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Expedição Monte Roraima

A montanha que une 3 países e a Equipe de Aventura Ratos de Trilhas com uma meta: Levar uma bike para o topo dos 2700m do monte Roraima

Revista Bicicleta por Sérgio Batista
39.215 visualizações
03/09/2014
Expedição Monte Roraima
Foto: Sérgio Batista / Arquivo Pessoal

Alguns dias após a expedição, ainda é difícil assimilar e acreditar no que fizemos. Fico vendo as fotos e lembrando tudo que aconteceu nos treze dias que passamos juntos.

Antes da expedição, foram horas de reuniões para esse desafio. Eu lembro quando fizemos a primeira, há uns nove meses atrás. Pelo clima de todas elas, já dava a sensação de que tudo iria dar certo, e todo o planejamento iria alcançar o seu êxito. 

Foram tantas expectativas criadas nesses encontros para o grande momento... Vivenciei a empolgação de todos nós.

Havia até uma banca de apostas para aqueles que, supostamente, não iriam.

Durante o planejamento, sabíamos que iríamos enfrentar muitos desafios, sendo que dentre todos eles, dois iriam ser os maiores: 

- O frio no topo do monte (que poderia chegar a 0°); 

- E as temidas subidas da serra de Pacaraima e do próprio monte (1800m).

10 de fevereiro de 2010: Aeroporto Internacional de Val-de-Cans, por volta das 05h: dez bikers estavam embarcando de Belém-PA para Boa Vista, capital do Estado de Roraima, para serem protagonistas de um dos maiores feitos ciclísticos do mundo (outros três bikers iriam juntar-se ao grupo no decorrer da expedição): pedalar de Boa Vista, atravessando a fronteira com a Venezuela, pedalando pela Gran Sabana Venezuelana, chegando ao topo do Monte Roraima com uma bike em punho e alcançar a tríplice fronteira (Brasil, Venezuela e Guiana).

E lá fomos nós!

O vôo foi muito tranquilo. Chegamos a Boa Vista no horário e rumamos para o hotel Uiramutam. Hotel muito bom, bem localizado e com excelente estrutura, que nos deu os últimos luxos antes de iniciarmos o pedal. Antes de qualquer expedição temos que valorizar cada um desses luxos: como tomar um bom banho, dormir em uma boa cama, tomar um bom café da manhã, etc. 

Montamos as bikes e verificamos se estava tudo certo. As bikes ficaram prontinhas para o dia seguinte. 

Como planejado, fomos pedalando até o supermercado para fazermos as compras necessárias. Ainda no supermercado, deu tempo de conhecer o Sr. Lázaro, que é guia local e nos deu algumas dicas valiosas para o nosso trajeto. Foi uma das pessoas mais marcantes da expedição. 

À noite, depois de um delicioso jantar tipicamente roraimense, retornamos ao hotel para descansar e aproveitar a noite de sono. Ficou acertado que a alvorada iria ser as 05h, para que no mais tardar às 07h estivéssemos saindo para o pedal. 

Pontualmente às 05h a alvorada foi feita. Chega o grande momento! O café da manhã, bem caprichado, antecipado pelo hotel, estava servido. 

Rumamos para a grande Praça do Garimpeiro. Chegando lá, eis que surge um dos momentos mais aguardados por mim: a hora da oração. De início eu não sabia muito o que dizer, mas ao mesmo tempo, queria expressar tudo que estava sentindo naquele momento - era algo muito forte. Agradeci muito por estar lá com todos os meus amigos para essa grande jornada. Foi um momento memorável e que nunca esquecerei. 

Saímos da cidade e pegamos a BR-174. O sol parecia que não ia dar trégua, e certamente, além das grandes subidas e do frio que iríamos enfrentar mais adiante, iríamos ter mais esse grande obstáculo durante os próximos dois dias. 

Na BR-174, pedalamos por um bom tempo com a urbanização ainda em nossa volta. O asfalto da estrada está em bom estado, bem plana nesse início, como já era previsível. (mas sem um bom acostamento). Nesse início de viagem começamos a perceber que, como em outras viagens, éramos bem-vindos, e aquele conceito que nos foi informado por muitos nas pesquisas, era um paradoxo. Praticamente todos os carros que passavam por nós pegavam a contramão para deixar o maior espaço possível para pedalarmos. As buzinadas de saudações eram comuns. 

A meteorologia local (Velasco weather,  ele tinha um termômetro embutido no top-tube da sua bike), indicava 39°. 

