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Do Atlântico ao Pacífico - Em busca da felicidade

Enquanto montava a barraca na margem do Canal do Ararapira, no quintal da casa do Seu Celestino, já era bem fácil visualizar o que me movia nesta viagem. Celestino arrumava uma rede de pescaria na varanda da sua casa, que tinha uma vista deslumbrante do rio e do píer. O cheiro do pão fresco que sua mulher preparava se espalhava por toda ilha. Nenhuma pressa, nenhum carro. O maior problema que ele tinha agora era entender porque ir de bicicleta até o Chile. Eu já nem tinha mais tanta certeza. Mal tinha começado minha expedição.

Revista Bicicleta por Ernesto Stock
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18/12/2015
Do Atlântico ao Pacífico - Em busca da felicidade
Foto: Guilherme Hoshino

Estava na Ilha do Cardoso, Núcleo Marujá, ponto de partida de uma pedalada que tinha como objetivo inicial a travessia do Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico, investigando a elaboração do conceito de felicidade nos mais variados povos e culturas que encontrássemos pelo caminho.

Naquela noite, no jantar que antecedia a manhã da nossa partida, preparei macarrão com vinagrete de mariscos apanhados há algumas horas. Compramos os vegetais de um barqueiro que percorria as comunidades da ilha duas vezes por semana, trazendo legumes e verduras frescas. As dicas de preparação foram dadas pelo nosso anfitrião. A exuberância daqueles gostos era, evidentemente, fruto da sua simplicidade e frescor. E era isso que pretendíamos buscar, embora ficasse claro que nem fosse preciso ir tão longe.

Partimos na manhã seguinte com destino à Vila do Superagui. Atravessamos o canal que divide o estado de São Paulo com o Paraná, em uma pequena embarcação do sobrinho do Seu Aires, um pescador de cerca de 65 anos que vivia com suas nove irmãs em uma pequena casa na comunidade do Pontal. Os cheiros eram os mesmos da casa de Celestino, assim como a gentileza e o carinho. Seu Aires também não conseguia entender muito bem o porquê daquelas bicicletas tão carregadas e de tamanho esforço. Poderíamos ficar por ali mesmo, pescar um pouco com ele e esperar o feijão que ficaria pronto em breve. Durante toda a viagem, esses pensamentos não sairiam da minha cabeça. Não era preciso muito esforço para associar toda aquela leveza ao ideal de felicidade.

Uma sucessão de paisagens incríveis desfilava enquanto atravessávamos de leste a oeste o estado do Paraná. Subimos a Serra da Graciosa e seguimos pela Régis Bittencourt até Foz do Iguaçu. Vimos as pequenas propriedades dos colonos europeus, principalmente ucranianos e poloneses, com todo seu charme e encanto, darem lugar aos gigantes do agronegócio e dos transgênicos. Progresso de mau gosto. Os sorrisos já perdiam intensidade.

Atravessamos a fronteira com o Paraguai e logo a confusão consumista de Ciudad Del Este ficou para trás. Fizemos nossa primeira parada na nação guarani logo a 30 km do Brasil, na pequena cidade de Mingá-Guaçu. Por recomendação de alguns estudantes da Universidade Federal da Integração Latino-Americana de Foz do Iguaçu, fomos participar de um encontro internacional de artes de rua e acabamos ficando lá por três dias. Centenas de artistas de rua, vindos de vários países do mundo, seguiam buscando uma alternativa à sociedade de consumo. Passavam sua vida viajando, com tudo o que tinham dentro das suas mochilas. Muitas vezes, casais acompanhados de filhos pequenos. Trocavam experiências e dicas sobre os possíveis novos destinos. Viviam dignamente do seu trabalho. Livres e independentes, unidos por um ideal. Talvez a maior novidade fosse a perseverança, reinvenção.

