preto), o “Caminho Novo” (do Rio de Janeiro até Ouro Preto) e um caminho ligando Ouro Preto a Diamantina, que fazia parte do chamado “Caminho dos Currais”, utilizado pelos nordestinos para chegar às minas. Do encontro destes três caminhos foi criado o primeiro símbolo da Estrada Real que é um “Y” de cabeça para baixo, ou melhor, a letra grega lâmbida (λ). 

Busque no youtube por “Estrada Real – A verdadeira história” e veja a entrevista completa com Áttila Godoy. Nela, Áttila comenta que desde que o projeto ficou inteiramente nas mãos da FIEMG através do Instituto Estrada Real houve um desvio do verdadeiro propósito que idealizou para o projeto.
Um pouco de história

O fato é que por 30 anos Portugal desprezou a descoberta do Brasil, pois o comércio com as Índias era muito mais lucrativo e demandava menor investimento. Desde a vinda de Cabral, as costas brasileiras receberam a visita de várias embarcações. Degredados, desertores e náufragos acabaram optando por viver entre os índios. Alguns conseguiram perfeita integração com estes, principalmente na região entre São Vicente e Cananéia.

Personagens lendários como o Bacharel de Cananéia e João Ramalho, no planalto, foram figuras chave em nossa história: conquistaram a confiança dos silvícolas através do sistema de “cunhadagem”, ou seja, da mesma forma que fazia com membros de tribos amigas, o índio exigia que o branco entrasse no clã oferecendo uma irmã em casamento como forma de selar um vínculo. Em uma sociedade poligâmica, logo João Ramalho, que oficialmente era casado com Bartira, filha do cacique Tibiriçá, atingiu a casa das centenas de descendentes através de vínculos com diversas outras tribos.

Sob estes parâmetros, a região da futura capitania de São Vicente foi inicialmente colonizada, transformando- se em um tipo de entreposto onde aportavam naus em busca de pau-brasil, escravos índios e alguns produtos da terra. Por volta de 1.530, para não perder as terras conquistadas, a coroa portuguesa começou um sistema de colonização, baseado na iniciativa privada, chamado de capitanias hereditárias.

São Paulo de Piratininga não tinha clima nem solo propícios para plantar cana, mas contava com uma população muito especial. Os filhos dos aventureiros portugueses misturados com o sangue nômade das índias brasileiras deu origem a uma legião de mamelucos extremamente forte e adaptada para explorar nosso grande país.

A Europa vivia sob o sistema econômico chamado de mercantilismo desde o século XV, onde a riqueza de uma nação era medida pela quantidade de ouro e prata que pudesse acumular. Havia lendas que falavam de reinos de ouro e prata no interior do continente americano e a coroa portuguesa no princípio até financiou expedições em busca destas preciosidades.

Foi da região de São Paulo que saíram as principais Entradas e Bandeiras em busca de metais e pedras preciosas. Como o eldorado nunca foi encontrado, os paulistas tornaram-se especializados no apresamento de índios de tribos “hostis” para venda aos engenhos de açúcar. Esta prática logo passou a ser a base de sua economia. 

Por volta da metade do século XVII, a produção açucareira da Holanda nas Antilhas começou a derrubar o que ficou conhecido como o Ciclo do Açúcar no Brasil. Pobre e desimportante, a capitania de São Paulo já não tinha para quem vender escravos; a busca de metais e pedras preciosas voltou a ser o tema principal das expedições pelo interior brasileiro.

Pequenas quantidades foram encontradas aqui e ali, nada de vulto, mas grande o bastante para consolidar a fundação de várias localidades importantes como Itu, Goiás Velho, Paranaguá e Curitiba. 

Sem muita técnica ou conhecimento teórico de mineração aqueles homens de pés descalços viviam com o pouco que a natureza lhes dava e por isto podiam sair com suas bateias buscando nas encostas deste nosso vasto país as pequenas pepitas de metal precioso. 

Os historiadores divergem. Mas o que sabemos é que foram os paulistas os responsáveis pela descoberta entre os anos de 1.693 a 1.695, do maior eldorado que o mundo já ouvira falar.