Por volta das 13h30 resolvemos parar para um merecido descanso na baiúca do Linhares. A parada foi regada a muito salame, queijo (e pan?). Fomos muito bem recebidos, ao som de muita prosa e muitas piadas, do Sr. Zé “Guloso” e convidados. Um poço d'água geladinha foi muito bem-vindo para podermos descansar e esperar o sol baixar um pouco. 

Já de volta ao pedal, mesmo com o sol mais ameno, o desgaste foi muito grande nesse primeiro dia. Afinal, eram 100 km!

Às 19h, fomos chegando um a um ao nosso destino e nos acomodando no chão e na calçada, bem em frente ao posto do Sr. Paulo. 

Nesse extenso primeiro dia de pedal deu para ter uma pequena amostra da dificuldade que ainda íamos enfrentar. O dia foi muito difícil, o calor era quase insuportável. Nunca tínhamos pedalado em um local tão quente. Esses primeiros 100 km foram de savana (vegetação bem rasteira), não existindo praticamente nenhuma sombra. Era certo que as características iriam ser assim nos próximos dois dias. 

O nosso ponto de dormida desse primeiro dia de pedal ainda era chique. Aproveitamos os quartos do hotel ao lado do posto. Com um suporte de hidratação do posto, banheiro e frigobar nos apartamentos, ainda pudemos desfrutar de um conforto que iria faltar dali para frente. 

Depois de um banho mais que necessário e merecido, deu para dar uma revigorada. Ainda mais com o "banquete" que foi servido após, com quitutes de todos os tipos. Chegava a hora de se desvencilhar de um pouco do peso dos enlatados. 

A dormida, merecedora, foi muito boa. Bem cedo já estávamos de pé para o nosso segundo dia de expedição. 

Agradecemos todo o apoio do Sr. Paulo (proprietário do posto e que atendeu a todas as nossas necessidades). 

A nossa segunda oração foi feita. Era hora de agradecer toda a força que nos foi proporcionada no dia anterior, e ainda, hora de pedir a mesma força para o dia que estava se iniciando (iríamos precisar muito). 

Tínhamos que aproveitar ao máximo as primeiras horas da manhã, para a pedalada render bem e podermos fazer aquela parada estratégica por volta de 12h30, descansando até o sol baixar um pouco. 

Nosso destino do dia era a Vila Surumú, uma aldeia indígena dos Tucuxis, que fica às margens da BR-174. 

Seriam cerca de 70 km até lá. Ainda era manhã, mas o sol parecia com o das 14h. 

Esse dia foi preenchido com algumas surpresas, como uma bela lagoa limpinha, que encontramos à beira da estrada. Não pensamos duas vezes em parar. Quando estávamos de molho, de bubuia na água, ouvimos barulho de carro parando perto das nossas bikes, era uma pessoa querendo se refrescar também. Nos entrosamos e o mesmo nos ofereceu gelo para os nossos hidrates, que beleza! 

Pegamos a estrada e a muito custo todos estavam regrando a água. Jamais poderíamos deixar que faltasse. Se isso acontecesse, íamos ter que parar antes do nosso destino. 

Em determinado momento, o grupo ficou meio desanimado, estava muito quente e a água muito escassa. A tarde caia, mas o sol não. As horas passavam, mas o sol fervia como o das 13h. O ritmo do pedal estava baixo, fora da média normal. Nessa hora só o que escutávamos era o barulho dos pneus do asfalto. Todos ficaram bem calados e só o que faziam era concentrar-se no pedal. 

De repente, surgiu uma gritaria atrás de nós. Um carro buzinando com um corpo, praticamente para fora, com um objeto preto e uma linha vermelha no centro: era uma coca-cola de 2lt. 

Quando ele saltou, percebemos que era o Sr. Lázaro, São Lázaro! (lembram do senhor do supermercado que encontramos em Boa Vista? Pois é!). 

Foi uma injeção de ânimo em todos. Nunca imaginávamos que isso iria acontecer. Além de coca-cola, tinha um isopor lotado de frutas e gelo, nossa, gelo! 

