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Expedição de Inverno

Brasil, Uruguai e Argentina.

Revista Bicicleta por Nelson Neto
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07/11/2012
Expedição de Inverno
Foto: Marco A. O. Brandão

"Viaje segundo seu projeto próprio, dê mínimos ouvidos à facilidade dos itinerários cômodos, aceite enganar-se na estrada e voltar atrás, ou, pelo contrário, persevere até inventar saídas desacostumadas para o mundo. Não terá melhor viagem... A felicidade tem muitos rostos. Viajar provavelmente é um deles. Entregue as suas flores a quem saiba cuidar delas, e comece. Ou recomece. Nenhuma viagem é definitiva." José Saramago.

As sábias palavras de Saramago expressam o resultado de nossa última viagem. Uma aventura sob duas rodas. Acredite, é possível viajar de bicicleta, esse instrumento utilizado como meio de transporte no cotidiano de muitos, também pode lhe proporcionar momentos inesquecíveis pelas estradas. E foi justamente isso que nós encontramos na Expedição de Inverno

2010 - PR, SC, RS, Uruguai e Argentina.

Não foi a primeira viagem que fizemos de bicicleta, já estivemos pedalando por outras regiões do país e até mesmo no exterior, conhecendo lugares, culturas, histórias e sua gente. Proporcionamos as oportunidades e buscamos aproveitar cada instante do que se tornou um estilo de vida. Talvez seja por isso que sempre que chegamos de uma viagem já estamos planejando outra.

A última viagem foi planejada em praticamente dois meses e pretendia reunir um grupo de amigos que se conheceram a partir de uma comunidade na internet relacionada ao cicloturismo, modalidade do ciclismo que consiste em utilizar a bicicleta para viajar. O local de encontro e saída foi a capital paranaense, Curitiba. Nosso destino: litoral e serras catarinenses, cânions em Cambará do Sul no estado do Rio Grande do Sul, local onde também visitaríamos a conhecida região serrana de Gramado e Canela antes de descermos para o extremo sul do país e consequentemente atravessar a fronteira com o Uruguai, finalizando em Buenos Aires, Argentina.

Em razão do escasso tempo disponível, algumas pessoas se dispuseram a fazer pelo menos uma parte do roteiro. Desse modo, nossa intenção era promover um encontro histórico, mas nem tudo saiu como o esperado. O mau tempo, incluindo muita chuva e temperatura extremamente baixa afastou a maioria daqueles que tinham confirmado presença. A saída contou apenas com cinco participantes: eu, Nelson Neto (Foz do Iguaçu/PR),  Aramis (Paranaguá/PR), Marco (Itanhaém/SP), Rômulo (Colombo/PR) e Tui (Curitiba/PR).

Como o nome próprio da expedição sugere, estávamos preparados para enfrentar as baixas temperaturas do inverno rigoroso da região sul. Todavia, alguns não esperavam a combinação de frio e chuva, situação encontrada durante todo o primeiro dia de viagem que teve como destino, Barra Velha, litoral de Santa Catarina. A previsão também não era animadora para os próximos dias, o que fez Rômulo e Tui desistirem da aventura. Aramis, responsável pela elaboração do roteiro, por sua vez, teve problemas no câmbio traseiro da bicicleta, abortando a viagem em Joinville. Realmente as condições climáticas não estavam favoráveis para pedalar, muito menos para apreciar e conhecer os lugares.

Aí começou outra viagem. Sem dar ouvidos aos itinerários cômodos e com muita perseverança, continuamos a expedição, mas antes fizemos um roteiro alternativo, deixando para conhecer as serras catarinenses e gaúchas em uma outra oportunidade. O motivo era simples: com o tempo fechado não seria possível aproveitar o visual das serras. O novo planejamento consistia em chegar ao Uruguai pedalando pelo litoral.

Somente com muita persistência para superar três dias seguidos debaixo de muita chuva e frio. Pedalamos próximo das famosas praias catarinenses sem poder aproveitar muito em razão do tempo ruim. Apenas no quarto dia de viagem o sol apareceu, nos permitindo admirar belas paisagens.

A partir de Laguna/SC, houve uma notória mudança no cenário. A região é considerada de várzea tropical, que se destaca pelo cultivo de arroz presente por vários quilômetros, oscilando entre as muitas indústrias de cerâmica e olarias nas proximidades da cidade de Tubarão. Não demorou e chegamos ao território gaúcho.

