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É sempre tempo de recomeçar

A história de uma atleta que experimentou a pior queda que qualquer ciclista pode ter em sua trajetória: a queda da vitalidade. Uma história de recuperação baseada no apoio do amor.

Revista Bicicleta por Eduardo Almeida - Colaboração Amélia Demarque
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23/08/2017
É sempre tempo de recomeçar
Foto: Arquivo Pessoal

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Há certo tempo eu não pedalava na companhia de Everson e Mônica, pois durante um período, um fato de saúde impediu nosso convívio. Ter a companhia desse casal passou a ser meu sonho em minhas pedaladas.

Por isso quero relatar a experiência que tive no carnaval de 2017, no qual pude ver o encerramento de um período complexo, de ajustes para uma vida completamente diferente e com novos conceitos, desejos e metas, ser finalmente concluído.

A história é sobre Mônica Ferreira Furtado, que reside atualmente na cidade de Macaé e tem um grande ensinamento a dar para todos nós sobre força de vontade, história de amor e, principalmente, vontade de viver.
Para colocar em uma boa sequência, vamos aos fatos como se deram.

Em 2010, Everson Furtado, seu marido, estava com sobrepeso, passou por sinistro médico, sendo hospitalizado duas vezes, e então resolveu pedalar para conter um problema de pressão alta. Para fazer companhia ao seu marido, também por convite de amigos, Mônica comprou sua primeira “mountain bike” e pedalou em novembro desse mesmo ano, pela primeira vez, num pedal de estradas de terra.

Monica em sua primeira pedalada - 2010

O casal começou a participar de várias pedaladas em grupo, iniciando uma vida completamente nova, com prática regular de atividade física, controle alimentar e regra de horários. A saúde de Everson já estava se equilibrando e a vontade de pedalar do casal foi aumentando.

Em março de 2012, enfrentou seu primeiro desafio: subiu o temido “Pedacinho do Céu”, trecho conhecido que vai do Portal do Sana até o cume de uma montanha, na serra macaense. Ao descer, Mônica levou seu primeiro tombo de bike, com alguns pequenos ralados e boas risadas.

Em maio de 2012, na segunda vez que participou do “Agulhas Negras MTB Cup”, em Resende-RJ, Mônica fez sua inscrição na categoria “Feminino Light”. Após alguns quilômetros de prova, encontrou seu marido Everson sentado ao largo da trilha, esperando ambulância, que prontamente disse para ela: “Pode ir, estou bem, só atropelei uma vaca. Vai embora”. E Mônica seguiu, ainda que preocupada, até cruzar a linha de chegada. Uma boa surpresa aconteceu quando seu nome foi chamado para subir ao pódio em primeiro lugar na sua categoria. A felicidade tomou conta, o gosto da vitória fez com que a vontade de treinar de forma regular viesse à tona.

Campeã Feminino Light em 2012.

Em 2013, ela enfrentou seu primeiro desafio de dois dias de pedal quando participou do “De Macaé para os Braços de Dercy”, no qual os ciclistas percorrem estradas e trilhas, em torno de 110 km por dia, subindo serras e até mesmo atravessando rios com água na altura da coxa.

Mas para Mônica, não eram só os treinamentos que valiam o esforço. Ela queria pedalar para curtir com Everson em locais interessantes. Nesse mesmo ano de 2013, foram para a Chapada Diamantina dentro de um pacote de cicloturismo e pedalaram por oito dias, totalizando 680 km. Trouxeram muitas experiências e recordações dessas férias.

O casal entrou de cabeça no universo do ciclismo esportivo. Eles resolveram planilhar os treinos e montaram uma tabela de participação em eventos de corrida, contaminados por todo o tipo possível de benefícios que o ciclismo pode ofertar. Federaram-se como atletas e iniciaram uma séria jornada de treinamentos, focados na melhoria contínua do físico para obter bons resultados nas provas.

Mesmo quando estavam fazendo pedaladas para curtir, o casal estava sempre junto: Everson sempre com poucas palavras, mas muito focado em ajudar sua companheira. Um casal sempre bonito de se ver, com cuidados mútuos e muita demonstração de carinho, sendo um exemplo para todos que os observassem.

Nesse ritmo de competições e treinos premiados, o casal passou por provas como Big Biker em 2014, na qual Mônica ficou em segundo lugar no Feminino Sport. Nesse mesmo ano, começou a treinar XCO e participou também da Taça Brasil, em Rio das Ostras, ficando em sexto lugar na categoria Feminino Elite, uma grande surpresa para Mônica que, mesmo treinando na pista em casa, pois morava na cidade, não imaginava que fosse alcançar esse resultado. Nesse ano, Mônica foi campeã de XCO e XCM no estado do Rio de Janeiro e quinto lugar no Campeonato Brasileiro de XCM. Os sonhos começaram a ficar mais altos.