Depois das emoções contidas, seguimos viagem. Quando chegamos à vila ainda era dia. Pedimos permissão para a proprietária de uma grande maloca da aldeia (D. Antonia), para podermos repousar aquela noite naquele local. Permissão dada, tiramos as coisas dos alforjes e fomos tomar um bom banho no banheiro coletivo da aldeia. Após, a Jocasta (filha da D. Antonia) nos ajudou a organizar o jantar. Cada um deu alguns macarrões, sopas, temperos, etc (hora daquela famosa comida bem condimentada). Compramos bisteca e bife em um restaurante da aldeia e estávamos muito bem servidos. 

Nunca tínhamos ficado em um hotel de mil estrelas. Colocamos os sacos de dormir em frente da grande maloca e nos deitamos ao ar livre, com o céu todo estrelado (tem hotel melhor?!). Vez ou outra uma estrela “caía”. 

Pela manhã bem cedo, ainda escuro, arrumamos as tralhas e tomamos café.  

De todos os dias, esse foi o mais cedo que iniciamos o pedal, como tem que ser realmente. Aos poucos íamos avançando na serra. Começavam as subidas intermináveis. 

Estávamos a 400m e subindo cada vez mais. Nosso ponto final eram 900m, já na cidade de Pacaraima, fronteira com a Venezuela. Lá estaríamos completando 220km pedalados, em três dias.

Subidas, mais subidas. Não davam um “refresco” sequer. Até que apareceu um refresco sim, um caldo-de-cana à beira da estrada, bem doce e gelado! 

Após várias paradas de descanso, chegamos finalmente a Pacaraima, a 900m de altura. Ainda demos uma parada em um posto fiscal da SEFAZ para um último descanso (porque ainda tinha uma grande subida antes de chegar ao centro da cidade). 

Mas finalmente chegamos, e a primeira parada foi na rodoviária para comer algo. Após alguns almoçarem e outros apenas merendarem, fomos para o nosso alojamento. 

Durante a organização da expedição, foi nos oferecido, pela D. Sonia, o alojamento do IBAMA, em Pacaraima. A princípio íamos ficar em hotel, mas acho que nenhum hotel supriria o conforto que nos foi dado (obrigado, D. Sonia!). 

Seguimos em direção a divisa do Brasil com a Venezuela, e ao nos aproximar, funcionários de alguns órgãos nos alertaram para a sede do IBAMA. Parece que muitos lá já sabiam que estávamos chegando. 

À noite deu para conhecer um pouco da cidade de Pacaraima, que fica bem no topo da serra de mesmo nome. 

Aproveitamos bem a noite, bem dormida, sem a preocupação de acordar cedo, sem compromisso algum. 

No final da manhã conhecemos o Frank, venezuelano que contratamos por indicação da D. Sonia para organizar a nossa ida ao Monte. Foi o primeiro contato com um venezuelano. 

Nessa mesma manhã chegou o nosso 11º homem, o Rodrigo Duque. Ainda faltavam mais dois para completar os 13. Esses iam chegar mais a frente. 

Almoçamos por lá mesmo, no alojamento, com a cozinha comandada pela Ádila. 

A aduana venezuelana funciona até as 16h. Estávamos uns 200m dela. O IBAMA fica a 50m da fronteira. Tínhamos que sair do alojamento o mais tardar às 15h30. Com um trajeto de apenas 15km, de Pacaraima até Santa Elena, já na Venezuela, o dia seria de folga. Em Santa Elena ficaríamos no hotel Michele, um dos hotéis mais populares da cidade. 

Na aduana fomos bem recebidos pelo exército venezuelano, muitos deles fizeram perguntas sobre as bikes, fizeram fotos conosco e até proposta de compra de uma das bikes, na volta. 

Seguimos caminho já em terras venezuelanas: outro idioma, moeda, costumes e leis. Tínhamos que ter muito cuidado em tudo que íamos fazer e falar, pois em terras de Hugo Chaves não se brinca. Em todo lugar se via algum soldado de prontidão. As estradas são cheias de barreiras de fiscalização. Por algumas vezes tivemos que mostrar os passaportes. 

Alguns quilômetros após a fronteira e logo chegamos ao hotel Michele. A diária lá não passa de R$ 10,00. É um bom local para quem não quer muito luxo. 

Não muito longe do hotel, encontramos um restaurante chamado Alfredo. Neste, provavelmente os que estavam lá nunca se divertiram tanto e riram tanto (pelo menos eu) como nessa noite. Foi uma noite inesquecível.

A partir da nossa chegada a Venezuela, “poliglotas” de plantão começaram a falar o “espanhol”. O garçom ficava louco. Um dizia que estava até nos alfabetizando, e indagava ao garçom se estava certo o diálogo.