Sem dúvida alguma, o Paraguai foi a maior surpresa da viagem. Diferente de tudo que me disseram e de tudo que imaginamos, pedalar pelas estradas paraguaias é bastante seguro e confortável. Durante toda nossa estada no país contamos com o apoio dos bombeiros voluntários, que sempre nos deram abrigo. É impressionante perceber como um país devastado por seguidas guerras sobrevive lutando para preservar sua cultura e suas tradições guaranis. Temos muito que aprender com eles, tendo em vista todo esquecimento devotado às culturas originárias do Brasil.

Passamos um final de semana em Assunción, que assim como qualquer outra cidade grande do mundo ocidental contemporâneo, carrega no seu ritmo e na sua estrutura todas as contradições do desenvolvimento.

Continuamos viagem e, depois de alguns dias pedalando através do Chaco Argentino, encontramo-nos com uma comunidade cigana liderada por Ortiz, um homem de cerca de 50 anos e, conforme consta, 20 filhos, dos quais conhecemos dois. Bebemos cerveja e conversamos bastante. Ortiz vive de pequenas negociatas, principalmente com carros. Mora com cerca de 40 outros ciganos acampado em um terreno cedido pela prefeitura há dois anos. Espalhadas pela tenda colorida, imagens da Virgen de Huracán. Proteção. O preço da gasolina inviabilizava novos deslocamentos, tão característicos da sua cultura. Segundo ele, todo dinheiro que ganhavam com os negócios gastavam por ali mesmo, com festas, bebidas e enfeites. Encaravam a vida de uma maneira bem diferente do convencional, concentrando grande parte dos seus esforços na satisfação imediata, sem muitas preocupações que não fossem com o dia de hoje... Mesmo as ciganas sendo especialistas em prever o futuro. Talvez, por isso.

Alguns quilômetros adiante, em uma região conhecida como “Pampa de los Guanacos”, visitamos uma colônia menonita onde vivem cerca de 150 famílias. Protestantes com raízes na contra reforma europeia, seguiam à risca fortes preceitos religiosos. Viviam da agricultura, pecuária e trabalhos de carpintaria. Uma cooperativa organizada cuidava do comércio do queijo e do delicioso doce de leite produzido na comunidade. Fomos recebidos por Gerald Kasser, uma espécie de líder e grande conhecedor da história do seu povo. Explicou-nos sobre as origens religiosas da sua cultura e suas implicações em uma vida de devoção ao trabalho, simples e comunitária, essencialmente pacífica. Não usavam carros e nem energia elétrica. Não votavam e só se dirigiam à cidade em casos urgentes.

A austeridade menonita contrastava diretamente com o excesso cigano. As cores eram outras. Dois exemplos bastante diferentes de como enxergar a vida e suas possibilidades. Entre tanta diferença, parecia-me claro que um laço muito forte unia Ortiz a Gerald. Conscientes de suas escolhas, assim como os caiçaras e os artistas de rua, buscavam alternativas de sobrevivência condizentes com suas crenças e ideologias. A simplicidade, o contato com a natureza e as atividades realizadas comunitariamente eram presença marcante em todas as opções.

À medida que nos aproximávamos da Cordilheira dos Andes, tudo ficava mais inóspito e, ao mesmo tempo, mais solidário. No começo da subida, dois episódios marcaram definitivamente nosso caminho e clarearam ainda mais nossa compreensão. Um dia antes de chegarmos a San Antonio de los Cobres, estávamos sem comida quando paramos no povoado de Las Cuevas. Todos os dois armazéns da região estavam fechados. Perguntei em uma casa vizinha a um dos estabelecimentos onde podia encontrar comida. Enquanto me falava sobre a impossibilidade de achar alguma coisa por ali, Abel, dono da casa, preparava uma sacola com algumas batatas, cebolas, tomates e um pouco de arroz. Era uma casa bastante pobre, de paredes de barro e sem forro, típicas desta região. Quando me dei conta de que aquela comida era para nós, tentei em vão recusar a oferta. Por um momento, tive medo de que aquela comida fizesse falta naquela casa. A negativa foi totalmente ignorada e sai dali com a bolsa cheia de comida. O que mais me impressionava no gesto era a ausência de nobreza. Uma solidariedade óbvia e sem afetação, sem propaganda ou grandeza. Aceitar era tão natural quanto oferecer.

