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Flávia Freire - Eu Pedalo

Revista Bicicleta por Flávia Freire
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24/11/2011
Flávia Freire - Eu Pedalo
Foto: Arquivo Pessoal

"A Flavinha caiu dormindo", uma das minhas irmãs disse ao entrar em casa, conta minha mãe. Imagine o susto! Nunca me esqueço desse tombo feio descendo uma ladeira, em que fiquei um tempinho desacordada. Fiquei dez dias sem poder mastigar, só tomando sopa de canudo, e tenho até hoje uma cicatriz no queixo e outra no joelho. Foi horrível, mas eu só pensava em sarar para subir na bike de novo. Nessa época, eu morava em Belo Horizonte com a minha família.

Naquele tempo não tinha internet, a nossa diversão era brincar na rua. Durante a minha infância, uma coisa que me marcou muito foi aquela propaganda de tv em que as crianças espalhavam bilhetinhos pela casa com a frase: “não esqueça a minha caloi”. Nossa, foi uma febre! Eu me lembro que uns dias antes do meu aniversário de oito anos, em outubro de 1982, eu escrevi uns trinta, e minhas três irmãs fizeram o mesmo. Coitados dos meus pais. Mas deu certo, ganhei a bicicleta dos sonhos de qualquer menina, na época: uma Caloi Ceci, aquela que vinha com uma cestinha. A minha era dourada, linda, linda! Eu saía com ela todo santo dia depois da aula.

A minha adolescência passei no Rio de Janeiro, pois meu pai é médico e foi transferido para lá. Acabei perdendo um pouco o interesse pela bicicleta, só queria saber de ir à praia porque a moda, no Rio, era pegar onda de morey boogie. Depois veio o tênis; sonhava em ser uma tenista famosa. Aí veio o vôlei, o patins, a corrida, a hidroginástica... Enfim, sempre gostei de praticar esportes.

Em 1998, me formei em jornalismo e fui chamada pra trabalhar em Brasília, por um ano. Lá, todo mundo tem bicicleta, até porque as distâncias são muito grandes, então, ou você pedala ou fica refém do carro. Eu escolhi pedalar. Uma colega tinha duas bikes e me emprestou uma. O bom é que eu estava sempre em forma.

Em 1999, já de volta à São Paulo, dei um tempo da bike. Comecei a me exercitar na academia fazendo musculação e corrida na esteira, mas tinha uns dias em que eu pensava: “puxa, está um tempo lindo lá fora e eu aqui numa sala de academia”. Foi quando me convidaram pra participar do World Bike Tour, há uns três anos. Trata-se de um evento gigantesco que reúne milhares de ciclistas, em São Paulo, e várias avenidas importantes da cidade são fechadas por algumas horas para receber os participantes. A ideia não é competir, mas incentivar o uso da bicicleta.

Eu não sou atleta, nem de longe.... Pedalo por puro prazer. Na minha opinião, a melhor maneira de conhecer uma cidade é a pé ou de bicicleta. Das duas formas eu exercito os meus sentidos. Posso interagir com o meio ambiente, com as pessoas, ouvir o que elas estão falando, sentir o cheiro de flores, frutas, temperos... É muito gostoso.

Gosto desse contato com a natureza, da sensação de liberdade, e ao mesmo tempo sei que estou contribuindo para um ar mais limpo, afinal, cada bicicleta na rua é um carro a menos, e em São Paulo os veículos são o inimigo número um da qualidade do ar. Eles respondem por noventa por cento da poluição. Eu sei disso porque recentemente fiz uma série de reportagens sobre os efeitos da poluição na nossa saúde, e a coisa é feia: o pulmão de um morador de São Paulo é igual ao de um fumante. Fui buscar exemplos de cidades no exterior que enfrentam o problema com seriedade e, na maioria delas, a grande aposta pra melhorar o trânsito e a qualidade do ar é a bicicleta. E a bike tem uma vantagem: te leva longe.

Eu confesso que uso a bike menos do que gostaria porque não sobra muito tempo. Maldita vida moderna! A gente vive em função do relógio, correndo de um lado pro outro, mas pelo menos eu tento fazer os pequenos trajetos de bicicleta. Vou à locadora, à padaria e até ao supermercado, quando a lista de compras não é muito grande. Penduro as sacolas com as compras no guidão e levo uma mochila, com a carteira e os documentos, nas costas. Estou sempre experimentando novos trajetos. Uma vez fui pedalando até um shopping center que tem um estacionamento todo informatizado, exclusivo para as bicicletas, e quando o ciclista entra recebe um papel com o modelo da bike impresso, igual fazem com os carros. Eu nunca tinha visto isso, achei curioso.

Também já experimentei ir pedalando para o trabalho, vestida como vou trabalhar mesmo, de camisa social, calça social, sapato... É o tal cycle chic, que é você pedalar sem aquela roupa toda paramentada de ciclista. Pedalar como você realmente se veste. O capacete eu acho que tem que usar por uma questão de segurança.

Uma amiga me ensinou um truque pra não deixar o cabelo amassar: amarrar um lenço na cabeça, fica super estiloso. Ela usa também uma espécie de tornozeleira pra calça não ficar tocando na corrente. A bolsa vai na cestinha da bike. Uma vez fiz esse percurso para uma reportagem sobre o dia mundial sem carro. Repeti algumas vezes, mas esse é um trajeto que eu não faço com tanta frequência porque pega avenidas muito movimentadas e eu acho que, em São Paulo, os motoristas precisam se acostumar mais com o trânsito de bicicletas, respeitar mais o ciclista.