Ninguém sabia da extensão das jazidas e do custo de exploração. Sendo assim, a princípio, ao invés de se apoderar de tudo em nome do rei, a Coroa Portuguesa preferiu conceder regalias aos que decidissem se aventurar na exploração das minas e até apoiou a criação de entrepostos para montar uma rede de abastecimento ao longo do caminho até a região.

Entretanto, a notícia da descoberta de ouro espalhou-se rapidamente e os paulistas vendiam ou simplesmente largavam tudo o que tinham e seguiam para a região onde hoje é Ouro Preto. Várias cidades paulistas ficaram literalmente desertas.

Os paulistas eram os que mais conheciam o caminho e os que melhor preparados estavam para, de pronto, começar a exploração. Em toda a América não havia equinos, os poucos descendentes dos que foram trazidos pelos colonizadores eram caríssimos. Os paulistas eram ótimos caminhantes e péssimos cavaleiros. Andar a cavalo era algo considerado cansativo para os paulistas desta época. Por isto, no início, não há que se falar em tropeiros ou estradas carroçáveis. Uma expedição demorava cerca de três meses para chegar até Ouro Preto, mesmo porque os paulistas caminhavam até o meio-dia, montavam acampamento e depois saiam em busca de comida.

Alimentos comuns eram as frutas silvestres, raízes, castanhas, caça, pesca, pinhões (fruto da araucária), mel de pau, até formigas, ou seja, tudo o que pudesse ser encontrado na mata e não precisasse ser carregado. O problema surge quando grande quantidade de pessoas passa por um mesmo caminho no mesmo momento, a natureza não tem tempo de se recuperar e o resultado óbvio é a escassez de alimentos. Para piorar, a região das minas tinha solo estéril e produzia muito pouco. 

Das primeiras levas de paulistas muitos morreram pelo caminho, outros em disputas na divisão da riqueza encontrada, e vários foram achados, em seu caminho de volta para casa, mortos de fome com a guaiaca cheia de ouro. Os bem-sucedidos faziam circular mais a notícia do eldorado e a concorrência de pessoas em direção às minas crescia numa progressão geométrica sem fim.

Os habitantes do nordeste urgiam para as minas utilizando o “Caminho dos Currais”, costeando o rio São Francisco, onde havia muitas fazendas de gado, até chegar ao rio da Velhas, seguindo através deste até a região das minas. Atrás destes vieram os reinóis (portugueses) e europeus de várias nações, todos juntos eram chamados pelos paulistas de Emboabas  (nome de uma ave com penas nas pernas, termo jocoso aludindo às botas altas europeias). Rapidamente a região das minas iria se tornar a mais povoada de todo o país.

Fixado o ponto das maiores jazidas de ouro na área da Serra do Espinhaço, entre a bacia do Rio Grande e as cabeceiras do rio Jequitinhonha, o caminho de escoamento estreitava-se em uma linha bastante direta até o mar, por isto o porto de Paraty tornou-se tão importante. Daí o ouro seguia de navio para o Rio de Janeiro, sede do Governo Geral, e depois para Portugal. Assim que a amplitude das descobertas foi confirmada, a coroa portuguesa começou a aparecer mais efetivamente para controlar a situação e cobrar impostos. 

Com tanta gente vindo de tantos lugares, o controle ficava difícil e pela primeira vez falou-se em estradas oficiais. Em 1.702, uma carta régia proibiu a abertura de novos caminhos pela floresta e obrigou que todo o comércio e o ouro fosse transportado exclusivamente por um caminho pré-determinado, que era aquele caminho feito pelos índios e depois utilizado pelos paulistas nas Entradas e Bandeiras. A priori era conhecido com “Caminho Geral do Sertão”, mas também conhecido com outros nomes dependendo de onde se perguntava. Para quem vivia no planalto e descia para o mar era chamado de Caminho do Mar. Para o povo de Paraty era o Caminho do Sertão. Para os nordestinos e portugueses era o Caminho dos Paulistas e assim por diante. Mas acabou sendo mais conhecido como “Caminho Velho”, em contraposição a um novo caminho encomendado a Garcia Rodrigues Paes em 1.699, que seguia por terra de forma praticamente direta do Rio de Janeiro até Ouro Preto, atravessando a Serra dos Órgãos.   

