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Na rota de Napoleão

Uma rota histórica percorrida pelo imperador Napoleão, em 1.815, em seu retorno do exílio na Ilha de Elba.

Revista Bicicleta por Paulo de Tarso e Renata Falzoni
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03/12/2012
Na rota de Napoleão
Foto: Paulo de Tarso e Renata Falzoni

Napoleão Bonaparte, que havia se exilado na Ilha de Elba, em 1.814, decidiu voltar para o primeiro plano da vida política francesa. Um ano depois, em 01º de março, ele desembarcou em Golfe-Juan, por volta das 17 h, e partiu acompanhado por cerca de 1.200 seguidores, com o objetivo de recuperar seu título e seu lugar à frente da política.

Em seu desembarque, ele realizou a famosa proclamação a seus soldados: “a águia, com as cores nacionais, voará de campanário em campanário até as torres de Notre-Dame”. Ele precisava chegar a Paris o mais rápido possível para evitar combater as tropas reais. Por isso, decidiu ir pelo interior. Assim foi criada a Rota de Napoleão, que vai de Golfe-Juan até Grenoble, via Grasse, Digne e Gap. Ele percorreu 324 km em seis dias. Era o começo do Governo de Cem Dias, que terminou após sua derrota na Batalha de Waterloo.

Em julho de 1.932, foi inaugurada a estrada turística “Route de Napoleão”, RN-85, que leva da Riviera francesa para o sul do Pré-Alpes . Ela é sinalizada ao longo do caminho por estátuas e placas simbolizando a águia voando e tem sido percorrida por milhões de turistas.

Paulo de Tarso (Sampa Bikers) e Renata Falzoni (ESPN Brasil) percorreram de bicicleta essa rota, em meio a paisagens excepcionais de muita história e de muitas subidas! Foram meses de planejamento e pesquisa, com a valiosa ajuda das secretarias de turismo das cidades ao longo do caminho. Acompanhe o relato dessa incrível e histórica viagem.

A Cicloviagem

Enquanto Napoleão seguiu pelo interior para evitar o combate das tropas reais, nós fizemos algo semelhante, só que estávamos fugindo dos carros, mesmo sabendo que estes respeitam bastante os ciclistas naquela região. Com isso, grande parte de nosso trajeto foi por estradinhas secundárias paralelas à RN-85, que é considerada a rota original. Percorremos um trajeto maior e pegamos mais subidas que Napoleão, pois o caminho principal sempre segue por um vale.

Chegamos na França, via Nice. No próprio aeroporto pegamos um ônibus até a cidade de Cannes, distante cerca de uma hora. Cannes, com suas raízes provençais, nos recebeu calorosamente. É uma cidade maravilhosa, que oferece um casamento harmonioso de praias e montanhas com florestas, vegetação exuberante, tufos de flores com cores brilhantes entre o mar e o céu azul, e um clima ameno. O Festival Internacional de Cinema, La Croisette, as suas boutiques de luxo, seus palácios, a parte antiga da cidade de Le Suquet e o antigo porto têm contribuído muito para o seu desenvolvimento.

No dia seguinte, seguimos pedalando até Golfe-Juan, ponto inicial da nossa cicloviagem e onde tudo começou. Ali passamos a noite e conhecemos um pouco mais da histórica passagem de Napoleão. Pela manhã, nosso ponto de partida foi a baía de Golfe-Juan, que era um ancoradouro natural com cabanas de pescadores e alguns galpões onde os comerciantes de cerâmica faziam suas vendas.

A partir de 01º de março de 1.815, após o desembarque de Napoleão, Golfe-Juan passou a fazer parte da história. Desde então, a vila de pescadores humildes se tornou, ao longo dos séculos, um resort à beira-mar. Com seus dois portos de pesca e marinas, Golfe-Juan oferece muitas atividades aquáticas, inclusive mergulhos.

Na primeira parte da nossa pedalada, percorremos cerca de 40 km. Seguimos 4 km morro acima até a cidade de Vallauris para visitar o Museu de Picasso. Ele morou na cidade e conseguimos ver de perto uma de suas obras brilhantes, e o melhor, sem o tumulto peculiar dos grandes museus mundo afora. As ruas de Vallauris são convidativas a uma caminhada. Sua tradição cerâmica é antiga. Em 1.392, a peste negra dizimou a população; a cidade foi destruída e ficou deserta. No início do século XVI, Rainier Lascaris, antes de Lerins, trouxe 70 famílias genovesas, incluindo oleiros, para repovoar a cidade. A vila foi reconstruída em um plano de grid, que permanece intacto até hoje.

