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Elas estão invadindo as trilhas

A significante adesão das mulheres ao pedal é uma crescente no Brasil e no mundo. Para cuidar do corpo e da mente, como forma de reencontrar a autoestima e a confiança, ou como uma simples opção de aventura, elas estão literalmente invadindo as trilhas e as cidades com suas bicicletas.

Revista Bicicleta por Anderson Ricardo Schörner
70.218 visualizações
23/11/2014
Elas estão invadindo as trilhas
Foto: Jake Orness / Specialized

São muitas as referências históricas que relacionam a bicicleta como um símbolo de liberdade para as mulheres. Se, para os homens, a bicicleta era mais um dispositivo que se adicionava a sua já longa lista de utensílios utilizados para o labor ou o entretenimento, para as mulheres, esta máquina de duas rodas representava um veículo com o qual se alcançava um novo mundo, uma nova concepção de vestuário e uma nova interação com a sociedade. A bicicleta mudou a perspectiva pela qual as mulheres enxergavam o mundo, e também de como o mundo deveria as enxergar.

Atualmente, cada vez mais é comum avistar uma mulher sobre uma bicicleta. Rompidas diversas barreiras, quebrados inúmeros preconceitos, elas estão aí, em todas as vertentes ciclísticas, pedalando pelos mais variados fins e para os mais diversos destinos. Embora não exista estatística oficial, mesmo em atividades consideradas radicais, como a prática do mountain biking, um universo ainda dominado pelos homens, é possível verificar um crescimento da presença feminina. Sim, elas estão invadindo as trilhas!

As ciclistas que participaram desta matéria representam, cada qual com seu diferencial, milhares de mulheres que também pedalam. Da esquerda para a direita, e de cima para baixo: Rafaela Lopes, Maria do Carmo Silva Ayres Pereira, Daiane Teresa Almeida, Metoniza Vieira, Luciane Derrico, Simone Seguro, Lindaberg Macêdo, Queli Cordeiro e Soninha Gonçalves. © Fotos: Arquivo Pessoal

Faça chuva ou faça sol

A carioca Rafaela Lopes é um exemplo deste movimento crescente. Ela usa bicicleta nas ciclovias do Rio de Janeiro, mas gosta de pedalar também em estradão de terra e trilhas. “Comecei a pedalar por hobby”, diz, “primeiramente na companhia da minha mãe, mas com o tempo ela já não estava no mesmo ritmo que eu, então, hoje pedalo sozinha”.

Rafaela afirma que pedala todo dia, no mínimo, 15 km. “Meu dia começa ou termina com uma pedalada. Pedalo todos os dias, faça chuva ou faça sol. A bicicleta representa o meu momento comigo mesma, minha atividade física, uma válvula de escape. Aumentou minha relação com a natureza: pedalo admirando o que há em volta e a cada dia fico mais fascinada. O que começou como um hobby virou um vício”, conta a carioca.

A bicicleta representa o meu momento comigo mesma, minha atividade física, uma válvula de escape. © Giant Divulgação

Deserto do Atacama: elas também pedalam lá!

Ao norte do Chile, fronteira com o Peru, está o Deserto do Atacama. As temperaturas variam de 0 °C à noite, aos 40 °C durante o dia. A Cordilheira dos Andes impede a chegada das correntes marítimas do Pacífico, tornando o Atacama o deserto mais alto e árido do planeta.

É nesse inóspito lugar que a paulista Maria do Carmo Silva Ayres Pereira, que hoje mora em Presidente Prudente – SP, teve sua maior experiência ciclística este ano. “Participei do Atacama Challenger, uma competição no meio do deserto para quem adora pedalar e não tem medo de enfrentar um verdadeiro desafio”, diz Maria, que complementa: “foi o mais incrível e inesquecível pedal da minha vida”.

Foram três dias de prova e um segundo lugar na sua categoria, o que apenas comprovou sua paixão pelo pedal. Segundo Maria, “a cada dificuldade superada o pedal fica mais interessante. Além de você fazer amizades e aumentar a qualidade de vida, o exercício físico é algo estimulante, gratificante. A bike permite que você melhore a resistência muscular e respiratória. Depois que você começa nada mais te segura, e cada obstáculo que surge é superado e se torna mais uma vitória conquistada”.