Depois de algumas tequilas, vinhos, coquetéis, a coisa ficou “pior”. Era um enrolado louco com a língua alheia (que PAN?!). 

O maestro do recinto descobriu que éramos brasileiros e começou a tocar clássicos da MPB, Roberto, Caetano, Chico, etc. A partir daí foi uma festa, nos sentimos literalmente em casa. O nosso Biafra, vulgo Amauri, fez bonito ao levantar-se da mesa e acompanhar o maestro na canção (estávamos todos morrendo de rir). Nem os venezuelanos estavam acreditando, a festa era toda nossa! 

A nossa conta somou inacreditáveis 1.000.000,00 - um milhão de bolivares (por volta de R$ 300,00, ficando menos de R$ 30,00 pra cada um). 

No outro dia, seguimos em direção a São Francisco, nosso objetivo do dia. Ao sair da cidade percebemos o caos que existe em decorrência do combustível barato. Os carros fazem filas quilométricas nos postos, aproveitando o mísero valor da energia fóssil por lá. 

O clima a partir de Pacaraima ficou muito propício ao pedal, com uma temperatura em torno de 23°. De qualquer forma as grandes subidas não pararam. 

A cada quilômetro que pedalávamos, subíamos mais. Um dos grandes obstáculos do dia foi uma serra interminável. Nela chegamos a 1400m.
E mais uma vez, quando precisamos, encontramos pessoas dispostas a ajudar. Mais uma vez ganhamos gelo, suco, refrigerante e água. 

Após chegar nessa altitude, “despencamos” ladeira a baixo. Acho que foram uns 10 minutos de descida a 64 km/h. Já era essa a maior decida em expedições. 

Em vários outros pontos já tínhamos visto o Monte Roraima, bem de longe. A cada momento que íamos chegando ele ficava maior, e maior. Essa foi a nossa primeira visão real dele, onde começávamos a ver realmente a sua grandeza. 

O cenário mudou muito a partir de Santa Elena. Começamos a ver belos campos, que formam a Gran Sabana Venezuelana.

A partir desse momento o Monte Roraima passou a nos fazer companhia, sempre como pano de fundo (o impressionante é que ainda estamos há três dias do Monte). 

Pedalando um pouco mais, logo chegamos ao nosso ponto final do dia, a vila de São Francisco. Em São Francisco muitos ganham a vida com a venda de suvenirs na entrada do monte. Todos com base nos cristais e pedras encontradas lá. É a partir dessa comunidade que se tem acesso à entrada. 

Depois de contemplar um maravilhoso pôr-do-sol, resolvemos parar em um dos restaurantes, à beira da estrada, bem na entrada do parque. 

Em todos os locais que visitamos, seja no Brasil ou Venezuela, sempre procurávamos experimentar os pratos da terra. Em Santa Elena e São Francisco não foi diferente. O prato mais pedido era o Pabellón Criollo (o Thysga adorou!), que por sinal é delicioso! Comemos também um peixe chamado Laulau, que tem um sabor simplesmente fantástico. 

Seguimos para o nosso hotel que ficava atrás de uma gafieira legitimamente venezuelana, onde só tocava regaton (ritmo local). Nessa noite, conhecemos de fato o nosso guia, o venezuelano Otávio (Otávio foi um dos grandes nomes dessa expedição). 

Acordamos bem cedo no dia seguinte. Ele prometia muito e já tinha iniciado com coisas boas, como a chegada do nosso 12º e 13º homem (Taluí e Marcelo Biker), e também a nossa entrada no Parque Monte Roraima, saindo em definitivo do asfalto. 

Um café da manhã legitimamente venezuelano foi servido no mesmo restaurante do jantar anterior. Com o café, acompanhava uma espécie de pão de milho com ovo, chamada de Arepa, muito saboroso e nutritivo. 

Não faz muito tempo, um grande amigo me disse que temos que buscar sempre um degrau a mais daquela meta que foi estabelecida, que sempre temos que colocar, digamos, aquela “cenoura” além do que buscamos.

Ao redor do Monte Roraima existiam muitos outros, digamos, “legumes” (montes), muito belos também. Mas eu nem sabia, e há muito tempo atrás eu fiz do Monte Roraima a minha grande “cenoura”. 

Ao adentrar no parque, passei a ver a minha grande “cenoura” bem na minha frente. Os três anos se tornaram alguns dias. E, ainda, naquele momento jamais poderia imaginar a sensação de estar lá no topo, a 2700m de altura, com a minha bike em punho. 