No Rio Grande do Sul, seguindo pela Estrada do Mar após Torres e na BR 101 depois de Osório, as surpresas foram consecutivas. Em nenhuma outra viagem a fauna e flora ricas se fizeram extremamente presentes. Com um ecossistema  apresentando uma diversidade enorme de espécies, sobretudo, de pássaros, a jornada ficou ainda mais interessante. O sul do estado se tornava cada vez mais deserto, poucos povoados habitam regiões aparentemente inóspitas em meio a um ambiente campestre e litorâneo. Tudo isso acompanhado de muito frio.

Com o tempo disponível curto (Marco que é comerciante, tinha apenas 10 dias de folga), não poderíamos nos dar ao luxo de esperar o clima melhorar. Assim, enfrentamos quase todas as condições possíveis na estrada.

Contrastes sociais são perceptíveis durante o caminho. As diferenças não são uma particularidade dos grandes centros urbanos do país. A discrepância, de maneira explícita é separada apenas pelo ponto tênue da rodovia, onde se encontram os ricos com suas belas e luxuosas mansões de um lado, e do outro pobres vivendo em barracos sem a mínima infraestrutura de uma habitação.

Essa triste realidade não pode ser negligenciada. As autoridades precisam tomar as providências cabíveis, e cada um de nós também precisa, através das atitudes do cotidiano, fazer a diferença.

O Rio Grande do Sul nos proporcionou conhecer outras grandiosidades como o Parque Eólico de Osório, a maior usina eólica da América Latina com suas 75 torres. Logo depois, estivemos próximos da famosa e histórica Lagoa dos Patos, local estratégico na Revolução Farroupilha, ocorrida no estado e até hoje muito lembrada pelos gaúchos. Ela também é a maior laguna do Brasil. Tivemos o prazer de atravessá-la de balsa entre São José do Norte e a cidade de Rio Grande, onde a laguna faz sua ligação com o mar.

A rodovia BR 471 também é conhecida como Rota Extremo Sul, nome sugestivo por ser caminho à pequena cidade do Chuí, ponto mais ao sul do país, muito conhecido, afinal, quem nunca ouviu a expressão do “Oiapoque ao Chuí”, alusiva aos pontos extremos do litoral brasileiro. Com muita força de vontade continuamos em frente na intenção de percorrer mais de 200 km até a divisa entre Brasil e Uruguai. Agora além das baixas temperaturas, vínhamos superando dores físicas que faziam o rendimento da pedalada ser menor.

Neste último trecho em território nacional, pedalamos em reta plana, mas não de forma tranquila. O vento contra exigiu preparo físico e também psicológico, faltava pouco e não poderíamos desanimar neste momento. Ainda ingressamos na Reserva Ecológica do Taim, onde é possível se encantar com a diversidade de animais. Avistamos um bando muito grande de capivaras que, próximas umas as outras, buscavam se aquecer do rigoroso inverno acompanhado de chuva. A menos de cinco metros uma capivara atravessou na minha frente, assustada com nossa passagem, e com isso nos assustou também.

Quanto mais avançávamos para o sul, a intensidade do frio aumentava. O segredo é estar bem agasalhado, e isso não significa colocar inúmeras blusas, mas sim uma roupa específica. Ambos estávamos utilizando a chamada segunda pele - camiseta que evita a perda de calor do corpo, uma vez que a peça absorve a umidade, deixando o corpo seco. Movimentar o máximo possível também ajuda. Pedalando não sentíamos a temperatura baixa com tanta intensidade, contudo a cada parada o corpo rapidamente esfriava.

Finalmente chegamos ao Chuí, após nove dias de viagem e 1255 km pedalados. Marco conseguiu mais alguns dias de folga no trabalho e seguimos para Montevidéu, capital uruguaia. Antes de atravessar a fronteira, aproveitamos pra conhecer um pouco dessa diferente cidade.

A divisa dos países é por fronteira seca, ou seja, é uma extensa avenida que separa Brasil e Uruguai. O que movimenta as duas cidades, incluindo o Chuy (lado uruguaio), é o comércio, e isso torna o Chuí brasileiro um local diferente de todos que já conhecemos, onde os estabelecimentos têm fachadas nos dois idiomas (português e espanhol), pois brasileiros e uruguaios caminham por ambas as cidades. Em um pequeno mercado onde fizemos compras, os preços estavam em peso uruguaio, moeda daquele país, de onde também era o seu proprietário. Até mesmo eu, morador de Foz do Iguaçu/PR, que é tríplice fronteira,fiquei surpreendido.