O caminho que seguia para as minas passando por Mogi foi praticamente abandonado e o Caminho dos Currais passou a ser usado somente para abastecer as minas de animais de trabalho, carne e couro. Em um segundo momento os paulistas desenharam outro caminho entre Sorocaba e Viamão, no Rio Grande do Sul, para buscar estes mesmos produtos. Juntando estes caminhos com muitos outros, como o caminho das Missões, o Caminho para Goiás, pré-existentes ou que iriam se consolidar, todas as rotas importantes tornavam-se oficiais e, portanto, chamadas de Estradas Reais.

Ela é Real porque todas as posses, afinal, eram feitas em nome do rei de Portugal e a coroa portuguesa não parou de aumentar sua influência no Brasil até a independência do nosso país. 

Estrada Real era, então, uma estrada oficial, em contraposição à estrada que ia da fazenda do Sr. Manoel até a do Sr. Joaquim, que não era Estrada Real, mesmo que um dia D. Pedro I tenha passado por ela. 

Incontáveis são as pessoas que vêm dizer a seguinte frase: “aqui também é Estrada Real, pois é por aqui que passavam com o contrabando de ouro.” Penso que esta é a frase mais confusa que costumo ouvir. Se a Estrada Real é uma estrada oficial, como um descaminho, caminho utilizado para o contrabando, pode ser igualmente oficial?

Apesar de dar forte impressão, a expressão “Estrada Real”, tecnicamente, é tão genérica como falar “esta estrada é uma BR”. Todos sabem que é uma estrada importante por ser federal, mas não dá nem para saber em que estado fica. Quando se fala “esta estrada é a Dutra”, pelo menos já temos uma ideia de por onde passa. 

As Estradas Reais por todo o país foram tomando naturalmente outros nomes até o fim da monarquia, quando a própria realeza perdeu a posição. Entretanto, o estado de Minas Gerais, como fiel depositário de nossa história, manteve, principalmente no Caminho Velho, a alcunha de Estrada Real, apesar dos novos números e nomes adotados para as rodovias. Deste fato provavelmente advém a crença de muitos de que a Estrada Real é algo exclusivo de Minas Gerais. Ou pior, já ouvi a seguinte frase: “O Caminho do Ouro não tem nada a ver com a Estrada Real”.  

É neste ponto dos acontecimentos que desejo congelar a história e proponho um circuito de bicicleta pelo Caminho Velho, o primeiro e mais antigo caminho utilizado pelos primeiros exploradores de nossa terra, e que após a descoberta de ouro ganhou destinos precisos: Paraty e Ouro Preto.

Quando pensamos em seguir um caminho histórico como este devemos primeiramente ter a exata noção da época em que pretendemos fazê-lo, afinal o caminho é vivo e se movimenta por vários fatores. Mudança do leito do rio, estação de chuva e ou seca, mudança de interesse econômico da região e tantas outras variantes faziam os viajantes tomar esta ou aquela direção.

Quando falamos simplesmente que a Estrada Real passava por aqui já estamos cometendo um grande erro. Mesmo que a Discovery Channel resolva convidar todos os grandes cientistas do mundo para descobrir o verdadeiro trajeto da Estrada Real, só poderiam chegar à seguinte conclusão: a Estrada Real passava por aqui durante tal período. Deste fato deriva uma das confusões mais frequentes e grandes brigas em relação ao trajeto da estrada ser aqui ou a alguns quilômetros para o leste ou alguns para o oeste.

Em nosso guia tentamos perseguir dados referentes a tudo que nos remeta ao ciclo do ouro que, a rigor, perdurou por cerca de um século. Veja que a Inconfidência Mineira em 1.789 já é um sinal dos resultados do esvaziamento das jazidas. A importância do Caminho Velho no ciclo do ouro é ainda mais sutil, pois havia grande interesse da coroa em retirar a circulação do ouro por este caminho. Além de ser mais longo, ele expunha a riqueza ao descaminho e ao saque dos piratas, que costumavam ficar escondidos nas centenas de ilhas da região de Angra, para tomar de assalto os navios que seguiam de Paraty para o Rio de Janeiro.