Para dar uma relaxada no calendário de competições, no ano de 2015, o casal foi para a Europa, junto com outros dois amigos, fazer um tour de motor-home e pedaladas. Chegaram à Alemanha, passearam pela Holanda, França, Itália, Suíça e retornaram para a Alemanha, pedalando nesses países, num total de 15 dias.

No dia 15 de novembro de 2015, Mônica participou do Ecomotion, em Paulo de Frontin-RJ, estranhou uma intensa dor de cabeça e já não obteve resultado satisfatório, ficando em quinto lugar, atrás de adversárias com as quais já havia competido anteriormente e vencido.

Durante os dias após essa competição, preparando pra voltar à rotina dos treinos, já não se sentia bem. No dia 19 do mesmo mês de novembro, uma fatalidade colocou todas as conquistas de Mônica por terra abaixo. Ela teve uma trombose cerebral e em decorrência, um AVC hemorrágico. A suposição do ocorrido é o uso de anticoncepcional em conjunto com uma mutação do gene da Protrombina (responsável pela predisposição à trombose). Hospitalizada, entrou em coma por 10 longos dias. No dia 21 foi levada para a capital, Rio de Janeiro, e todo um universo de exames foi iniciado.

A respiração autônoma estava parando e uma série de atividades corporais começaram a cessar. Everson começou uma busca intensa por médicos e exames que pudessem qualificar e orientar a possibilidade de reavivar sua esposa. Cada dia que se passava, era mais desesperador para ele, que só recebia notícias de que Mônica poderia não ter reversão do quadro, podendo entrar em estado vegetativo.

No sétimo dia de coma, um médico procurou Everson e pediu que assinasse um termo de permissão para abertura do crânio de Mônica e realização do procedimento de traqueostomia, tendo em vista que a mesma poderia necessitar de respirador mecânico. Nesse momento, ele percebeu que tudo poderia estar acabado e sentia que somente se Mônica tivesse grande força de vontade de viver poderia sair desse problema.

As jornadas médicas continuaram, até que no décimo dia, quando Everson foi em busca do médico para saber se tinham aberto o crânio, recebeu a notícia de que Mônica teve uma melhora surpreendente e extremamente inesperada. Agora o jogo tinha condições de ser mudado e uma das maiores receitas aplicadas por Everson foi o amor e cuidado com sua esposa.

Mônica abriu os olhos no décimo dia e saiu do coma, sem conseguir falar e se mexer. A partir do décimo quarto dia começou a reconhecer alguns amigos. E desse dia em diante, Mônica havia se tornado uma criança, que não sabia mais falar, andar nem executar outra função que antes executava.

Retomando as técnicas de pedalar em singletrack, Mônica esbanja alegria e gratidão por onde passa.

Everson começou a grande jornada de recuperação junto com a sua esposa, acreditando que poderia ajudá-la a reverter esse quadro abismal. É interessante ressaltar que Mônica nos revelou que no dia que reconheceu Everson, assustou-se ao vê-lo, pois de alguma maneira, em suas projeções mentais durante o período do coma, conseguiu pensar que ele já estava com outra mulher e que ela estava há muito tempo naquela condição. Durante os dias em que estava voltando do coma, Mônica percebeu que seu braço direito não funcionava, não conseguia ter visão completa pelo olho direito e já se imaginava ter perdido tudo, inclusive Everson. Para sua surpresa, estava ele lá, firme e forte ao seu lado, pronto para ampará-la durante os dias que viessem suceder.

E passados 24 dias, Mônica saiu do hospital, foi para casa e já esboçava algumas palavras, embora pouco lembrasse dos nomes das pessoas e coisas.

Everson guardou a bike de competição da Mônica em sua bag e a escondeu. Uma grande incerteza bateu sobre se um dia poderia vê-la pedalar novamente, pois não tinha mais nenhuma reação e reflexo.
Toda uma série de acompanhamentos foi iniciada, começando a dar os primeiros passos, com ajuda de andador. Até mesmo uma caminhada num local barulhento, poluído, vendo pessoas apressadas, situação que para qualquer pessoa normal era desagradável e corriqueira, para Mônica era motivo de grande incentivo, pois ela sempre declarava: “estou viva!”. Diante dessa constatação, todas as concepções da sua vida tinham se alterado e ela percebeu que estava no “segundo tempo da vida, como uma dádiva ofertada por Deus”. E sua missão a partir daquele momento era a de aproveitar cada dia, de forma diferente e melhor. Durante um bom tempo, começou a reaprender a falar, escrever, andar, aproveitando tudo isso para rever todas as prioridades da sua nova vida.

E o casal que sempre foi unido, estava ainda mais unido. Everson passou a auxiliá-la e acompanhar todos os procedimentos de recuperação, intercalando com o seu trabalho.

