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+bicicleta - Ideias - Superação

Meu nome é Superação!

Pela etimologia, por superação é possível compreender “ação superior, ação de superar a si mesmo e às adversidades”. Mas, por trás da ação existe sempre uma postura positiva diante da vida e um outro sentido para a palavra desistir: deixar de existir. São histórias de luta e fé, e porque não dizer, de exemplo. Um dos compromissos de nossa revista é trazer ao conhecimento a trajetória de vida de ciclistas que, mais do que imaginamos, não desistiram de ir além do possível. Então, vamos engrossar o coro e gritar bem forte: Vai, Jéssica, nós estamos com você! Não desista jamais!

Revista Bicicleta por Therbio Felipe entrevista Jéssica Moreira Ferreira
9.047 visualizações
13/03/2016
Meu nome é Superação!
Foto: Arquivo Pessoal

Therbio - Ela é Jéssica Moreira Ferreira, 28 anos, nascida e residente em Jaboticabal - SP, município distante 370 km da capital e atualmente com menos de 80 mil habitantes. Formada em Administração de Empresas, Recursos Humanos, fez MBA em Gestão Estratégica de Pessoas.

Perguntamos como era a Jéssica antes do acidente, em termos de como levava sua vida, como encarava os desafios. Jéssica diz que era extremamente focada nas questões acadêmicas e profissionais. Infelizmente, valorizava muito essas questões e não se relacionava bem com seus familiares, não fornecia a atenção necessária para seus amigos e pessoas que estavam ao seu redor. Estava sempre ligada e focada nas questões da empresa onde trabalhava, o trabalho e o crescimento profissional vinham em primeiro lugar e ficavam acima de tudo e todos. Ela comenta ainda: “sempre fui uma pessoa otimista e sempre amei desafios, nunca tive perfil de lamentação e sim de correr atrás da solução de cada problema que vivia”.

Sabemos que contar sobre um acidente tão grave é trazer à tona as dores psicológicas do ocorrido. Mas Jéssica, com simplicidade, favorece a compreensão de como foi o acidente que sofreu há dois anos, em 6 de novembro de 2013, e os danos físicos que sofreu.

Jéssica - “Fui desviar de um carro que entrou na minha via, meu carro capotou três vezes, fiquei presa nas ferragens e ao chegar no hospital recebi a notícia da paraplegia (uma lesão medular que me fez perder os movimentos da cintura para baixo). Desde o início, quando os bombeiros cortavam as ferragens e falavam comigo para não desmaiar de dor devido minha coluna ter tido uma fratura exposta, eu já sentia que algo errado havia ocorrido com minhas pernas. Não sabia exatamente o que era. Havia fraturado a coluna ao nível torácico e minha medula foi esmagada. O médico foi claro no diagnóstico: paraplegia definitiva. Ou seja, não andaria mais, viveria meus dias sobre uma cadeira de rodas. No momento que soube, chorei muito. Durante o choro lembrei da Jéssica que eu era, aquela que não lamentava as dificuldades. Então, parei de chorar, enxuguei as lágrimas e mergulhei nas pesquisas em meu celular. Eu dormia e acordava com o celular na mão, pesquisava tudo sobre lesão medular, entrei em contato com vários cadeirantes, li muitos artigos científicos, fui a vários médicos e foquei somente na melhora, foco este que mantenho até hoje”.

Therbio - Como vem sendo a recuperação? Que atividades você tem feito que resultaram em alguns avanços significativos em sua rotina?

Jéssica - “A recuperação é muito lenta, eu perdi o tronco e consegui recuperar 80% dele, consegui controlar intestino e bexiga, aprendi a fazer tudo sozinha, como dirigir, sair e ir aos lugares sozinha, cuidar das minhas coisas, enfim, retomei as rédeas da minha vida. Atualmente eu faço natação, fisioterapia, musculação e pedalo muito, praticamente todos os dias, pois pedalar se tornou essencial para minha vida, meu físico, meu psicológico e agora, como fruto dos treinos, me tornei competitiva.

Therbio - Brevemente, se possível, gostaríamos de saber como seu companheiro, Prof. Zé Carlinhos, tem influenciado positivamente em sua recuperação e em seu estímulo?

Jéssica - “Ele é meu norte. Pensei em desistir várias vezes e ele não permitiu. Começamos a namorar após o acidente. Ele veio como uma força extra para os dias de turbulência, pois eu não sabia, mas os cadeirantes passam por muitos”.

“Zé Carlinhos está sempre ao meu lado, me levanta diante de todos esses pontos que citei e outros tantos que são ainda maiores. Ele é uma força extra que faz com que eu emita um sorriso todos os dias ao acordar e na nossa relação encontro motivos para buscar a melhoria continua, espiritual, física e emocionalmente. No início eu duvidava, não acreditava que um garoto como ele (Zé é Profissional de Educação Física, Personal e Fisiculturista) pudesse amar e se sentir atraído por uma garota sobre uma cadeira de rodas, mas confesso que nunca fui tão amada, respeitada, cortejada, cuidada, apreciada e feliz como sou com ele. Descobri o verdadeiro amor após a paraplegia”.