Nosso objetivo estava bem a nossa frente. Mais alguns dias e estaríamos lá, no seu topo!

Aqui tudo é muito grande. Parecíamos grãos de areia diante de toda essa imensidão. 

Depois de um longo dia chegamos ao nosso destino, em Paraitepuy, que apelidamos, carinhosamente, de Vila dos Smurfes. Um pouco antes de chegar tomamos a última coca-cola, dos próximos seis dias. Por mais quente que estivesse (a coca-cola), não fazia nenhuma diferença naquele momento.

Nesse ponto a natureza nos privilegiou com uma das mais belas visões do mundo. Ficamos contemplando por horas o Monte nesse ponto. O reflexo do sol era o “holofote” perfeito para o desfecho do dia.

O pernoite na Vila dos Smurfes foi tranquilo. Armamos as nossas barracas de baixo de uma enorme estrutura de ferro, coberta de cimento, nos abrigando de uma eventual chuva. Depois da refeição, ficamos ao relento e tentando imaginar como seria o próximo dia. 

Logo bem cedo, tomamos um bom café para nos esquentar do frio da manhã. Assim que saímos da vila, na primeira descida, houve um pequeno acidente com um dos integrantes, mas sem gravidade nenhuma para o piloto. A bike avariou bastante na roda dianteira, dando um bom trabalho para desempenar manualmente. 

Seguimos por um caminho com uma subida bem acentuada. No topo, alcançamos os 1400m (maior altitude até aquele ponto na expedição). 

De Paraitepuy ao Acampamento Militar, que era o nosso destino do dia, foi o período de pedal mais longo que eu já fiz na minha vida. Eram pouco mais de 200 km, que fizemos em quase 10 horas.

Antes do acampamento, paramos na vila próxima ao rio Tek. 

Lá comemos um salgado a base de macaxeira com recheio de frango chamado pollo, feito pelos índios locais (estranhamente, não vimos nenhum frango por lá...). 

Do rio Tek até o Acampamento Militar ainda tínhamos muitas horas de pedal, em uma quilometragem bem curta. Dessa maneira podemos perceber a dificuldade do trajeto e o ritmo que 

Ultrapassamos a linha da proa do Monte Kuketanam, o vizinho um pouco menos famoso que o Roraima, mas também de uma beleza sobrenatural.

A nossa busca pelo Acampamento Militar demorou horas, até que o nosso guia, o Otávio, nos confirmou que já estávamos nele. Confesso que de início foi meio decepcionante. Todos nós pensávamos em avistar uma tenda do exército, com alguns homens de alguma infantaria venezuelana. Que nada! Era apenas uma clareira com restos de cinzas da fogueira de algum outro grupo que pernoitou lá. Mas a partir daquele momento não seria mais o Acampamento Militar, e sim, o da EART. 

A noite, como sempre, foi de muita brincadeira de uma barraca a outra. O dia seguinte era muito esperado por todos. Era a hora de deixar as bikes e partir para a etapa de trekking, ou seja, iríamos começar a subir o grande paredão do monte. 

No outro dia cedo, partimos. Eu levei minha bike que foi amarrada na minha mochila de hidratação, balançando a todo o momento. Com esse procedimento eu não pude mais fazer fotos para não desperdiçar energias, afinal, a minha máquina estava na bolsa do guidão. 

Chegamos ao acampamento base e começamos a parte mais difícil, a de “escalaminhar” ( escalar caminhando, usando as pedras como degraus e se puxando nos galhos). A bike nas minhas costas agarrava em algum galho ou batia em alguma rocha, mas sempre tinha alguém atrás de mim para desengatar. 

A cada “degrau” a altitude aumentava e, com isso, o ar ficava mais escasso e a narina começava a arder bastante.

Depois de cinco horas de subida, um enorme desgaste físico, um frio que beirava os 6° e uma paisagem belíssima vista lá do alto (uma das mais belas do mundo), chegamos ao topo! 

Nesse momento eu sentei em uma rocha e, ao mesmo tempo que fiquei vendo o restante do grupo subir, fiquei imaginando a tamanha grandeza daquela conquista, o que a bicicleta tinha me proporcionado.

E isso por sermos o primeiro grupo a levar uma bike ao topo do Monte Roraima, coisa que parecia ser impossível, até aquele momento. 

