REVISTA BICICLETA - Japão - nas lentes e nos pedais
THE POWER OF THE PRO
Pneus Kenda

O Portal
da Bicicleta

Bicicleta Sense a partir de R$ 2.765,00!
Revista Bicicleta - Edição 68

Assine

Revista Física
Revista Virtual



+bicicleta - Cicloturismo

Japão - nas lentes e nos pedais

Revista Bicicleta por Wilton Mitsuo Miwa
35.911 visualizações
06/10/2014
Japão - nas lentes e nos pedais
Foto: Wilton Mitsuo Miwa

O Japão é um país absurdamente menor que o Brasil em área territorial, mas possui uma população não muito menor que a nossa e uma frota de veículos automotores maior que a frota brasileira. Ainda assim, garanto que no Japão o trânsito flui de forma mais ordenada e mais segura do que nos grandes centros urbanos do Brasil. Residi na grande São Paulo e já dirigi em Tokyo, sei o que estou dizendo. E se parece pouco, informo que no Japão ainda há espaço para as bicicletas. As ciclovias existem em abundância e não acredito que o Brasil possua um décimo de ciclovias que o Japão possui. Basicamente, diria que é fácil ser um cicloturista no Japão.

Além das ciclovias, o país possui uma malha viária impecável e o respeito entre motoristas, pedestres e ciclistas é exemplar. Leis regidas com rigor e pesadas multas aos infratores garantem a segurança nas estradas. Os japoneses são verdadeiros mestres na chamada “direção defensiva”. Nas escolas, desde muito cedo, crianças aprendem as regras de cidadania no trânsito. O reflexo da assimilação desse aprendizado é perceptível nas ruas de qualquer cidade japonesa. Basta ver uma criança levantando a mão para pedir passagem e motoristas, motociclistas e ciclistas, educadamente, param seus veículos. E, nem por isso, as crianças abusam desse direito de ir e vir. Também vale acrescentar que o Japão é um dos países mais seguros do mundo com uma baixa taxa de criminalidade, simplesmente invejável. E como convém numa das nações mais industrializadas e consumistas do planeta, lojas especializadas oferecem equipamentos e acessórios de excelente qualidade e específicos para a atividade cicloturística. São detalhes que, somados, fazem toda a diferença e que possibilitam aos amantes do pedal atravessar o país de um lado ao outro se lhes convier.

Nas estradas do Japão, cruzar com outros cicloturistas é algo bastante comum. Saudações e cumprimentos fazem parte dessa agradável rotina. As mulheres não passam desapercebidas nessa atividade e isso me agrada muito. Dentre algumas cicloturistas que conheci posso citar a senhorita Okada, residência fixa na província de Aichi e que já estava há dois meses na estrada quando nos conhecemos na província de Iwate. Ambos estávamos percorrendo a costa do pacífico devastada pelo tsunami, sete meses após a tragédia ocorrida no dia 11 de março de 2011. Cicloturista solitária, ela ainda tinha mais um mês de estrada pela frente. Sei que as brasileiras também praticam o cicloturismo, mas três meses pedalando e acampando sozinha representa um certo risco em terras brasileiras.

Conhecer na prática a realidade de um país onde tudo é mais funcional, provoca um grande desconforto quando vivenciamos tantos contrastes que não condizem com a realidade que poderíamos ter em terras brasileiras. Segurança dentro e fora das estradas, respeito mútuo e uma estrutura física que assegure o direito de ir e vir. Sei que vou repetir aquilo que todos nós já estamos cansados de saber, mas de alguma maneira precisamos, juntamente com as autoridades governamentais, promover ações que possam transformar ou remodelar essa realidade subdesenvolvida.

O Japão ainda apresenta mais uma comodidade que facilita muito o cotidiano de um cicloturista. Lojas de conveniência 24 horas existem em abundância e em grande parte do país. Perfeito para mastigar a fome, saciar a sede, ir ao banheiro ou até mesmo sacar dinheiro num caixa eletrônico. E são poucos os lugares do Japão onde precisei pedalar mais de 50 quilômetros para encontrar algum tipo de comércio. Sempre faço uma pesquisa prévia antes de cair na estrada e dependendo do roteiro não me preocupo com mantimentos. Apesar de parecer urbano demais, garanto que as paisagens rurais não decepcionam.