Já me aconteceu de ser espremida no meio fio por um ônibus. Teve também um motorista que jogou o carro em cima de mim de propósito, para me dar um susto, achando que era o dono da rua. Esse certamente é um motorista que ainda não entendeu que a bike só faz bem para a cidade. Mas no geral eu vou numa boa.

Nos fins de semana meu marido, que é esportista como eu e topa tudo, me acompanha nas pedaladas. Gostamos muito de ir a um parque que fica a oito quilômetros de casa; paramos por uma horinha, tomamos um pouco de sol e depois vamos almoçar em algum lugar. Já saímos também pra procurar apartamento, ir à casa da sogra, ao clube... Aos domingos, usamos a ciclofaixa que liga quatro parques da capital paulista. Estou sempre tentando convencer a família e os amigos a mudarem de hábito e a usarem a bicicleta pelo menos de vez em quando, como eu, mas a maioria não abre mão do conforto do carro. Aí eu apelo para as vantagens de se pedalar: eu, por exemplo, reparo muito mais na cidade quando estou de bicicleta do que quando estou dentro do carro, e como eu fujo do tráfego, pego caminhos alternativos, vou admirando a paisagem, sentindo aquele ventinho no rosto. Onde eu moro, tem muitas árvores centenárias dessas enormes, uma atrás da outra, é a coisa mais linda. Vejo muitos canários, praças, casarões... Fora que a bike dá agilidade no trânsito e não polui nada.

Nas férias eu sempre viajo e fico impressionada de ver que lá fora todo mundo pedala, principalmente na Europa. Lá, a quantidade de idosos nas bikes é impressionante, e o que tem de executivo engravatado indo trabalhar de bicicleta, não é brincadeira. A diferença é que na Europa as cidades são muito bem servidas de ciclovias e tem aqueles sistemas de bicicletas, nos moldes do Velib, em Paris, onde se pode pegar uma bike emprestada no meio de uma rua ou de uma praça e devolver em outro ponto do lado de uma estação do metrô ou perto do seu compromisso.

Sempre que eu viajo, reservo uns dias para pedalar. Eu diria que o centro do universo da bicicleta hoje é a Europa. Para os europeus, a bicicleta é um veículo de transporte. É diferente do Brasil. Aqui eu sinto que a magrela ainda é vista como uma coisa de gente simples. É uma visão distorcida, equivocada e eu realmente espero que isso mude. Adorei pedalar por Viena. Eu me surpreendi muito com a cidade. Ela tem avenidas largas e arborizadas, prédios históricos, palácios, museus, restaurantes e é inteirinha cortada por ciclovias. Parece que foi feita para os ciclistas. Em outra viagem, tive a oportunidade de pedalar por Munique, onde foi comum ver grandes quantidades de bikes estacionadas nas entradas de estações de trem. É a prova de que todo mundo usa a bike lá.

Mas o lugar mais incrível que já explorei de bike foi o Deserto do Atacama, no Chile. Foi uma experiência única. O Atacama é considerado o deserto mais alto e mais seco do mundo. Está a 2900 metros acima do nível do mar. Quem não está acostumada, como eu, sente um pouco. Tem que sair com protetor solar, chapéu e garrafinha de água. O calor passa dos 30 °C. O meu passeio foi para o Salar do Atacama, em direção às lagoas secas. O lugar é cercado por cristais de sal muito brancos. Meu marido me acompanhou. Pedalamos uma hora e meia para ir e mais uma e meia para voltar. Recomendo para todos.

Para a série de reportagens sobre a poluição, visitei alguns países da América Latina, como Bogotá, na Colômbia. Num domingo, uma cena me chamou a atenção. Um homem todo vestido de verde tentava convencer as pessoas da importância de se deixar o carro em casa e usar a bicicleta como meio de transporte. O Greenman, esse super herói anônimo, me disse: “um dia acordei e quis fazer a minha parte, dar o melhor de mim e pensei na melhor maneira de chamar a atenção e levar a minha mensagem à comunidade. Aí, me pintei de verde”. Achei o máximo. É uma lição para a gente.

Sonho com uma São Paulo com mais ciclovias e com um sistema de empréstimo que funcione, assim como no exterior. Já imaginou que delícia? Bem que essa moda podia pegar aqui no Brasil.

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Rodrigo Gonçalves

12/03/2013 às 17:04

Bom dia,

Estou fazendo um estudo com os ciclistas de São Paulo, que utilizam a bike como meio de transporte casa-trabalho/estudo. O projeto visa melhorar o relacionamento com os ciclistas de São Paulo e quebrar barreiras no destino.
A pesquisa é rápida, tem apenas 8 perguntas. Se os amigos ciclistas puderem responder e divulgar, estaremos dando um passo para a melhoria nos serviços prestados para ciclistas.
O link da pesquisa é: http://www.surveymonkey.com/s/Z9YJSF7

Gostaria de entrar em contato com os amigos ciclistas para poder explicar melhor, meu e-mail é
ro7verde@hotmail.com

Sei que são muito ocupados, mas peço gentilmente que me ajudem respondendo este questionário e divulgando ele para seus contatos.É um questionário pequeno, possui apenas 8 perguntas. Fiz a pesquisa através do site Survey Monkey. Segue o LINK: http://www.surveymonkey.com/s/Z9YJSF7

Gostaria de agradecer desde já a col
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