Por ser um país pertencente ao Mercosul, não necessitamos mais do que a identidade para ingressar no Uruguai. Registramos nossa entrada no país e consequentemente ganhamos a permissão de turista para estarmos legalmente em território uruguaio, sem burocracia. Planejamos percorrer o litoral até a capital, Montevidéu.

No Chuy algumas pessoas nos indicaram lugares imperdíveis que não poderíamos deixar de conhecer, entre eles Santa Teresa em Castillo e Punta del Diablo. No primeiro vimos a mais expressiva fortaleza do país, construída no século XVIII, contendo ainda um museu histórico militar. Um lugar imponente. Em Punta del Diablo, conhecemos um povoado de pescadores cerca de cinco quilômetros distante da rodovia principal, litoral do Uruguai.

A cidade litorânea  nos preparava uma inesquecível surpresa. Foi neste local que tivemos um encontro inesperado e magnífico com um pinguim, possivelmente um filhote que perdido de sua família acabou ficando sozinho e parando nas rochas da praia. Da mesma forma avistamos também um leão-marinho. Foi uma felicidade enorme poder ver animais raros de serem encontrados no Brasil. Sensação indescritível.

Ainda no litoral, fizemos um passeio de safári até Cabo Polonio, onde está localizada a maior colônia de leões-marinhos das Américas. Esses animais, que fogem das águas geladas da Antártida, repousam e se esquentam de forma tranquila sobre as rochas da praia. O vilarejo que compõe Cabo Polonio é pequeno, poucas pessoas residem fixamente no lugar que carece de energia elétrica, mas mantém um ar naturalista pelas poucas ruas que circundam o local.

O farol de Cabo Polônio, um dos destaques, com gerador próprio de energia e 40 metros de altura, é indispensável para os navegadores da região. É possível subir seus degraus  que levam ao topo do farol para apreciar as pequenas ilhas, os leões-marinhos e praticamente todo o vilarejo. Um dos melhores momentos da viagem com certeza foi visitar Cabo Polonio.

Continuamos a viagem em direção a Montevidéu em meio a diversas rodovias, com seus mais diferentes relevos e terrenos, nos deparando com a hospitalidade e educação do povo uruguaio. Assim chegamos na badalada e luxuosa Punta del Este, seus grandiosos prédios, hotéis e cassinos. Mas o que não poderíamos deixar de registrar era a famosa La Mano, obra do chileno Mario Irrazábal - cinco dedos saindo da areia, representando "a presença do homem surgindo na natureza".

Em treze dias de muitas aventuras finalmente chegamos a Montevidéu com uma temperatura de 9 ºC às cinco horas da tarde. A viagem toda foi muito fria, mas somente em relação ao clima: estávamos com o espírito renovado, felizes pelas belezas que encontramos e pelo aprendizado adquirido.

Seguimos para Buenos Aires e ainda pedalamos pelas ruas movimentadas da capital argentina. Conhecemos a sede presidencial, a famosa Casa Rosada, e a Praça de Maio, palco de manifestações políticas onde se encontravam frequentemente as mães de filhos desaparecidos na época da ditadura argentina, em busca de justiça.

Diante do movimentado centro com sua arquitetura moderna, admiramos a Catedral e seguimos para o Obelisco, construído para comemorar os 400 anos da fundação da cidade.

Nossa viagem finalizou com exatos 1680 km de Curitiba até Buenos Aires, passando pelo Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina. A Expedição de Invernoestava concluída com sucesso e sem dúvidas entrou para a história como uma das melhores aventuras com “lembranças que guardarei até quando minha memória permitir e uma experiência que é pra sempre, aprender a valorizar a vida e a quem amamos.”

O sucesso da viagem talvez não fosse alcançado sem uma preparação física, psicológica e também um planejamento da bagagem. Roupas, ferramentas, fogareiro, comida, barraca, saco de dormir, isolante térmico, cobertor de emergência, entre outros itens indispensáveis para sua autonomia em uma expedição desse porte, uma vez que muitos lugares são inóspitos e a qualquer emergência você estará preparado para superar os obstáculos. Agradecemos a todas as pessoas que de alguma forma nos apoiaram para a concretização de mais uma viagem inesquecível.

“Hasta la Victoria Siempre”

 

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