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Índia e os vistos na Ásia Central

Infelizmente, depois de muitas tentativas, tempo e dinheiro gastos para tirar os vistos dos próximos países, chegou o ponto em que tudo estava emperrado. Eu estava literalmente sem saída da Índia (por terra) e por isto, com muito pesar, peguei um voo para o Quirguistão. Nesta matéria quero focar neste tema de vistos e dar uns toques para quem planeja viajar pelos países da Ásia Central. Mas antes, um breve relato sobre a experiência na Índia.

Revista Bicicleta por Nicholas Allain Saraiva
2.092 visualizações
07/12/2015
Índia e os vistos na Ásia Central
Foto: Nicholas Allain Saraiva

Acho que muita gente vai discordar da minha opinião, mas eu não gostei da Índia, sobretudo para cicloturismo. É certo que conheci apenas um trecho pequeno ao norte, de 370 km da fronteira do Nepal até Délhi, e depois os municípios de Agra (cidade do Taj Mahal) e Vrindavan (onde Krisna cresceu) e por isto minhas impressões podem não ser corretas para o resto deste grande país.

Em poucas palavras, fiquei cansado da sujeira, do lixo espalhado por todo lugar, urina e fezes pelas ruas, esgotos, cheiros nauseantes, da superpopulação e de pedintes por todo lado.

Para pedalar, o caminho até Délhi foi dividido parte em estradas em péssimo estado, as piores até agora, e parte em uma boa rodovia - ambas abarrotadas de caminhões, carro e motos. Nas pequenas rodovias, fechadas e jogadas para fora da estrada, e nos 80 km finais da parte boa, uma estrada muito parecida com uma pista dupla no Brasil, era comum cruzar com caminhões, tratores, vacas ou mesmo carros da polícia trafegando na contramão, de modo que a atenção tem que ser redobrada, pois o perigo vem de todos os lados. Em mais de uma ocasião abaixei a cabeça por segundos para trocar de música ou mexer no GPS e me deparei de frente com um carro vindo na contramão.

O povo é amigável e comunicativo, muitas vezes até demais, pois se torna difícil ter privacidade e ao parar para descansar ou tirar uma foto você é instantaneamente cercado por curiosos, que logo já vão mexendo nas suas coisas, fuçando na bike, pedindo algo e querendo tirar fotos. Senti-me um mico de circo, que todos querem fotografar. Estando de bike você fica muito exposto e isso extrapolou o meu limite de conforto.

Ouvi relatos de turistas assaltados e também de alguma insegurança nas ruas, mas eu pessoalmente não passei nem vi nada semelhante e achei bastante seguro pedalar e transitar. De qualquer forma, não pode dar bobeira. Conheci uma francesa no trem para Agra que tinha sido assaltada num trem, onde roubaram a mochila com cartões, documentos e dinheiro. Alguns dos outros relatos de assaltos que ouvi também foram em trens, por isto fica a dica: cuidado redobrado por lá.

Contrastando com a pobreza do povo, o país é culturalmente riquíssimo, muito antigo, com muitas tradições e costumes ancestrais. O artesanato é reconhecido mundialmente pela beleza única e é um grande país para turismo cultural e espiritual em templos, mesquitas, gurudwara (os templos do povo Siki), fortes e tumbas, tendo muita história para ver. Qualquer lugar que você vai tem 2.500 anos! Mas para mim, os aspectos negativos que mencionei riscam o brilho destes atrativos e não consigo deixar de analisar também que por trás desta pobreza profunda e epidêmica há um dos maiores orçamentos militares do mundo, com um arrojado programa espacial: tudo isto sem cuidar das necessidades básicas do seu povo.

Admito que é uma experiência antropológica e vale a pena visitar o país uma vez na vida, embora talvez não seja a melhor opção ir de bike. 

Enfim, vamos ao tema que quero discorrer neste texto: vistos.

Vistos

Para começar, fiquei muito satisfeito e impressionado com o serviço consular da Embaixada do Brasil em Délhi. Entrei em contato com eles quando apareceu um problema na embaixada do Paquistão e me ajudaram prontamente, fui bem atendido.

Em Délhi eu teria que sair com os vistos do Paquistão, China e Quirguistão, pois eu não passaria perto de capitais ou cidades com consulados e não podia reiniciar o pedal com um deles faltando, senão poderia me meter numa enrascada feia e ficar sem saída pelo caminho. Não achei excitante a ideia de ficar preso numa masmorra no Paquistão ou China...

Na primeira ida ao consulado do Paquistão fui rudemente informado de que não era possível me ajudar e que eu deveria ter encaminhado o visto no meu país, pois não conferem o visto quando solicitado em trânsito. Com uma multidão me empurrando e se enfiando na minha frente, tentei contra-argumentar com o funcionário atrás de uma opressora janelinha com grades, mas fui sumariamente ignorado e não deixaram dar entrada na papelada.