Therbio - Jéssica, como foi escolher participar de uma competição de paraciclismo usando uma handbike? Qual seria o tamanho ideal para você? Teça os comentários a respeito das pessoas que lhe ajudam emprestando a handbike, enfim, aqueles personagens que fazem sua vida melhor.

Jéssica - “A princípio relutei muito em iniciar no esporte adaptado, pois ficava com medo de atrapalhar a fisioterapia. Foi a equipe de educadores físicos do Lucy Montouro, em São Paulo, que me convenceu que seria um bom caminho para me encontrar e voltar a encarar novos desafios, dessa vez como atleta. Após algumas pesquisas, através de uma cadeirante, cheguei até a equipe do Dênis, técnico da Associação Paradesportiva Paulistana - AFA Pirassununga. Ele foi a primeira pessoa que fez com que eu acreditasse no meu potencial. Ele é ex-militar, então, a princípio já me identifiquei com a questão de disciplina, trabalho em equipe e superação. Meus pais ficaram assustados no primeiro treino, com o rigor e disciplina com a qual ele travava a equipe e não queriam que eu voltasse aos treinos. Porém, foram esses fatores que fizeram com que eu retornasse e continuasse firme nos treinos. Foi o Dênis também que me emprestou a primeira handbike para treinar e competir. Depois, devido às questões financeiras para custear o deslocamento, eu comecei a pedalar na minha cidade e encontrei uma galera do pedal que me ensinou muito em relação à vida sobre rodas. Eles me ajudaram a trocar a bike e me ajudam até hoje durante os treinos. No momento, busco parcerias com empresários para ficar ainda mais competitiva e poder competir fora do país”.

Therbio - Que resultados você tem obtido nas competições usando a handbike?

Jéssica - “Na primeira competição, fiquei surpresa, pedalei com uma handbike de ferro, contra algumas de alumínio e mesmo com uma handbike bem inferior obtive a segunda colocação, perdendo apenas para a atleta olímpica que hoje é a melhor do Brasil e nos representa fora do país. Foi emocionante, uma sensação indescritível de missão cumprida e uma impulsão para novos desafios dentro do Paraciclismo”.

Therbio - Jéssica, quais são seus planos para o futuro? Há competições a caminho?

Jéssica - “Meus planos são competir fora do país, representar nosso Brasil, competir a próxima paraolimpíadas de 2020. Com disciplina e treinamento acredito que chegarei lá. O objetivo agora é buscar patrocinadores e parceiros, pois esse esporte possui um custo alto para termos bons rendimentos”.

Therbio - Que mensagem final você gostaria de deixar para as pessoas que estão passando por desafios importantes?

Jéssica - “Primeiramente, é preciso focar que tudo na vida tem seu lado positivo, absolutamente tudo, basta termos o olhar otimista e perseverante. A morte é um descanso, doenças podem mudar e aproximar pessoas; tombos nos fazem levantar mais fortes e espertos; desencontros no amor nos fazem valorizar o verdadeiro amor quando ele nos encontra. Busque sua melhoria contínua, seja a melhor versão de você mesmo; cuide de sua saúde mental, espiritual e física e nunca deixe de acreditar no impossível. Viva cada minuto da sua vida com qualidade, pois o tempo passa para todos nós e colheremos os frutos de tudo que plantarmos nessa viagem que se chama vida”.

Obs Enquanto esta matéria era escrita, Jéssica Moreira Ferreira se tornou a segunda melhor atleta em sua categoria H3 no Brasil, chegando em segundo lugar na Terceira Etapa da Copa Brasil de Paraciclismo, em Aracaju-SE, levando para casa além de tudo, duas medalhas de prata, em 27/09/2015. 

Ilustramos em um quadro, apenas para ser breve, uma ligeira ideia do que é passar por aquilo que Jéssica - e tantos outros cadeirantes - passa:

“Quando eu caio por algum motivo, sofro preconceito; 
Quando não é possível controlar a bexiga e tenho perdas urinárias; 
Quando vamos em um lugar que não possui acessibilidade; 
Quando me sinto feia; 
Quando rejeito as anomalias do meu corpo; 
Quando me assusto do quanto minhas pernas estão afinando a cada dia que passa;
Quando me machuco e só vejo o sangue sair e não sinto dor;
Quando escuto comentários de penalização ao meu respeito;
Quando vamos ao shopping e eu fico triste por não poder usar salto como as mulheres que vejo;
Quando não podemos andar juntos de mãos dadas;
Quando infelizmente, o fato de ainda ser rejeitada pela família dele, devido minha deficiência física”.

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