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Estilhaço na estrada

Tom Simpson no Mont Ventoux

Revista Bicicleta por Eduardo Sens dos Santos
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28/08/2017
Estilhaço na estrada
Foto: wikimedia.org

Tom Simpson foi um dos mais famosos e bem-sucedidos ciclistas britânicos de todos os tempos. Tom Simpson foi um cara simpático, que levava o estilo inglês ao limite ao cruzar as pernas para o chá. Um atleta para quem você imediatamente começaria a torcer no meio do pelotão. Sorrisão aberto, olhar sincero e pronto para uma brincadeira. Tom Simpson foi um sujeito legal. Mas Tom viveu numa época em que o ciclismo não era um esporte limpo. Tom morreu querendo pedalar mais do que suas pernas conseguiam. Tom morreu quando seu coração, forçado a bombear mais sangue do que conseguia, parou de bater.

Tom Simpson. Tom Simpson. Tom…

A história é triste e acho melhor você se aconchegar no sofá. Mas antes de contar como viveu e morreu esse ciclista fanfarrão e cheio de malandragem, eu preciso contar a você a história de uma montanha. Da montanha. Do Mont Ventoux.

O Mont Ventoux nem é a montanha mais alta da Europa. Tem 1.912 metros de altitude e apelidos nada convidativos. Besta da Provença é o que eu mais gosto. Mas pode ficar com Gigante da Provença ou Montanha Careca… Você é que decide. A inclinação média na subida principal é de 7,43%, com quatro trechos de graduação superior a 10%. Só que o problema é outro. Diga em voz alta o nome: Ventoux… Sim. O problema é o vento, o vento Mistral, que parece ter escolhido a montanha como seu bolo de aniversário e posto uma velinha bem lá no alto. Em 240 dias por ano o Mistral sopra ventos superiores a 90 km/h. A máxima já registrada foi de 320 km/h. Até para carros o vento pode ser causa suficiente para o fechamento das estradas que cruzam o topo.

Desde 1951, o Mont Ventoux já fez parte do Tour de France dezesseis vezes. Numa delas, a vitória foi de Eddy Merckx, o Canibal, o maior ciclista a já pisar na Terra. E ele também sofreu. Em 1970, teve que ser socorrido com oxigênio ao passar da linha de chegada instalada no alto da montanha. Eros Poli, um ciclista italiano que mais parecia um nadador, com seus quase dois metros de altura, também teve uma vitória memorável. O ano era 1994. Sua bem-sucedida fuga o deixou com 20 minutos de vantagem para o segundo colocado aos pés do Mont Ventoux. A subida tem 21 km. Eros perdia ao longo da subida um minuto por quilômetro. O pelotão vinha furioso, com os ciclistas se revezando para vencer o vento. Eros estava sozinho. E subiu sozinho. Ninguém acreditava, mas Eros venceu sozinho. Não foi preciso discussão na comissão técnica naquele ano. O prêmio de ciclista mais combativo foi para o italiano. Poli estampou a capa de todos os jornais nos dias que se seguiram.

O ciclista e a montanha — não ouse contestar isso — são dois seres vivos. Ela é pura rocha. Luta com todas as suas forças contra ele, que insiste em montá-la, em escalar-lhe os flancos, dominá-la. É feita de granito, terra, areia e vento, frio e calor num mesmo dia, e inclinações desumanas. Ele, coitado, o ciclista, é só tecido mole. Ossos no máximo, mas setenta por cento de água e o resto de músculos, pele, gordura. E como arma tem apenas uma bicicleta de menos de sete quilos debaixo das pernas. É uma luta que já começa injusta. Deviam proibir esse tipo de coisa. Mas não proíbem. Graças a Deus. Porque nós continuamos apaixonados por duelos entre montanhas e ciclistas. Continuamos apaixonados por ciclismo e principalmente pelo ciclismo nas montanhas. Pelo desafio humano colossal que é um homem vencer uma centena e meia de outros atletas profissionais numa corrida de mais de duzentos quilômetros com montanhas como o Mont Ventoux de grand finale.

Mas o Mont Ventoux também joga pesado. Tom Simpson é o caso mais emblemático. Já consagrado e querendo se aposentar com estilo, Tom decidiu com sua equipe que naquele Tour de 1967 fecharia seus oito anos como profissional levando para casa uma camisa amarela, de líder da etapa no Tour, ou então no mínimo o terceiro lugar na classificação final. E para isso a equipe se preparou e mirou no Mont Ventoux como um dos pontos estratégicos para o objetivo. Se fosse bem-sucedido, Tom teria mais um ano de carreira em criteriums, provas de um dia de duração com boa remuneração paga só pela sua participação.