Após a visita, descemos pelo mesmo caminho e seguimos rumo a Cannes, voltando à Rota de Napoleão. Visitamos o local onde ele chegou e acampou perto da Notre-Dame-du-Bon-Voyage, na Rue des Belges. Ali, ele conheceu o Príncipe de Mônaco e pediu para participar de sua épica jornada. O príncipe respondeu negativamente, dizendo que iria para casa. Napoleão disse que era o mesmo para ele.

Ele seguiu na direção de Grasse Le Cannet. Agora, em outros tempos, seguimos também para a mesma direção, atravessando a movimentada cidade de Cannes e subindo muito até chegar à mundialmente famosa Grasse, que tem uma longa tradição em perfume. A cidade é belíssima e oferece aos visitantes uma arquitetura medieval. A maioria dos principais perfumes, como o famoso Chanel Nº 5, é desenvolvido e produzido em Grasse.

Em sua passagem, Napoleão ignorou a cidade. Ele chegou às 5 h e ficou surpreso ao ver a receptividade do povo. Apesar do horário, todos pagaram tributos ao imperador, com violetas para Napoleão e vinho para os soldados. Ao contrário de Napoleão, nós mudamos os planos após nos encantarmos com a cidade, e passamos a noite lá.

Nossa segunda jornada foi rumo à cidade de Castellane. Muita subida nos 70 km até lá, sem contar o forte calor. Durante todo o trajeto, monumentos e comércios invocam a passagem de Napoleão. Isso fica evidente na passagem em St-Valler de Thiey, onde o principal hotel da pequena cidade exibe uma grande pintura do antigo imperador. Chegamos em Castellane pela mesma rota percorrida por Napoleão, através da periferia Saint Martin até a praça principal.

Sua passagem pela cidade foi tranquila. Napoleão almoçou com o vice-prefeito, Francoul, que era seu amigo, e em agradecimento à sua devoção, Napoleão prometeu uma nomeação. Situada nos Alpes de Haute-Provence, Castellane tem um clima excepcional, uma temperatura agradável em todas as estações e é a essência de uma aldeia provençal. No verão, as noites são refrescantes. A natureza ainda é selvagem, protegida por autoridades. Um local que deixa saudades.

Nosso objetivo na próxima etapa era chegar até Barrême, onde Napoleão passou a noite do dia 03 de março de 1.815. Seguindo a orientação de amigos que fizemos em Castellane, pedalamos por um belo caminho paralelo ao original, às margens de uma grande represa e mais uma vez mudamos os planos após passarmos na bela cidade de Saint Andrés. Pedalamos apenas 23 km e não resistimos à beleza do local. Passamos a noite na cidade em um tipo de hospedagem muito comum na França, os chamados “Gites de France”: pessoas da cidade hospedam visitantes em suas próprias casas.

No dia seguinte, pedalamos 50 km rumo à Digne-les- Bains. Visitamos Barrême e seguimos por uma estradinha sensacional à direita, atravessando uma enorme montanha ao longo dos picos alpinos, o Col do Corobi, a 1.221 metros de altitude.

Enquanto enchíamos nossas caramanholas com água, em frente a uma antiga construção aonde ainda funciona um restaurante e uma pousada, descobrimos que estávamos novamente na rota original de Napoleão, e ali parece ter acontecido algo muito interessante. Diz a lenda que o fazendeiro cobrou-lhe 20 francos por dois ovos cozidos. “Os ovos são muito raros por aqui?”, pediu Napoleão. “Ovos não, mas os imperadores, sim!”, respondeu o fazendeiro.

Como Napoleão, descemos até Digne-les-Bains, e por coincidência fizemos o mesmo que ele: uma pequena pausa antes do Spa onde ficamos confortavelmente hospedados, a convite do departamento de turismo local. Napoleão seguiu para Sisteron, deixando Digne por volta das 15 h. Sua intenção era chegar antes das forças reais para evitar uma emboscada. Digne é a capital da lavanda no coração de Provence. Famosa por sua qualidade de vida, milhares de pessoas visitam a cidade para banhos em suas águas termais.

Seguimos 73 km até chegar em Sisteron, aonde Napoleão almoçou no dia 05 de março de 1.815. Foi a mais longa e difícil jornada. Pela altimetria do trajeto turístico da rota original, na RN-85, seria o dia mais plano da viagem, mas seguindo a dica dos responsáveis pelo turismo local, seguimos pela Rota das Lavandas, um caminho belíssimo e de muitas, mas muitas subidas, as maiores de toda a viagem. Atravessamos duas montanhas: Col d'Hysope, a 1.236 metros, e Col de Fontbelle, a 1.304 metros. Uma escultura em um dos pontos principais da cidade marca o início do Tour de France 2010.