Para navegação, faço uso de um programa de mapas e localização via satélite de um smartphone, também carrego comigo um recarregador de energia solar para suprir o consumo de bateria do aparelho. Alguns japoneses usam navegadores desenvolvidos especificamente para o cicloturismo, que funcionam com baterias de longa duração e são resistentes à chuva. O peso da carga que transporto em minhas aventuras varia de acordo com o roteiro a percorrer e tempo de viagem. Em situações mais extremas já transportei até 33 kg. Mas, particularmente, penso que uma carga ideal não deve ultrapassar 20 kg.

Se existem tantos detalhes que facilitam a atividade do cicloturismo na terra dos samurais, um fato desafiador precisa ser encarado. Apesar de gostar muito de pedalar em serra, fiquei surpreso ao constatar que o relevo do Japão é predominantemente montanhoso. As montanhas ocupam 80% do território japonês. Portanto, se você é daqueles que evita os caminhos com muitas subidas, terá um grande desafio no Japão. Conheci cicloturistas que preferem viajar sempre à beira-mar, no intuito de tornar o caminho mais suave. De qualquer maneira, não é possível eliminar os aclives por completo, pois algumas encostas do litoral japonês são vertiginosas. No entanto, penhascos à beira-mar sempre oferecem belos mirantes. O Japão mostra-se em paisagens deslumbrantes, mas muitos desses lugares localizam-se no interior, longe do litoral. Como fotógrafo, não posso ignorar os belos cenários que as regiões montanhosas têm a revelar. Subidas e descidas simplesmente fazem parte do caminho.

O Japão é um país estreito e comprido. Sua alongada ocupação geográfica, entre meridianos e paralelos, surpreende a ponto de apresentar clima subártico na província de Hokkaido, no extremo norte, e clima subtropical na província de Okinawa, ao extremo sul. Se pretende vir ao Japão para ver a neve, não vá para Okinawa. Ao contrário do que muitos pensam, a imagem do Japão sempre coberto de neve de um extremo ao outro e durante o ano inteiro não existe. Fazer um boneco de neve em Tokyo é menos frequente do que se imagina e em Okinawa seria como esperar neve em Florianópolis. O mesmo não se pode dizer das províncias mais ao norte, é claro. Mas, ainda assim, durante o verão a neve desaparece da paisagem. No verão de Hokkaido fui surpreendido ao constatar um considerável acúmulo de neve, mas a quase dois mil metros de altitude. Descendo a serra e bem mais abaixo, o calor não condizia com aquela neve persistente e teimosa.

Num país de estações tão bem definidas e contrastantes, seria um pecado realizar essa aventura de uma só vez, sem presenciar as surpreendentes mudanças de cenário que a natureza caprichosamente revela durante as diferentes estações do ano. Como fotógrafo, as imagens tem grande influência nesse projeto. Por causa da fotografia, decidi executar o projeto em etapas. Até o presente momento, minha mais longa expedição durou 30 dias. O principal objetivo dessa aventura é explorar fotograficamente as 47 províncias do Japão. Não me interessa simplesmente percorrer o território. A qualidade do material produzido é que define se a missão foi cumprida em determinada província ou se devo retornar em outra ocasião mais propícia para a captura das imagens. Se isso me custar o dobro da quilometragem necessária para percorrer e fotografar todo território japonês, ótimo; pedalar é saúde.

Produzir boas imagens pode dar mais trabalho do que se imagina. Nem sempre as condições meteorológicas são favoráveis, nem sempre determinado horário ou época do ano possibilitam o efeito desejado. Às vezes, gasto muito tempo fotografando num local e ao concluir meu objetivo saio às pressas na tentativa de chegar a um outro destino e ainda aproveitar a luz para poder fotografar. O sol é o meu relógio. Durante o inverno consigo imagens com grande profundidade e um céu intensamente azul, mas em contrapartida, os dias são bem mais curtos. O inverno é a estação mais seca do Japão. O verão japonês proporciona dias longos, mas o calor é sufocante e pegajoso. E ao contrário do inverno, a alta umidade no ar, muitas vezes diminui consideravelmente a profundidade de visão em paisagens a céu aberto, principalmente nas regiões mais quentes do país. O verão também é o período das grandes festividades que sempre culminam com as tradicionais e hipnotizantes queima de fogos. Mas, um alerta, final de verão e início de outono é a temporada de tufões. Por isso, atenção redobrada na meteorologia. Pedalar com rajadas de vento chacoalhando a bicicleta e chuva cutucando os olhos não é nada agradável. Primavera são só flores, um verdadeiro passeio de bicicleta. Lindas paisagens e temperatura sempre agradável. As cerejeiras em flor se impõem como um dos principais símbolos do Japão. A primavera japonesa ainda apresenta uma enorme variedade de flores que colorem a estação, um verdadeiro presente aos olhos. O outono é uma estação mágica, simplesmente. É a época em que a natureza explode em cores vibrantes, um perfeito cenário cinematográfico no melhor estilo Akira Kurosawa. As cores do outono sempre provocam grande expectativa aos amantes da natureza. O Japão é um país que troca de roupa a cada estação. É impossível não se surpreender.