Não que dinheiro lhe faltasse. Tom já tinha o bastante. Depois dos anos iniciais de penúria como ciclista profissional, desfilava carros esportivos e ternos caros pelo mundo das celebridades. Conta o amigo Brian Robinson, aliás, que ambos moravam na periferia de Paris, num apartamento com uma mesa, duas cadeiras, uma cama e uma geladeira, quando Tom ganhou o Tour du Sud-Est, uma prestigiada corrida de estágios da França. Ao chegar em casa com o dinheiro, Robinson o aconselhou a colocar tudo no banco. Quando Robinson voltou para casa, depois de mais uma corrida, encontrou um Aston Martin estacionado na frente. Tom Simpson arreganhou o sorriso e então declarou: “nós ainda moramos com uma mesa, duas cadeiras, uma cama e uma geladeira; mas agora temos um Aston Martin na garagem!”. E os dois caíram na gargalhada juntos.

Depois da primeira semana do Tour de France de 1967, Tom Simpson, que estava na sexta posição geral, começou a passar mal. Sem apetite, não se alimentava direito e pedalava no limite de suas energias. Daniel Dousset, seu empresário, o pressionou: “precisamos de resultados”. Tom explicou que estava com diarreia. Alguma infecção alimentar tombara o ciclista.

Tom conseguiu concluir as etapas seguintes, mas a décima terceira etapa, aquela para a qual haviam treinado, com 211 km, cruzaria o Mont Ventoux e terminaria em Carpentras. O médico da equipe alertou para os problemas decorrentes do forte calor para alguém já debilitado como Tom, mas ele não ligou. Nitidamente fatigado, com olheiras, um repórter se aproximou e perguntou se ele sofria demais com o calor. Tom, brincando, respondeu: “não é o calor; é o Tour”.

É o Tour, é a montanha, é a gana pela vitória; é o estilhaço na estrada. Tom, sem qualquer chance, resolveu usar anfetaminas na esperança de ganhar mais fôlego na subida do Mont Ventoux. Para potencializar o efeito, levou consigo uma garrafinha com conhaque. Anfetaminas, mal sabia ele naquela época, ainda mais quando associadas a álcool, se tornam poderosos diuréticos. Sem ingerir líquidos adequadamente, com o vento no rosto beirando os trinta e cinco graus e descontrolado pelas anfetaminas, Tom lesmava montanha acima até que, a poucos quilômetros do topo, reduziu vertiginosamente o ritmo e passou a andar em zigue-zague, cambaleando em cima da bicicleta.

A equipe se aproximou e tentou dissuadi-lo de continuar. Mas Tom se negava. Pedia apenas para que as presilhas da sapatilha fossem desamarradas. “Put me back on my bike!”, coloquem-me de volta na minha bicicleta, teria dito Tom. “Vamos, vamos, vamos”, ordenava à equipe.

E foram suas últimas palavras. Tom — bateu seu coração pela última vez. E parou.

Simpson pedalou por mais quinhentos metros e só não caiu com violência no chão porque três espectadores o seguraram e o puxaram para fora da estrada. Inconscientemente, travou as mãos no guidão e não soltou. Os médicos foram acionados e um enfermeiro tentou reanimá-lo com respiração boca a boca e oxigênio, sem resultado. Quarenta minutos se passaram até que um helicóptero o levou ao hospital e lá, às 17 h 40 min, foi declarado morto: parada cardíaca por exaustão. Dois frascos de anfetaminas vazios foram encontrados no bolso de sua camisa de ciclismo. Poucos metros antes do cume do Mont Ventoux, a desidratação, o abuso de drogas e a gana inescrupulosa pela vitória vieram cobrar seu caro preço. E conseguiram. Levaram a vida de um dos maiores ciclistas que o Reino Unido conseguiu produzir até hoje.

Tommy, como era chamado por amigos, “pedalou para a morte no Tour de France, tão dopado que não percebeu ter chegado ao seu limite de resistência. Morreu no selim, lentamente asfixiado pelo intenso esforço numa onda de calor, com anfetaminas e álcool”, registrou o Daily Mail do dia 31 de julho de 1967.

Memorial para Tom Simpson

No funeral em Harworth, Inglaterra, cinco mil pessoas choraram a morte do ciclista, que, apesar das drogas, até hoje é lembrado pelos grandes feitos: foi Campeão Mundial e Olímpico e exímio escalador. Anualmente, desde a tragédia, há cinquenta anos, uma corrida em sua homenagem é realizada. A família e os fãs instalaram um monumento no exato local de sua morte, no Mont Ventoux, venerado desde então pelos ciclistas do mundo todo. Ninguém sabe por que razão — os ventos não falam, mas se vingam —, o fato é que em 2013 o Mistral soprou tão forte que derrubou o monumento sobre a neve do inverno. Quem duvida?

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