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Esqueceram da Bicicleta

A mídia não valoriza a bicicleta como veículo de transporte ou modalidade esportiva, mas alguns ciclistas também se esquecem da magrela.

Revista Bicicleta por Anderson Ricardo Schörner
04/09/2013
Esqueceram da Bicicleta
Foto: Thinkstock

Muitas vezes notamos o descaso com a bicicleta e com a implantação da cultura da bicicleta no país através da mídia. 

No quesito mobilidade, poucas vezes os grandes veículos de comunicação tratam da bike como uma das soluções. Recentemente, a Revista Veja publicou uma matéria com 25 razões para sermos mais otimistas em 2013. Uma delas é a estreia do carro elétrico Toyota Prius. Até 2012, apenas três modelos de carros elétricos existiam no Brasil, que venderam pouco mais de 300 unidades. O Prius chega ao país no valor de R$ 120 mil, e é apresentado como um motivo de otimismo para o ambiente.

Nada se falou da tendência em retomar o uso da bicicleta. Também, não foi mencionado que apesar de poluir menos, o Prius ainda continuará a ser um carro nas ruas afetando a mobilidade urbana. E, diga-se de passagem, um carro para poucos! 

Vemos cada vez mais a bicicleta inserida no contexto urbano. Grandes empresas, como bancos e outras organizações, veiculam anúncios em que aparecem bicicletas, mas geralmente no contexto de lazer. A bicicleta como meio de transporte ainda sofre um certo desprezo da mídia, embora note-se uma crescente acolhida pela população. Há várias teorias sobre esse desprezo, como a influência de grandes corporações do setor automotivo e a cultura do carro, que relaciona o automóvel a sucesso e status. Ter um bom carro não é um problema, ninguém precisa se sentir culpado por poder ter um: o problema é quando todos resolvem sair às ruas juntos; quando se usa ele para tudo; quando ele faz às vezes das pernas.

Na questão esportiva, o futebol é de longe o esporte mais aclamado e popular do país e de boa parte do mundo. A mídia, logicamente, dá maior destaque para essa modalidade. No programa Globo Esporte, o jornalista Tiago Leifert gerou polêmica por isso. Depois de apresentar o caso de doping de Lance Armstrong, ele disse: " vamos falar de esporte de verdade agora, vamos falar do nosso futebol", e partiu para os assuntos do campeonato paulista. Muitos ciclistas interpretaram que Tiago menosprezou o ciclismo, enquanto o apresentador se defende dizendo que ele se referiu ao fato do doping ser uma mentira. 

Se a mídia não dá a devida atenção à bicicleta, cabe um lembrete: os ciclistas também não podem se esquecer da magrela. É bonito ver como o movimento é forte e unido, como os ciclistas criam empatia uns pelos outros, se ajudam e buscam soluções que beneficiem a todos. O termo ciclista passou a se referir a pessoas que defendem uma causa e um estilo de vida. Mas isso deve ser feito enaltecendo as virtudes do uso desse modal, e não assumindo atitudes ofensivas e desrespeitosas com quem, por qualquer motivo, não compartilha da mesma filosofia. Se Tiago Leifert foi infeliz na sua colocação, por exemplo, publicar mensagens de xingamentos nas redes sociais contra ele também é uma ação infeliz e não contribui em nada para a popularização e acolhida da bicicleta. Só aumenta a distância entre a bike e outros modais de transporte e esporte. É uma atitude de quem esqueceu da bicicleta.

Um exemplo de resposta produtiva e inteligente dada a Tiago foi o vídeo produzido pelo piloto Renato Rezende, do Bicicross, convidando-o a conhecer um pouco melhor a modalidade, sem deixar de elogiar o trabalho que o Tiago tem feito, e que realmente tem agradado a muitos.

Cabe salientar que é uma pena que o ciclismo só seja lembrado nos programas esportivos em casos extremos e sensacionalistas, como esse do doping. Como já publicado em outras edições, a máfia do doping é poderosa e cruel. Muitas vezes, os atletas se sentem pressionados a praticá-lo. A obsessão pela vitória está bem além da superação pessoal e prática sadia de um esporte.

É correto punir Armstrong, de maneira que os demais ciclistas tenham receio e não usem meios ilícitos para levar vantagem. Homens e mulheres buscam, sem apoio e sem infraestrutura, treinar e ainda conciliar sua vida de atleta com o trabalho, família etc. Tanto esforço para, de repente, ver a história de um herói se diluir e manchar o esporte que praticam.

Entretanto, será que o pelotão contra o qual Lance corria estava limpo? Com todos na mesma condição, será que ele não teria sido tão bom quanto foi? Quem usa a bike como lazer, como meio de transporte, nem precisa se envolver nessa polêmica, mas na questão da competição, as exigências são mais cruéis. 

Acreditamos que a história esportiva de Lance fica abalada, mas ele não cometeu apenas erros. Seu exemplo de luta contra o câncer foi comovente, a vitória foi inspiradora. O ato de iniciar a Fundação Lance Armstrong foi nobre e continua a ajudar inúmeras pessoas. Sua história de vida e sucesso no esporte contribuíram para o ciclismo, antes do doping vir à tona. Quantas pessoas se espelharam nele para começar a pedalar? Isso não se desfaz agora.

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