E assim foi, até que o acompanhamento médico liberou as caminhadas na praia e rapidamente Mônica começou a melhorar seu físico, até que iniciou suas trotadas na areia. Em setembro de 2016, Everson levou Mônica para o Parque Estadual de Ibitipoca, em Minas, para andar a pé pelas trilhas. E assim Mônica passou ao seu novo momento de superação de desafios pessoais, em novo nível, onde cada passo era uma vitória.
Após um pedido especial ao médico que a acompanhava, Everson montou a bike de competição e levou Mônica para a ciclovia da orla da praia para que ela pudesse reaprender a pedalar como uma criança que vai desafiar-se sem rodinhas pela primeira vez. E para a grande surpresa de Everson, ele a viu equilibrar-se sobre a bike e pedalar novamente pela primeira vez depois de um ano parada e sem chances de voltar a essa atividade.

Nesse momento, todas as perspectivas se reacenderam. Apesar do medo da visão incompleta, do equilíbrio ainda comprometido, ambos perceberam que era a oportunidade de voltar tudo ao que era antes. Mônica foi iniciando suas pedaladas, até que em dezembro de 2016, para surpresa de todos os amigos de pedal, fez seu primeiro passeio de MTB, passando por locais tranquilos e mais planos, mas voltando a transpor um pequeno singletrack. Era só alegria e intensa satisfação para todos. E com apoio de Everson, foi retomando, aos poucos, suas pedaladas e começou a subir morros e pequenas serras, melhorando seu condicionamento. 

Para mim, foi uma grata surpresa quando combinei com Everson que Mônica viria para Minas, para escalar as montanhas e passear pelas trilhas da região. Seria o meu momento de vivenciar esse retorno à vida, de conversar e aprender muito sobre vontade de viver, de reagir, de mudar a história e me tornar uma pessoa agradecida às condições oferecidas para trilharmos os nossos caminhos.

Hoje vejo Mônica falando quase normalmente, com apenas alguns lapsos de palavras que insistimos, como auxílio, em completar e terminar sua fala. Para ela é bom, pois vai lembrando de como empregá-las. Tive a oportunidade de jogar com Mônica jogos lúdicos, que normalmente são jogados por crianças, mas que para ela voltou a ser inédito e saudável para sua recuperação. Pude compartilhar momentos nos quais ficamos conversando sobre todo esse susto que o casal passou, principalmente ela.

Para coroar, uma boa pedalada, conforme prometido. Fui planejando e conversando com Everson sobre quais as condições do pedal, até que ele disse: “pode ser casca que ela vai dar conta”. E assim foi: percorremos 68 km, mais de 1.470 m de altimetria acumulada em Garmin, passando por uma descida técnica na trilha do Feixo, uma subida técnica pela trilha de pedras na Serra da Cruz, uma parada para almoço em Tuiutinga e uma subida pela Serra do Galba, até passar novamente por Dores da Vitória e retornar ao Sítio Ventania. Fui acompanhado de Amélia Demarque, que também tem mutação semelhante à da Monica, formatando dois casais pelas estradas de terra, trocando informações sobre esse assunto.

É realmente emocionante ver toda essa transformação de perto, com tanta vontade de viver e de agradecer essa nova oportunidade de vida.

As próximas aventuras do casal serão a “Volta do Brigadeiro” em três dias e o trecho de Diamantina a Ouro Preto, da Estrada Real, em cinco dias.

Mônica nos deixa a seguinte mensagem: “não existe o fim. Chegamos a etapas da nossa vida que achamos não ter caminho para seguir. Chegamos a pensar que não sabemos o que fazer, ficamos sem chão. Mas isso pode ser apenas o início de uma nova etapa. Cheguei a dizer para o Everson que se eu não conseguisse enxergar normalmente, devíamos comprar uma Tandem, mas eu sabia que eu queria voltar a pedalar. Eu acreditei que poderia viver tudo novamente e lutei por toda essa mudança dentro de mim, quando nem mesmo meu corpo me obedecia. Mas a nossa mente pode mudar tudo. Quando meu cabelo começou a cair, não imaginava mais que seria o fim, apenas achava que seria transitório. Quando as palavras me faltavam, deixei de ficar ansiosa e comecei a ouvir a forma como as pessoas completavam a frase, e para mim, estava ótimo da forma que elas falavam. Nunca mais me desesperei. Eu tinha fé que tudo ficaria normalizado. A família foi a chave para que tudo ficasse ajustado, pois eles também acreditavam na minha recuperação e auxiliavam nesses processos. Se eu tiver que falar com alguém sobre o que eu passei, o que eu quero que as pessoas saibam é que sempre existirá um caminho para seguirmos, e devemos ter forças para correr atrás daquilo que temos como foco. E o maior meio pra conseguir toda essa reversão foi a fé em Deus”.

 

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