A tamanha beleza no topo é inimaginável. O visual é completamente diferente de tudo que já tínhamos visto. 

No topo, o tempo é muito instável e no momento da nossa chegada fechou geral. A temperatura desceu mais. Durante a noite beirava 0°. 

Cerca de 200 pessoas estavam no topo, e por esse motivo, não tivemos como ficar nos chamados “hotéis”, que são grutas. Tivemos que armar o acampamento a esmo. Na madrugada, o vento e a chuva castigaram bastante as nossas barracas. O local onde estávamos virou uma lagoa e começou a entrar água nas barracas.

Foi uma correria em plena madrugada. Alguns tiveram que sair da barraca e se abrigar nas cavernas próximas, completamente encharcados. 

Na manhã do dia seguinte pudemos ter uma visão do estrago no local. Por sorte, o nosso equipamento não molhou. Nossas barracas pareciam manchas de tinta no chão. 

Depois de quase tudo organizado, tínhamos que partir para o nosso último objetivo da expedição: chegar até a tríplice fronteira (Brasil, Venezuela e Guina). 

Foi uma caminhada deslumbrante. O Monte Roraima é um platô imenso, com cerca de 12km de uma extremidade a outra. Por muitas vezes tivemos que escalar as rochas, atravessar pequenos córregos, passar por baixo de grandes rochas, pequenos canyons, etc. 

Nossa primeira parada turística foi o Vale dos Cristais, aquilo lá é místico, sem igual. Você vê cristais brotando das rochas, virando um imenso tapete branco.

Mais uns 10 minutos de caminhada e chegamos finalmente na tríplice fronteira. Estávamos todos felizes, tanto tempo para chegar lá. Foi um momento impar. A tríplice fronteira foi contemplada de todas as formas, seja no lado do Brasil, da Venezuela ou da Guiana. 

Após, no caminho de volta, ainda tínhamos uma parada para fazer. Pela sua beleza, o El Fosso é uma parada praticamente obrigatória no Monte Roraima. Logo você percebe que o local é o coração do Monte. Parece que tudo lá é absorvido por ele. Você sente que lá pulsa uma energia absurda, que te enche de forças para continuar o teu caminho de volta e pensar que você pode fazer muito mais em cima de uma bicicleta (é por isso que eu pedalo!). 

Ainda deu tempo de fazer um lanche, a 0°, antes de voltar às pressas. Faltavam poucas horas para que escurecesse. Quando chegamos ao acampamento, o sol estava findando o seu último brilho no horizonte cinzento do Monte. 

De manhã cedo, percebemos que o dia estava aberto, com uma visibilidade muito boa. Já era hora, porque ficaria bastante perigoso descer nas condições que estava a 2700m de altura, com o vento gelado do Monte Roraima no rosto.

Levar a bike até o topo do Monte Roraima foi a coisa mais difícil que eu já fiz na minha vida. Na descida, considerada a parte mais crítica, foram quase 5h. 

Muito obrigado ao nosso patrocinador: 

Ângela Belei: por tudo e mais um pouco; 
Da Matta: por ter desenvolvido o layout da nossa camisa.

Chegamos ao Acampamento Militar, descansamos um pouco, arrumamos os alforjes e fomos ao encontro do carro de apoio. Foram mais algumas gratificantes horas de pedal. 

Vamos continuar tendo sonhos sempre. Após o Monte Roraima, podemos ter a certeza que qualquer outro sonho pode ser alcançável!

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Dilamar LEWISKI

27/04/2014 às 23:46

Morei por 10 anos em Boa Vista-RR. Fui duas vezes ao Monte Roraima (a pé) e algumas dezenas de vezes ao Way Tepuy (Serra do Sol de moto). Já fui de bike também até o rio Tek, de onde voltamos por não estar com equipamentode camping (não era nosso objetivo). Sua expedição foi FANTÁSTICA! Só os 220km de Boa Vista até Pacaraima já são uma grande vitória.
Duas correções: na Vila Surumú, a aldeia indígena é Macuxi. E de Paraitepuy até o Acampamento Militar são 20km ("200km" no texto foi erro de digitação).
No mais, me senti junto ao grupo em cada linha. Meu filho tem 8 anos. E vou levar ele até o topo, e vamos de bike até o Acampamento Militar e acampamento no 1º dia na Base.
Essas aventuras, planejadas, são o que ficam na nossa história. SHOW D+!!!!!
LEWISKI - inalewiski@bol.com.br
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