Em nossa sexta etapa, pedalamos 69 km até Gap. Napoleão e suas tropas tiveram uma entrada triunfal no domingo, 05 de março, às 21 h, em meio a aplausos de um povo entusiasmado. Uma bela estátua com o símbolo da águia marca sua passagem.

A cidade é outra maravilha da França, com suas fachadas e paisagem montanhosa, combina tradição e modernidade com uma qualidade de vida excelente e muito espaço para as bicicletas. No dia seguinte, partimos debaixo de chuva fina e frio, após vários dias de calor e sol forte. Já na região dos Alpes, fizemos o mesmo trajeto percorrido por Napoleão no dia 06 de março, rumo a Corps.

Enquanto Napoleão atravessou o Col Bayard na neve, nós atravessamos sob muita chuva. A pequenina cidade fica bem na fronteira de Isere e Hautes-Alpes, na porta de entrada do Parque Nacional Ecrins, em meio a lagos e montanhas. A cidade é famosa também por ter uma maravilhosa gastronomia.

No oitavo dia de pedal, percorremos 51 km pelo mesmo caminho que Napoleão cruzou no dia 07 de março de 1.815, rumo a Laffrey. Antes de seguir, visitamos o local onde Napoleão passou a noite, ainda na cidade de Corps. Quando saímos, os termômetros marcavam 3 °C, e os primeiros 7 km eram uma longa descida que queimava nossos dedos devido ao frio intenso.

Como Napoleão, subimos e descemos muito. Atravessamos a cidade de La Mure, pedalamos ao lado dos lagos Pierre Chatel e Petitchet, até chegar a Laffrey. Ali, às margens do lago de Laffrey, o exército de Napoleão e as tropas reais de Luís XVIII ficaram cara a cara. Napoleão encarou toda a tropa sozinho, desmontou de seu cavalo, e quando encontrou-se sob a linha de fogo, gritou: “aqui estou! Matem seu imperador, se assim o quiserem!”. Os soldados responderam com “Vive L'Empereur!”.

Os soldados romperam as fileiras e se juntaram às tropas de Napoleão, seguindo por Vizille rumo a Grenoble, onde são aclamados pelo povo. Vizille também foi nosso destino, pois em Laffrey tivemos uma surpresa: o hotel marcado para nós estava fechado. Localizada no coração de três enormes vales montanhosos, Vizille é ponto de prática de esportes náuticos, gelo e neve, passeios, caminhadas, golfe, pesca e bike. Muitas rotas sinalizadas e pinturas de incentivo nos fazem lembrar que o Tour de France já passou por ali.

Antes de partirmos para nossa última etapa, fizemos uma visita ao Castelo de Vizille, onde fica o Museu da Revolução Francesa, e depois seguimos para Grenoble. Ali, no dia 07 de março de 1.815, por volta das 21 h, Napoleão e suas tropas chegaram e encontraram a La Porte de Bonne (Portão do Bem) fechada. Mas os soldados que faziam a segurança eram a favor do imperador e em duas horas o cerco acabou e eles entraram na cidade. O povo republicano de Grenoble cantou: “Bon! Bon! Napoléon va entrer dans sa maison!”

Napoleão foi levado para o Hotel des Trois Dauphins (atualmente, Albergue Napoleão), na Rua Montorge. “Até Grenoble, eu era um aventureiro. Em Grenoble, eu era um príncipe”, falou o imperador.

Grenoble é belíssima. Leva o status de capital dos Alpes. Localizada a 214 metros de altitude e cercada por montanhas com mais de 2.000 metros, a cidade oferece muitas atrações turísticas, tanto no inverno como no verão. A região é um paraíso para pedalar, com muitas trilhas e rotas para bike. Este ano, a cidade foi palco da penúltima etapa de contrarrelógio do Tour de France, que definiu Cadel Evans como campeão.

Napoleão marchou até Paris, aonde chegou no dia 20 de março. Luís XVIII fugiu e, assim, Napoleão reconquistou o poder. Iniciou-se, então, o Governo dos Cem Dias. A Europa coligada retomou sua luta contra o Exército Francês. Napoleão entrou na Bélgica em junho de 1.815, mas foi derrotado por uma coligação anglo- prussiana na Batalha de Waterloo e abdicou pela segunda vez, pondo fim ao Império Napoleônico.

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