Bicicleta: uma fonte da juventude

Uma característica comum - pode-se dizer natural - das mulheres é o cuidado com a estética, independente das preferências de estilo ou grupo social a que pertença. Foi essa famosa “vaidade feminina” que levou a professora Daiane Teresa Almeida, de Porto Feliz – SP, ao pedal. “Depois do nascimento da minha filha fiquei insatisfeita com uma gordurinha aqui e ali”, revela a paulista, “e também, sempre apreciei atividades ao ar livre. Se o mundo está em movimento, então, porque não desfrutar de tudo isso me exercitando?”

Uma característica comum - pode-se dizer natural - das mulheres é o cuidado com a estética, independente das preferências de estilo ou grupo social a que pertença. ©  Jake Orness / Specialized

Hoje, Daiane pedala junto com um grupo só de mulheres, as “Maritacas”, que todo domingo presenciam paisagens maravilhosas que jamais teriam o mesmo visual com outro veículo. Ela diz: “há cinco anos que pedalo. Além do ciclo de amizades que se forma com o decorrer dos pedais, a bicicleta proporciona a sensação de liberdade e de equilíbrio perfeito entre corpo e mente; é prazeroso e auxilia a manter a forma”.

O apoio imprescindível

Fazer parte de um grupo de pedal feminino, como Daiane e as Maritacas, ou de grupos mistos onde elas pedalam com amigos e companheiros, pode ser um apoio importante para manter a frequência da prática ciclística. Outro apoio importante é o que vem da própria família, como bem menciona Metoniza Vieira, procuradora da Fazenda Nacional em Fortaleza – CE.

Ela diz que começou a pedalar por sugestão do cunhado, que é ciclista há muito tempo, “e depois meu marido, que era sedentário, aderiu ao esporte, facilitando muito o pedal. É ótimo pedalar com seu companheiro, partilhar essa atividade com quem você escolheu para dividir a vida”. O casal planeja realizar viagens de bicicleta e o primeiro projeto é a Travessia dos Andes.

No Quintal do Mundo

Sair de Ushuaia, o Fim do Mundo, e pedalar durante três anos, passando por mais de 20 países até chegar na Índia. Este é o projeto “No Quintal do Mundo”, de Luciane Derrico, em conjunto com seu parceiro Alexandre Garibaldi. O casal de São José dos Campos – SP pretende iniciar a empreitada em janeiro de 2015.

O contato com a bicicleta veio primeiro nas academias, quando Luciane começou a dar aulas de spinning (bicicleta indoor). “Um dia”, conta ela, “um amigo me convidou para participar de uma pequena prova de MTB e de cara já subi no pódio. Fiquei apaixonada pela modalidade e nunca mais parei de pedalar”.

Como preparação para iniciar o projeto, Luciane conta que realizou um cicloturismo de cinco dias pela Serra da Canastra, cadeia montanhosa no centro-sul do estado de Minas Gerais. “Pedalar com peso durante dias seguidos não é fácil e exige preparação”, diz, “mas chegar no Paraíso Selvagem depois desse mega desafio fez todo o perrengue valer a pena”.

Diversão que virou profissão

Sempre que pedalava pelos arredores de Campo Largo – PR, onde mora, ou em cicloviagens com amigos, Simone Seguro levava sua companheira inseparável: a máquina fotográfica. Ela conta: “adorava fotografar os amigos, os lugares e os momentos incríveis que só a bike proporciona. Eu registrava tudo, desde viagens até competições de MTB e Ciclocross nas quais participava, e isso despertou o interesse de muita gente”.

Com o incentivo dos amigos, as fotos viraram um trabalho de divulgação, e assim nasceu o site Esporte na Foto, que hoje está com quase dois anos de existência e já tem muita história para contar e muito trabalho pela frente. O que era diversão – pedalar e fotografar – agora é uma profissão.

Assim como a prática do MTB, esta atividade profissional também é dominada pelos homens, mas a paranaense tem se destacado neste meio. “A bike para mim é um estilo de vida”, diz Simone, “tanto que agora é meu lazer e meu trabalho. Sete dias por semana é bike, seja pedalando, divulgando ou fotografando. É muito bom fotografar um esporte que a gente pratica, porque a gente entende o que a pessoa está sentindo e fica mais fácil transmitir isso na fotografia”.

A bicicleta mudou a perspectiva pela qual as mulheres enxergavam o mundo, e também de como o mundo deveria as enxergar. ©  Jake Orness / Specialized

A vida começa aos 40

Quando uma mulher pedala, ela reafirma sua autoestima e confiança. Foi em busca disso que Lindaberg Macêdo, de Guanambi - BA, reencontrou a bicicleta. “Eu havia entrado para a autoescola”, conta, “mas ficar em duas rodas era um terror para mim. Foi aí que o professor disse que eu devia pedalar para conquistar mais confiança. Mas como pedalar, se eu só havia pegado em uma bicicleta na adolescência?”

