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Manutenção na viagem

A bicicleta que utilizei na volta ao mundo rodou quase 50 mil quilômetros. Não posso deixar de imaginar que, se fosse para comprar um automóvel com essa quilometragem, teria que dar uma boa olhada antes de fechar o negócio. Motor, câmbio, embreagem, suspensão, bateria, lataria, portas... Tantos detalhes ocultos que podem nos deixar na mão. As concessionárias automotivas costumam oferecer promoções de revisão de férias, com um sem número de itens para o motorista poder viajar sossegado até a praia mais próxima. Mas quais seriam os itens essenciais a se verificar na bicicleta para uma viagem? Ao contrário de um carro, uma bicicleta se mostra toda sem mistérios para quem estiver disposto a observá-la com o mínimo de atenção.

Revista Bicicleta por Antonio Olinto
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30/04/2015
Manutenção na viagem
“OlintoSan... Para ter “bom bicicleta”, deve sentir rolamentos....”
Foto: Rafaela Asprino / Antônio Olinto

Levante cada roda e impulsione-a suavemente com a mão para conferir se o freio está pegando. Basta olhar as sapatas ou pastilhas de freio para perceber seu desgaste. A corrente também está lá, exposta, e qualquer um pode perceber quando fica suja. Mesmo sem olhar, só pelo ruído, dá para saber que falta lubrificação.

Geralmente enquanto estou numa parada de descanso, aproveito para observar se tudo está de acordo, se nada está quebrado ou solto. Verifico cada parafuso, pois eles podem ir se soltando. Uma folga num parafuso pode rompê-lo ou causar a quebra de outra peça como, por exemplo, o bagageiro que se apoia nele.

Após pedalar por rodovias, sempre observo os pneus a fim de retirar pequenos cacos de vidro que se prendem à borracha e que vão penetrando aos poucos até atingir a câmara de ar.

O maior medo de quem possui um carro velho é ligar o motor e o mecânico dizer “está batendo válvula”, ou “a biela deve estar gasta”, ou ainda pior: “parece que tem um ruído no mancal do braço superior da rebimboca da parafuseta. A única saída é abrir para verificar”...

Numa bicicleta não é preciso ter ouvido de violinista para detectar problemas, pois os rolamentos são as únicas partes que podem oferecer obscuridade e/ou complexidade na observação de seu desgaste. Para evitar surpresas, teste periodicamente os rolamentos de sua bicicleta.

Cubos de pedal, cubos de roda, movimento central e caixa de direção, cada rolamento deve ser girado separadamente para saber seu estado de funcionamento. Tudo deve rodar livre e suave. Quando enrosca, pode significar sujeira ou desgaste. Se o rolamento for selado, deverá ser substituído, caso contrário poderá ser aberto, limpo e engraxado.

Os rolamentos não podem ter outro movimento além de rodar. O chamado “jogo” é uma folga causada pelo desgaste ou por falta de aperto, neste último caso, poderá gerar desgaste prematuro. Para verificar a folga no rolamento de roda, segure o aro com a mão e force de um lado para o outro como se estivesse tentando encostar o aro no garfo. No caso do rolamento de direção, é só empurrar a bicicleta para frente e para trás com o freio dianteiro acionado. A folga no movimento central é imediatamente perceptível, pois a coroa começa a jogar de um lado para o outro enquanto pedalamos e tende a encostar no passador de marchas.

Quando as esferas, as bacias ou os cônicos (componentes do rolamento) estão desgastados, aparecem pequenos buracos que impedem o aperto correto. As esferas são as mais fáceis de substituir. Durante uma viagem, nem sempre conseguimos trocar os cônicos ou as bacias, nesse caso, optamos por deixar uma pequena folga extra no rolamento para que se mantenha rodando livremente.

Limpar os rolamentos de roda é uma manutenção que costumava fazer a cada seis meses na volta ao mundo. 

Aprendi a fazer a manutenção dos cubos quando ainda era criança, mas no começo da viagem de volta ao mundo esse trabalho tomou outra dimensão, permitam-me contar essa história...