No dia seguinte, chegamos a San Antônio e montamos nossa barraca em um terreno que ficava nos fundos da igreja. Ventava muito e não foi uma tarefa das mais simples armar o acampamento. Quando finalmente conseguimos, fomos dar uma volta pela cidade e acabamos conhecendo Olga, professora da escola local. Com a mesma naturalidade de Abel, ofereceu-nos sua casa. Nossa surpresa contrastava com sua espontaneidade. Como ela viajaria ainda naquele mesmo dia e ficaria alguns dias fora, não via sentido em que sua casa ficasse vazia enquanto dormíssemos nas barracas, ainda mais com aquele frio e todo aquele vento. Passamos duas noites em sua casa e deixamos as chaves com o vizinho quando fomos embora. Na estante da sua casa, bem perto de um imenso altar devotado ao pai em comemoração ao dia de finados, entre pães e folhas de coca, uma coleção completa do Eduardo Galeano. Veias Abertas da América Latina.

A travessia da Cordilheira dos Andes pelo Paso Sico foi perfeita para entender aquilo tudo que tínhamos vivido até ali. A beleza deslumbrante da paisagem acalmava um pouco o corpo cansado e castigado pelas subidas infinitas, pela areia e pelo frio. O silêncio e o isolamento compunham o cenário ideal para tentar encaixar todas as peças daquele complexo quebra-cabeça que juntamos pelo caminho. Era cada vez mais claro que a felicidade só fazia sentido quando compartilhada e que a busca pela simplicidade é o caminho mais fácil para a harmonia dos sentidos.

As montanhas despencavam em San Pedro de Atacama, que apesar das paisagens lindas, tem sua beleza um pouco sufocada pela presença de um enorme número de estrangeiros que controla o comércio local e empresta outro sotaque à capital do deserto mais árido do mundo. A cultura local acusa golpe e o Kunza, língua originária dos povos do Atacama, está praticamente extinto. Talvez o fato mais simbólico deste limite seja a proibição de qualquer dança que não esteja associada a alguma manifestação tradicional. A tentativa um tanto quanto atrapalhada de preservar a cultura local, como em “Footloose”, acabou por favorecer o aparecimento de festas clandestinas conhecidas como “carniceros”, repletas de gringos e músicas eletrônicas. Entender as relações destas  festas com a cidade é fundamental para compreender a ocupação da região e o turismo inconsequente. O entorno também deve fazer parte da dança. Ritual.

Do deserto até o litoral, foram dois dias tranquilos, sem muito esforço. Quando avistei o mar, ainda do alto da serra, meus olhos se encheram de água. Estava cansado e com a cabeça tão cheia de ideias e pensamentos que, por vezes, pesava. Tinha uma vontade enorme de chegar em casa e dividir minhas impressões.

Chegamos a Tocopilla e paramos em frente ao mar, quietos. Do outro lado da avenida beira-mar, duas mulheres dançavam uma música que não se ouvia em frente a uma boate. Aqui tinha música, dança, mas não. Uma possibilidade imensa de mar se estendia até o outro lado do mundo e estava claro que a chegada era apenas uma pequena e menos importante parte do caminho. E que todos tinham razão.

Dados da Expedição

3000 km, 4 países: Brasil, Paraguai, Argentina e Chile.

Participantes: Ernesto Stock, Guilherme Hoshino, Douglas Eduardo. 
Custo diário: 30 reais por dia por pessoa.
Tempo total de viagem: 2 meses e meio
Dias pedalados: 40
Câmaras furadas: cerca de 50 (mais de 15 para cada bicicleta)
3.000 fotografias e 120 horas de vídeo e entrevistas.

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