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Florianópolis - Um cenário próprio para pedalar

Florianópolis, capital de Santa Catarina - a Ilha da Magia, destino de cinco entre 10 turistas europeus que escolhem o Brasil e local de veraneio de argentinos, uruguaios, chilenos e paraguaios, é uma cidade de contrastes e encantos.

Revista Bicicleta por Nidia Nóbrega
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04/11/2014
Florianópolis - Um cenário próprio para pedalar
Foto: Daniel Wiedemann

Com mais de 400 km quadrados distribuídos entre a parte insular e continental, Floripa, como é chamada carinhosamente pelos 1.012.831 habitantes de sua área metropolitana, tem mais de cem praias lindíssimas, cadeias de montanhas, trilhas de tirar o fôlego, uma rede hoteleira e gastronômica de primeiro mundo, arquitetura conservada, pontos turísticos charmosos, povo hospitaleiro e um trânsito enlouquecedor.

No verão, o número de habitantes e carros duplica, o tráfego para e, apesar de tantos encantos, a mobilidade urbana vira um caos. E isso não é um problema sazonal. Capital de governo, centralizadora de serviços e sonho de consumo de todas as classes, a cidade cresce exponencialmente, o número de carros aumenta, e os problemas também. Muitos projetos buscam saídas, investimentos são feitos, mas ainda não atendem as demandas cada vez mais emergenciais na questão da mobilidade urbana.

Por outro lado, essa cidade que ainda tem um quê de província, desponta pelo ativismo em busca de alternativas e do direito da escolha delas e a bicicleta é um dos focos de discussão mais acalorados e mobilizadores.

Iniciativas pioneiras não bastam

O Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis foi pioneiro na pesquisa, elaboração e implementação de um projeto de rotas e ciclovias que devem abraçar, sem prazo definido, toda a ilha e acompanhará as modificações e correções das vias urbanas. “Hoje existem mais de 42 km de ciclovias e ciclofaixas em vários bairros. Mas nosso maior desafio é conscientizar motoristas de carros e do transporte coletivo, pedestres, motociclistas e ciclistas que o compartilhamento dos espaços exige educação, consciência coletiva, e uma mudança de postura”, afirma a arquiteta Vera Lucia Gonçalves da Silva, do IPUF - Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis, que trabalha na área de planejamento e mobilidade.

Segundo ela, além do projeto, uma licitação vai permitir que ao final do ano, sejam implantadas 111 estações de bicicletas – ao todo, 1114 equipamentos, que serão locadas aos usuários, numa parceria público/privada a exemplo da Holanda.

Para chegar nesse estágio foram feitos estudos e ouvida a população que usa a bicicleta para transporte rotineiro e sequer sabia dos seus direitos como ciclistas em termos de espaços e segurança. “Mas as questões políticas precisam ser trabalhadas já que a cultura do carro e as pressões econômicas impedem uma visão mais ampla da importância da bicicleta como uma das opções na redução da poluição, saúde, espaço para estacionamento e outros benefícios. O processo é lento e necessita debate constante, mobilização e educação do povo”, enfatiza ela.

Mobilidade na busca da qualidade de vida

Daniel Araujo da Costa preside a ViaCiclo, um movimento que defende a ampliação das alternativas para a mobilidade urbana da capital catarinense e expõe de forma clara a situação. “Temos 37 km de ciclovias e ciclofaixas, numa ilha extremamente ciclável e as pesquisas mostram que mais de 70 por cento da população deseja optar por esta alternativa, mas se desmotiva por falta de espaço e segurança. A cultura do carro impede o compartilhamento das vias. E os governos ainda priorizam o transporte de veículos”.

Segundo ele, a defesa desse modal como opção na mobilidade urbana de Florianópolis e do planeta para pequenas distâncias e a sua combinação com o transporte público de qualidade, não significa ser contra o carro. Mas propõem que haja compartilhamento, direito de escolha, investimentos equilibrados para todos os meios de transporte e não apenas focado no automóvel. “Precisamos investir no transporte ativo e acredito que com o aumento da bicicleta, a evolução para um transporte mais seguro será inevitável”, diz Daniel, que é biólogo, pai de família e um ativista comunitário.