Após pedalar por um tempo nos Pireneus, segui em direção aos Alpes pelo sul da França e, no meio de uma tarde ensolarada, depois de atravessar Toulouse e Castre, passa por mim um grupo com bicicletas de estrada, como se fosse um pelotão de competição.

O último dos ciclistas era um pouco mais velho que os outros e, quando me viu, diminuiu a velocidade, deixando o grupo para puxar conversa comigo. Um pouco em inglês, um pouco em francês, consegui explicar o que estava fazendo.

Muito simpático, o francês contou que era diretor do departamento de cicloturismo do clube de ciclismo da cidade de Castre. Ao saber a minha intenção de roteiro, ele me convidou para passar a noite em sua casa, pois morava perto do caminho que eu seguiria.

Nas conversas fui percebendo que era uma pessoa realmente especial. Contou que fez uma viagem de bicicleta pelo Canadá e Estados Unidos. Nada de diferente até ele completar: “viajamos com um grupo de cegos”.

A princípio, imaginei que fosse uma questão de erro na minha interpretação, mas a mímica para expressar cegueira é muito fácil e clara de se entender. Impressionado, perguntei: “mas como um cego pode viajar de bicicleta?”

Mostrando um álbum de fotos, ele explicou que era um grupo com várias bicicletas duplas (tandem), onde havia um vidente na frente e o cego pedalava atrás. Ele comentou: “eles não podem ver as paisagens, mas podem sentir tudo de forma mais intensa que um vidente. Eles adoravam a sensação do vento no rosto e da liberdade que a bicicleta proporciona”.

Era mês de agosto e, como estávamos longe da linha do Equador, o sol mantinha-se no céu por mais tempo. Após muita conversa, meu anfitrião me perguntou: “quando foi a última vez que fez revisão nos cubos de roda?”

Não havia completado três meses de viagem e tinha pedalado menos de 5.000 km. Sem constrangimentos, expliquei que minha bicicleta era nova e que não era preciso engraxar.

Com cara de espanto ele retruca: “não se pode confiar na lubrificação de fábrica, depois de utilizar um pouco a bicicleta o correto seria revisar e reapertar. O que acha de fazermos uma verificação?”

Ele levou-me à sua “oficina” e, a seu comando, abrimos os cubos, limpamos e observamos cada esfera, os cônicos e as bacias. O trabalho foi feito com uma incrível assepsia, parecia que preparávamos uma cirurgia.

Depois de engraxar e montar tudo, fizemos o aperto das porcas que travam os cônicos contra as esferas e, quando eu já ia montando a roda na bicicleta, ele me interrompeu para mostrar algo simples, mas que demonstra o grau de cuidado com a bicicleta na cultura do país berço do Tour de France. 

Apoiando a roda com a mão esquerda ele delicadamente tocou o eixo com a ponta do polegar e do indicador direitos, fechou os olhos e girou lentamente. Depois comentou: “o rolamento deve estar bem apertado, mas não pode travar em momento algum. Fechando os olhos, poderá se concentrar e sentir o movimento das esferas. Agora faça você”.

Emocionando, percebi que estava recebendo uma lição de um sábio mestre, algo que a princípio parecia fora de propósito, mas que o tempo mostraria as vantagens. Foi como se estivesse no filme Karate Kid e o Senhor Miyagi me dissesse: “OlintoSan... Para ter “bom bicicleta”, deve sentir rolamentos... Feche olhos e sinta rolamentos... Não está bom, reajusta...  De novo... De novo... Lembrar sempre OlintoSan, tem que aprender sentir rolamentos...”

Talvez, mais do que o culto nacional à bicicleta, a convivência com os cegos na viagem tenha aberto a visão de meu amigo francês. De toda forma, passei a cuidar melhor dos rolamentos a partir daí e, com exceção de duas esferas do cubo dianteiro, terminei a volta ao mundo com os mesmos cubos que saí do Brasil.

No próximo capítulo: Manutenção da corrente em viagens – “A vingança do discípulo de Shaolin”. 

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