A encomenda do Caminho Novo foi feita em 1.699. Uma picada já estava pronta em 1.700 e em 1.707 foi liberado o tráfego, apesar de ser considerado mais duro que o já batido Caminho Velho. De toda forma, em 1.711, a expedição do Governador de Minas, Antonio de Albuquerque Coelho, conseguiu fazer o caminho de Ouro Preto até o Rio de Janeiro em 17 dias para auxiliar a sede do governo geral contra o ataque do corsário francês René Duguay-Trouin.

Praticamente não sobraram evidências do caminho que em geral era feito a pé pela mata. Ao contrário do que muitos pensam ao ver o calçamento de pedra em Diamantina ou nas proximidades de Paraty, a Estrada Real não era feita de pedra como as estradas romanas, em sua maioria absoluta era só um caminho no mato. Em poucos locais colocou-se calçamento, mas isto só ocorreu bem depois da primeira corrida para as minas, afinal ninguém iria parar para fazer uma estrada de pedras numa época daquelas. A verdade é que houve deserções em massa de militares e funcionários públicos, padres europeus, escravos fugidos, todos iam tentar a sorte nas minas. Surgiram leis para tentar diminuir a população das minas, proibindo a permanência dos padres que não tivessem ordem no Brasil, assim como os mascates, os que não tivessem trabalho (referindo-se aos vagabundos) e também os ourives (estes poderiam ser facilitadores para a produção de cunhagens reais falsas). 

Em outras palavras, quem estava na região das minas deveria estar trabalhando na cata de ouro, afinal, como a coroa iria receber o seu quinto? Além do que, era uma boca a mais para comer em uma região que não produzia alimento algum. 

Antonil nos relata de uma forma precisa a relação entre a hiper-produção aurífera e custo dos alimentos básicos. Por exemplo, um frango custava de três a quatro oitavas de ouro, ou seja, cerca de R$ 895,00 nos dias de hoje. 

A imagem que vem em minha mente é a do garimpo de Serra Pelada, com as devidas adaptações, não tecnológicas, pois quase 300 anos depois do ciclo do ouro, usaram-se os mesmos instrumentos. As primeiras pesquisas me levaram à conclusão de que mesmo que entrasse em uma máquina do tempo com um GPS na mão e pegasse todo o track log do Caminho Velho, seria impossível fazê-lo de bicicleta nos dias de hoje.

Nosso país era pura floresta virgem a esta época, por isso os caminhos dos índios e dos exploradores seguiam pela crista dos morros onde a floresta era menos densa. Isto ajudava a orientação, prevenia a aproximação de hostilidades e, em caso de ataque, o ponto alto é sempre mais estratégico.

Só após séculos de exploração e desmatamento é que os vales passaram a ser o melhor caminho (menos íngreme). De toda a forma o caminho mais curto era geralmente o melhor, ainda mais em um país sem propriedades cercadas. Os viajantes da época só davam voltas quando tinham que cruzar grandes montanhas como a Mantiqueira. Eles preferiam caminhar um pouco mais para atravessar por uma passagem mais baixa como a Garganta do Embaú.

Mais que os morros, o que fazia o viajante dar voltas eram os mangues, somente com os aterros das rodovias modernas estas regiões planas puderam ser utilizadas largamente. Áreas alagadas poderiam mudar radicalmente o circuito do caminho durante as chuvas. Estes detalhes nos levaram a crer que existiam várias Estradas Reais e que é impossível saber onde era a Estrada Real. Mesmo assim não paramos de pesquisar o assunto.

Conforme comenta o historiador Augusto de Lima Júnior, a maior parte dos comentários feitos por historiadores sobre os caminhos antigos de Minas são baseados em duas obras:

- “Cultura e Opulência do Brasil” de André João Antonil, notável jesuíta que acompanhou o então governador do Rio de Janeiro, Artur de Sá, em sua correição nos primeiros anos do século XVIII. Esta obra foi regularmente publicada em Portugal no ano de 1.711, sendo recolhida e destruída quase que imediatamente, já que ao revelar o caminho para as minas de ouro quebrava um segredo de estado.