Pró-Bici: um espaço conquistado

E essa mobilização ganhou em 2011 cadeira e voz consultiva com a criação da “Comissão Municipal de Mobilidade Urbana por Bicicleta - Pró-Bici”, composta por representantes de órgãos públicos e da sociedade civil organizada, com a tarefa de monitorar e aprimorar a mobilidade ciclística em Florianópolis.

A Pró-Bici reivindica a democratização da mobilidade urbana para o uso seguro da bicicleta “seja por operários da construção civil, estudantes, domésticas, profissionais liberais, servidores públicos, desportistas ou desembargadores”, explica Daniel, que participa quinzenalmente das reuniões da Pró-Bici no IPUF, mesmo que ainda lamente a morosidade de ações do poder público.

“Pedaladas” que já geram mudanças

O esforço dessa comissão já deu frutos, mesmo frustrando expectativas técnicas e práticas, mas que são avanços. Ano passado, a obra de duplicação de rodovias de acesso ao norte e ao sul da ilha, mesmo incluindo ciclovias no projeto, não executou os mesmos. O movimento pressionou, o Ministério Público denunciou e a Justiça exigiu a construção das ciclovias. Mas isso ainda é insuficiente para atender a demanda e garantir a segurança dos ciclistas. Segundo Daniel, “as ciclofaixas colocadas na SC-401 são “ciclofarsas” porque para reduzir o custo da obra não há cercas de proteção e as pessoas correm risco do mesmo jeito”.

Nos últimos seis meses vários registros de atropelamentos e mortes de ciclistas mostram que, junto com a construção de ciclovias e ciclofaixas, os motoristas precisam mudar sua postura e aprender a compartilhar ruas, avenidas e rodovias de forma racional e humana. “Isso é o significado de mobilidade urbana que precisa ser entendido por todos – dos gestores aos usuários. Uns cobrando e os outros fazendo cumprir a lei”, conclui Daniel.

A mobilização fortalece conceitos

E as pessoas comuns que apenas pedalam por opção de vida, o que acham disso tudo?

Mônica Canton, 18 anos, acadêmica de Agronomia da UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina, pedala diariamente 10 km e sente na pele as dificuldades de um mundo focado nos carros. “Faltam ciclovias, bicicletários e segurança. Isso inibe as pessoas que até gostariam de aderir a esse tipo de transporte”, diz ela, carregando sua magrela para dentro da sala de aula, com medo de furto.

Já Lucas Campi e Eleandro Batista, um paulista e outro nativo da ilha, são otimistas. “Florianópolis tem um movimento ativista forte e tem conquistado espaço” afirma Lucas. Já Eleandro considera que o ciclista vai conquistar o respeito dos motoristas na medida em que tiver postura e também respeitar as regras do trânsito.

ViaCiclo materializa ações

A ViaCiclo representa a Associação dos Ciclousuários da Grande Florianópolis que, através de seu site e de várias ações, oferece espaço para apresentar o andamento e o resultado dos trabalhos da Pró-Bici, bem como para intermediar a comunicação entre ela e a comunidade. O portal www.viaciclo.org.br é o espaço criado para difusão de ideias, mudança de conceitos e comportamentos e a conquista de adesões.

Além de defender o transporte seguro, propõe programas de lazer ativo, o uso da bicicleta no dia a dia das pessoas e a mobilização na defesa de um planeta melhor, menos poluído, mais saudável e harmônico.
Além de abaixo-assinados para cobrar dos governos atenção para o ciclismo seguro, a ViaCiclo desenvolve vários projetos de inclusão, valorização e chamamento para novos adeptos.

Um que merece destaque – o Projeto Novos Horizontes - é feito com ciclistas cegos que, em bicicletas duplas, pedalam quinzenalmente por vários pontos da ilha. “O número cresce e eles gostariam que os encontros fossem semanais. A sensação para nós é compensadora e, para eles, libertadora”, afirma Daniel ao relatar o prazer da descoberta dos cegos que pedalam.

“Peladada” e outras promoções

Chamar a atenção para a falta de segurança dos ciclistas e pedir mais segurança transformou a “peladada” de Floripa no segundo evento mais concorrido do país em março desse ano. Gente nova, senhorinhas e senhores sexagenários estavam lá, pelados ou não, abrindo a questão da segurança para o ciclista.