Fui então buscar o consulado brasileiro, onde me forneceram uma carta oficial de apresentação, que eu juntei aos meus documentos, ofícios dos meus patrocinadores e cópias de algumas matérias publicadas... Juntei um calhamaço e pensei: “agora sim, eles vão ficar contentes!”. Antes de voltar, liguei para a embaixada, falei com várias pessoas explicando a situação e após um tempo me instruíram a dar entrada nos papéis mesmo se o funcionário da gradinha não quisesse aceitar. E assim foi feito, mas sem previsão de tempo para ficar pronto, apenas disseram para ir ligando e verificando o andamento. Liguei dezenas de vezes e em 10 dias deu certo. No visto eu tinha 30 dias para entrar e 15 dias de permanência.

A embaixada é um tema à parte: “deprê”, com pessoas esparramadas pela calçada (indianos vindos do interior indo visitar parentes no Paquistão), acampadas dias enquanto esperam, com sujeira para todo lado, contrastando com a asséptica da embaixada da Austrália do outro lado da rua, onde você não pode nem sentar na calçada.

Depois disto foi a vez da China, onde também não aceitaram dar entrada na papelada, pois para entrar por terra nesta parte do país (sudoeste) é preciso ter um visto especial (special turist visa) que para ser obtido envolve mobilizar uma agência credenciada de turismo brasileira para entrar em contato com o órgão de turismo da China e ambas traçarem e atestarem todo o meu roteiro, para então eu dar entrada no consulado. Obviamente foi extremamente difícil conseguir uma agência no Brasil que soubesse o que era isto e depois de muitos telefonemas uma única se dispôs a tentar e cobrou R$ 1.000 - para tentar! Sem chances...

Novamente, o consulado do Brasil me ajudou, forneceu outra carta de apresentação, juntei a mesma papelada do Paquistão, mas desta vez não quiseram nem saber: as portas estariam mesmo fechadas sem este visto especial. Teria que buscar outra saída e o tempo estava passando. Mudei completamente o rumo e ao invés de seguir para o norte do Paquistão para entrar na China, decidi ir para o sul e entrar no Irã.

O visto do Irã é feito por intermédio de agências de turismo credenciadas pelo governo e existe uma meia dúzia delas que fazem isto online. Nos sites, elas dizem que demora de sete a dez dias para emitir o visto, então, dei entrada imediatamente. Mas a comunicação é lenta, devido às sanções econômicas mundiais que o país sofre, o pagamento é esquisito e difícil. Demorou cinco dias só para ser processado. Alguns dias depois recebi um e-mail da agência dizendo que dariam entrada nos papéis e esclarecendo os prazos: sete a dez dias para receberem o sinal positivo (ou negativo) do ministério das relações exteriores, com um código que seria enviado entre três a cinco dias úteis ao consulado, onde então eu levaria meu passaporte e receberia de volta entre mais três a cinco dias úteis.

No total seriam uns 15 dias úteis e mais de 21 dias corridos, contando os inúmeros feriados da Índia e Irã. O processo é certo e brasileiros raramente têm visto negado, mas como eu já tinha gastado um tempão nas tentativas com a China, o meu visto para o Paquistão iria vencer antes de receber o visto do Irã e essa foi a gota d’água. Cansei desta brincadeira, já tinham passados quase 30 dias desde que cheguei a Délhi e eu não estava disposto a tentar renovar o visto do Paquistão. Por isso, decidi voar para o Quirguistão, que já era parte da minha rota e é um país fácil de entrar - em três dias o visto estava pronto. O lado positivo é que eu não ganharia terreno em sentido oeste, apenas seguiria pelo mesmo paralelo, mas vários graus ao norte, onde o clima estaria fresco e mais agradável de pedalar.

Estou relatando isto para o leitor ficar ciente das dificuldades e prazos para vistos nestes países e outros semelhantes, que são fechados e têm conflitos com vizinhos. Com exceção do Nepal, a Índia tem conflitos com todos os vizinhos. Alguns países exigem uma carta de apresentação, que geralmente é feito por uma agência credenciada e cobram caro - fique atento. A maioria dos países “quistões” são tranquilos de entrar e transitar, a exceção é o Turcomenistão, que você deve ser acompanhado de guia (semelhante ao Tibet). Afeganistão, por ora, nem pensar! 

A política de vistos de um país muda dependendo de onde você está dando entrada e não necessariamente com a sua política com o Brasil. Não tive problema em entrar na China vindo pelo Vietnã, mas pela Índia as portas estão praticamente fechadas. É preciso ficar atento com os prazos para emissão de um determinado visto, pois pode inviabilizar outro que você já tenha. Se minha estratégia tivesse sido primeiro o Irã e depois o Paquistão, eu não teria tido este problema e a história seria outra. Outra estratégia, por exemplo, poderia ter sido pedir visto de múltiplas entradas na China na primeira vez, já que tinha dado certo. Mas como saber?

De qualquer forma, sempre há uma opção. A Índia agora é mais um país por onde passei, mais um carimbo no passaporte, um povo que ficou para trás e uma nova porta se abre: Quirguistão, aqui estou eu! 

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