Lindaberg comprou uma bike, como o professor a pediu, mas a deixou paradinha na garagem por três meses. “Pesquisei muito na internet e teclei por um bom tempo com Tereza D’Aprile, do grupo paulista Saia na Noite, antes de sair pedalar. O resultado é que montamos um grupo de pedal aqui também, o Saia na Bike, onde eu me juntei a muitas mulheres, e venci meu medo. Conseguimos conquistar o respeito dos motoristas e isso nos deu proteção para os pedais light pela cidade para os iniciantes e nossas apaixonantes trilhas pela região”, lembra.

O detalhe interessante dessa história é que tudo isso aconteceu em 2010, quando Lindaberg já havia passado dos 40 anos. Desde então, foram quatro anos vivendo bicicleta. Segundo a baiana, “esse viver trouxe grandes benefícios, como reencontrar pessoas que não via a mais de 10 anos. Depois que venci o medo, surgiu uma paixão pelos pedais. Passei a usar a bicicleta como meio de transporte e a qualquer hora do dia e da noite já estou equipada com capacete, luvas, óculos e lanternas. Sou radialista e também incluí um quadro no meu programa, o Rádio Bike, em que falo sobre os benefícios de pedalar, as trilhas que grupos realizam na região e notícias diversas sobre a bicicleta. Dizem que a vida começa aos 40, eu acrescento: melhora mais ainda aos 50”.

Nem só de trilhas vive o pedal feminino...

Com apenas 25 anos, Palmas – TO é a caçula das capitais brasileiras, a “Princesinha do Brasil”. Com quase 250 mil habitantes, é a maior cidade do estado de Tocantins. É lá que a educadora física Queli Cordeiro mora a mais de 17 anos. E é lá também que ela se deixa levar pela fluência de sua Speed. Sua última aventura: um pedal de 35 km, sozinha!

Segundo Queli, “Palmas tem tudo para ser a cidade do esporte, principalmente do ciclismo, pois as ruas são planas e o lugar é lindo. Em 2013 comprei uma Speed e com ela descobri que meus limites podem ser superados, que posso ir além, quebrando paradigmas, superando e vencendo obstáculos. Quando estou pedalando, assuntos de trabalho, estresse e outros problemas parecem dar uma trégua, a sensação de liberdade é muito grande. Gosto de deixar minha vida mais simples e agradável. É engraçado como nossas escolhas influenciam nossa vida. Eu andava desanimada com algumas coisas, principalmente com meu sobrepeso, e hoje pedalo quase todas as noites. Quanto mais pedalo, mais quero. Com isto, junto com o desânimo se foram mais de 20 kg. Gosto de sair sem destino, sem hora para voltar, e retorno com uma vontade de dar meia volta e iniciar outra vez”.

© Trek Divulgação

... Mas também de toda cidade para ir trabalhar

Como quase toda criança, Soninha Gonçalves, de Brasília – DF, adorava andar de bicicleta. Apesar de não ter condições de possuir uma, ela corria para a casa dos primos que tinham bike para poder dar uma voltinha. Até que, já na adolescência, comprou uma Caloi 10. Ela ama trilhas, apesar de há tempos não frequentá-las por falta de tempo; também já fez cicloturimo pela Estrada Real.

Mas o principal uso que faz da bicicleta é como meio de transporte. Soninha afirma que “pedalar em Brasília hoje é como praticar um esporte de risco, pois o trânsito tem feito muitas vítimas fatais. Mas tendo bastante cuidado, vou em frente. Pedalo mais ou menos 40 km por dia como forma de locomoção na cidade. Toda manhã, às 5 h 40 min, lá estou eu nas ruas a caminho do trabalho. A bicicleta, além de meio de transporte, é uma grande fonte de saúde, energia e entretenimento, um verdadeiro canal para novas amizades”.

Soninha, Queli, Lindaberg, Simone, Luciane, Metoniza, Daiane, Maria e Rafaela representam milhares de mulheres que, em meio às ocupações profissionais, afazeres de casa e compromissos familiares, ainda reservam um tempo para pedalar. Elas fazem parte de uma nova leva de mulheres ciclistas que estão invadindo as trilhas ou utilizando a bicicleta de alguma forma no dia a dia. E é através de mulheres como elas que a bicicleta continua sendo uma agente de mudança cultural, redefinindo as convenções de feminilidade e buscando, entre uma cisma e outra, endossar a igualdade entre os gêneros.

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