Sempre me perguntam onde passo as noites. Já fiz uso de albergues para me abrigar, excelente opção para conhecer outros aventureiros, trocar experiências e informações com conforto e tarifas razoáveis. Mas nada é mais barato do que dormir de graça. Num longo projeto como esse, economia faz toda a diferença. Um pouco menos de conforto e socialização, mas vida longa ao projeto. E foi assim que fiz o meu batismo em banco de praça. Apesar de sempre carregar uma barraca, prefiro dormir ao relento, quando a temperatura permite, é claro. É bom que o leitor saiba que no Japão não se pode armar uma barraca em qualquer lugar e invasão de propriedade é algo muito sério. Por isso, para evitar problemas, procuro acampar em regiões mais isoladas, nem sempre encontro áreas próprias para camping em meu caminho.

Nas praças, como todo bom cicloturista, aprendi a tomar banho de torneira, mas nada melhor que um rio. Em último caso, não havendo água por perto, sempre carrego lenços de uso geriátrico. São levemente embebidos em álcool e perfumados, qualquer farmácia vende. É mais ou menos como um banho de gato. Não é aquela maravilha, mas ajuda muito, pode acreditar. E banho de água gelada em baixas temperaturas é menos assustador do que se pensa. Pedale com determinação, adicione aquela vontade motivadora de querer ir cada vez mais longe e fique alguns dias sem tomar banho que você vai entender.

No espírito aventureiro embarquei num caminho sem volta. A bicicleta desliza suave no asfalto japonês e há tempos não sentia tanta paz. Confesso que sinto muita falta de uma estrada de terra, sentir o guidão da bike trepidando em minhas mãos e ouvir o som agradável dos pneus rolando na estrada de terra. Foram poucas as vezes que tive oportunidade de pedalar em estradas de terra aqui no Japão. Acho que isso é um sintoma de saudades do Brasil. É impossível estar aqui e não pensar na minha pátria. É impossível percorrer um território estrangeiro e não fazer comparações entre as paisagens e a cultura de duas nações tão distintas. Os contrastes do país em que nasci e fui criado e a terra de meus pais. Até o presente momento, pedalei mais de nove mil quilômetros e montei um acervo de imagens com mais de seis mil fotografias. Mas ainda estou na metade do caminho e fico imaginando as surpresas que ainda vou descobrir nessa grande aventura. Anseio pelo dia em que poderei mostrar o resultado desse trabalho de forma integral, aqui no Japão e finalmente no Brasil. O Japão visto aos olhos de um cicloturista brasileiro, assim como o Brasil tantas vezes foi retratado aos olhos dos imigrantes japoneses. Eu, como brasileiro e descendente de japoneses, estou realizando esse caminho inverso. Talvez seja uma forma de retribuição ou uma simples troca de figurinhas. Penso que podemos chamar isso de intercâmbio cultural. Nada muito complicado, basta um sonho, uma certa teimosia, uma câmera fotográfica e uma bicicleta. E não se engane, são os sonhos que movem a humanidade, mas de nada adianta sonhar sentado numa poltrona. Pedalar é sair da inércia e correr atrás dos sonhos.

Curtiu esse post?

Quer receber mais conteúdo sobre bicicleta e ciclismo em sua casa? Então clique aqui conheça nossas ofertas de assinatura.

Comentários Facebook
Comentários
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar.

Para postar seu comentário faça seu login abaixo.

E-mail
Senha

 

Cadastre-se Aqui | Esqueceu a senha?

Edições On-lineCadastre-se Esqueceu a senha?
E-mail
Senha
Vídeos

 

 

Para fechar o banner, clique aqui ou tecle Esc.

Revista Bicicleta 2012 © Todos os Direitos Reservados