Outros circuitos longos ou curtos têm mobilizado adeptos de todas as idades e chamado o poder público a dar às caras para a conquista do ciclismo como parte da mobilidade urbana de Floripa.

O sonho de Daniel é transformar esses eventos em grandes encontros. “Não temos ainda uma estatística de quantos são os grupos e quantas pessoas usam a bicicleta como alternativa de transporte ou como ferramenta de lazer ou mobilização. Queremos promover um grande evento, onde cada grupo sairá de seu bairro e se encontrará no centro de Floripa. E isso vai acontecer logo, pois acho importante que esses grupos sejam valorizados, tenham visibilidade pela sua importância na defesa do ciclismo e de uma cidade melhor e mais democrática para todos nós”.
Beira-mar Norte: beleza e prazer para pedalar
Treinar para competições, readquirir forma física ou seguir recomendações médicas. Pedalar apenas pelo prazer do contato com a natureza ou descobrir novas formas de paquerar; abordagens ou apenas ficar em sintonia consigo mesmo: uma forma egocêntrica de curtir a própria companhia.

As milhares de pessoas que passam pela Beira-mar Norte, como é conhecida a Avenida Jornalista Rubens de Arruda Ramos, têm os mais variados motivos para escolher esse espaço vip para curtir sua bicicleta.

São sete quilômetros de calçadão e uma ciclovia segura que permite pedalar a qualquer hora do dia ou da noite devido à segurança e à beleza do entorno. De um lado o mar, onde sobrevoam gaivotas, equipado com um píer onde aportam barcos de pescadores ou escunas de passeios turísticos ou vários equipamentos com bancos e aparelhos esportivos. Do outro, prédios, shoppings, bares, bancos, restaurantes e estacionamento. E um pôr-do-sol inigualável que tinge o mar de múltiplas cores no final da tarde, inspirando gente de todas as tribos e idades.

Nos últimos dois anos, Ricardo Destri, jornalista, pedala em torno de 25 km pela Beira-mar Norte. “É uma terapia física e psíquica”, afirma ele numa fase de vida onde todos os recomeços são valorizados. Além de valorizar o local que tem a paisagem ideal para uma pedalada, Ricardo festeja o aumento de pessoas que escolheram a bicicleta nos últimos tempos como forma de melhorar sua qualidade de vida. Mas considera que esses espaços deveriam se multiplicar para oferecer chance a mais pessoas.

Já o ócio criativo produzido pelo exercício de pedalar olhando o mar é umas das justificativas de Rafael Wiethorn trocar a corrida pela bicicleta. “Andar de bicicleta nas minhas horas de folga me permite ficar mais criativo, encontrar um viés diferente para minhas abordagens, pensar de outro jeito, relaxar”, afirma ele quase com pressa, não querendo perder seus momentos de encontro consigo mesmo.

Além do sentimento prazeroso, os dois ciclistas não ignoram que a mobilidade urbana ganha com a ampliação e segurança das ciclovias, a educação para o trânsito compartilhado e a consciência da importância das alternativas de transporte.

Outros espaços, outros olhares.

Espaço semelhante também foi construído na Beira-mar Sul, que dá acesso às praias do sul e leste, aeroporto e acesso dois à Universidade Federal de Santa Catarina. A ciclovia da Beira- mar Sul tem um fluxo mais tranquilo para o tráfego de trabalhadores ou como local de treino para provas de resultado. Nesse espaço - e na rodovia que fica ao lado - ocorrem as etapas do Iron Man Brasil e parte dos percursos do AUDAX 200 e da Volta a Ilha.

A via, que tem oito quilômetros de extensão e um entorno de 13 ha de área verde, é espaço para grandes espetáculos musicais ou esportivos que exijam mais infraestrutura. No entanto, apesar de sua beleza, história e potencial, não tem o mesmo charme e volume de benfeitorias da Beira-mar Norte.

No lado continental, outro grande calçadão com ciclovias foi inaugurado esse ano em São José, município que faz parte da grande Florianópolis.

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