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No meio da ciclovia tinha um sovaco

Revista Bicicleta por André Geraldo Soares
37.730 visualizações
28/01/2016
No meio da ciclovia tinha um sovaco
Foto: Monkeybusiness / Depositphotos

Quem diz que “a bicicleta não é uma boa porque não dá para chegar suado no trabalho” não está apenas expondo uma condição pessoal, mas está demonstrando que pensa a política a partir dos seus interesses particulares. Tudo bem que o cidadão tenha um tipo de ocupação profissional que requeira uma apresentação mais produzida, mas essa particularidade não pode determinar as políticas públicas de mobilidade.

Quem se opõe a investimentos cicloviários porque seu chefe não gosta de empregados provisoriamente umedecidos esquece que a maior parte das profissões que move uma cidade é exercida muscularmente. Pedreiros, mecânicos e faxineiras, para quem a economia de renda propiciada pela bicicleta é muito benéfica, fazem mais força física executando suas tarefas laborais do que pedalando. E o jovem estudante: ele não pode dispor de uma segura ciclovia para ir até a casa do colega para fazer a tarefa escolar, ou até o campinho de futebol, por que alguns viventes são acometidos de ojeriza ao humor aquoso?

É frequente que as limitações pessoais de mobilidade sejam postas como óbices a projetos de alcance social. As grandes dimensões de determinadas cidades também são frequentemente levantadas como problemáticas ou impeditivas para a bicicleta. Mas todo mundo faz viagens diárias de mais de 6 km? Não existe ninguém nesse mundo que mora e trabalha dentro do mesmo bairro? E mesmo aqueles que precisam realizar deslocamentos longos não podem dar qualquer desculpa para se manterem aferrados às suas latas motorizadas, pois já faz tempo que foi inventada a integração intermodal.

O relevo é outro alegado impossibilitador. “Essa morreba? Nem pensar!”. Entretanto, outras partes da cidade que são planas podem se beneficiar de ciclovias, não? E o que devemos dizer para a boa parcela dos ciclistas atuais, e possivelmente dos potenciais, que não se incomodam com aclives? Ora, convenhamos, um bom bicicletário no pé do morro pode guardar a bicicleta para seu proprietário subir, dali, a pé até sua casa. E, para quem não sabe, cada vez mais cidades já contam, no plano, com várias estações de bicicletas de aluguel.

O fato é que se dermos vazão a todos que não encontram problemas para pedalar, atingiremos um enorme contingente. Filtrando bem, são poucas as pessoas para quem a bicicleta não serve nunca. Para a maior parte dos indivíduos, sejam eles frequentemente motoristas, pedestres ou passageiros, em alguma ocasião da suas vidas (em algum momento de um ou outro dia, em algum dia de um ou outro mês), a bicicleta cabe, e bem.

“Tá, tudo bem, é possível sim, mas a rua é tão perigosa, moço, que eu não tenho coragem!”. É claro, todos nós vemos que os riscos são inúmeros, que as ruas são vergonhosamente perigosas, mas estas condições não são naturais e imutáveis: foram criadas pelo ser humano e, por isso, são perfeitamente modificáveis. Já deu tempo para todo mundo perceber que se ninguém reclamar, a situação não muda nunca. Portanto, não vem que não tem, este argumento, como os outros, revela mesmo é falta de vontade.

Praticamente todas as dificuldades para usar a bicicleta podem ser extirpadas ou, pelo menos, amenizadas. O poder público, em todas as unidades da federação, incluindo a própria federação, sabe disso, mas não encaminha soluções porque não é demandado – ou melhor, porque a demanda é insuficiente e débil para desmontar a estrutura estatal de servilismo à automovelcracia.

Ninguém, aqui nestas linhas, é insensível a ponto de forçar alguém a fazer o que não pode – e, mesmo com limites, a fazer o que não quer. Mas o que não dá para aceitar é que a proposta ciclística seja rechaçada, já em primeira instância, com argumentos individuais. O que não é bom para si não significa ser ruim para todos.

A bicicleta faz bem para as pessoas, para a cidade, para o planeta. Portanto, quem não pode usá-la deveria esforçar-se pelo seu alastramento, ou no mínimo torcer por que os outros possam fazê-lo. Se alguém é contra a bicicleta porque ela não atende às suas expectativas, ou porque ela atenta contra seus privilégios, para este alguém, o mundo gira em torno do seu sovaco. 

 

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