- “Itinerário Geográfico” de Francisco Tavares de Brito. Esta obra é ainda mais interessante, pois foi editada em 1.732, tempo em que os caminhos já estavam melhor definidos, por isto é mais precisa e possui mais detalhes. Trata-se de um folheto sem Licença Régia ou do Santo Ofício, publicado clandestinamente em Sevilha. Era destinado aos Cristãos Novos que desejassem fugir da Inquisição e das purificações dos frades pregadores.

É perfeitamente justificável a escassez de detalhes sobre o caminho na época, entretanto, hoje tais livros podem ser baixados pela internet em suas versões originais. 

De posse destes relatos e vários outros livros de história, documentos, depoimentos, folhetos, e tudo o mais, começamos nosso trabalho de mapeamento do “Antigo Caminho para as Minas Gerais dos Cataguáses”.

A princípio, os nomes das localidades não batiam com nada que reconhecesse. Pouco a pouco, após uma pesquisa de campo e de toponímia, encontrei a grande maioria dos nomes das localidades citadas, formando uma via bastante coerente e retilínea. Passamos então ao mapeamento propriamente dito. 

O desafio agora era conseguir uma rota segura, agradável, cômoda e principalmente bela para os cicloturistas do nosso século percorrerem o caminho entre as localidades citadas pelos livros antigos. Neste momento percebemos que não era necessário criar um novo caminho, reconhecemos toda a lógica e estratégia que os antigos viajantes utilizavam e que está intacta até hoje, preservada pelo abandono de um caminho que perdeu sua importância econômica através das várias fases de exploração.

Como é característico de uma viagem em bicicleta, vemos um pouco de tudo. De asfalto plano e lisinho a duras subidas em terrenos adversos, grandes e movimentadas cidades e pequenas localidades esquecidas no tempo. Toda a beleza dos contrastes de um país continental com diversos tipos de vegetação e serras homéricas. Reconhecemos nossas riquezas naturais, nossa história, chegando perto, como nunca, de um povo maravilhoso que vive neste país chamado Brasil. 

O cicloturista tem a oportunidade de enfrentar os mesmos obstáculos dos primeiros desbravadores, pois as montanhas ainda estão lá e representam o que há de mais original no caminho, nunca mudaram desde o descobrimento. As dificuldades do caminho costumam trazer as melhores lições. O sacrifício para vencer os obstáculos no trajeto fazem a viagem transcender o turismo convencional e a recreação pura e simples, passando para um processo introspectivo rumo a riquezas reais como o autoconhecimento e a capacidade de se superar e seguir, com liberdade, seu próprio caminho.

1 Veja-se que a palavra mameluco não é simplesmente a designação da miscigenação entre índio e branco. Ela deriva do nome de uma milícia de escravos caucasianos que protegiam os Sultões, muito conhecida entre os portugueses pela violência.
2 Para suprir os engenhos de cana com gado e equinos, colonizadores portugueses de pequeno poder aquisitivo montaram fazendas de gado ao longo das margens do rio São Francisco, por isto o caminho ficou conhecido como “Caminho dos Currais”.
3 O termo pode significar forasteiro ou até invasor e era utilizado para europeus ou outros brasileiros não paulistas. 
​4 De 300 mil habitantes em 1.690, para 3.250.000 em 1.798.
5 1 oitava = 3,58 g x 4 x R$ 62,5 (cotação de 12/11/09).
6 Os clássicos e bem conhecidos trabalhos do francês Saint-Hilarie e dos alemães Martius e Spix não podem nos ajudar muito, pois estes exploradores só chegaram na região por volta de 1.817, um século depois, quando o ciclo do ouro já havia terminado.
7 Judeus que para fugirem da inquisição e das purificações se convertiam ao catolicismo, trocando inclusive seus sobrenomes. Os descendentes de portugueses com sobrenome Ferreira, Oliveira, Machado e outros nomes relativos à profissão são considerados descendentes deste Cristãos Novos. 
8 Estudo da origem etimológica dos topônimos (nome próprio dos lugares).

 

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