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Do Atlântico ao Pacífico

Uma desafiante viagem de bicicleta pela América do Sul

Revista Bicicleta por Nelson Neto
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30/11/2012
Do Atlântico ao Pacífico
Foto: Marco A O Brandão

Viajar: “[...] Enaltece suas virtudes e põe à prova suas deficiências. Reativa o olhar da curiosidade e da descoberta, da percepção. Exercita o espírito e o raciocínio, que o cotidiano acaba atrofiando. Viagens são parte da natureza humana, nossa origem é nômade. [...] Viajar abre a oportunidade de se experimentarem novas sensações, novas perspectivas de olhar, novas situações. E elas estão em toda a parte.” (Carlos André Ferreira).

Para muitas pessoas, viajar de bicicleta é algo impensável. No entanto, o cicloturismo ainda provoca as mais diferentes reações. Embora não seja competitiva, a modalidade apresenta, em um primeiro momento, características que indubitavelmente pertencem aos atletas de elite, cuja preparação física e psicológica é indispensável. Esse quesito é perceptível, mesmo que involuntariamente, por aqueles que veem a viagem de “fora”. Os cicloturistas são abordados frequentemente por pessoas que querem saber onde e como se alimentaram e dormiram, por exemplo.

A violência é um dos assuntos mais recorrentes entre as conversas. O medo parece algo inerente àqueles que têm a visão do ato de “sair de casa” limitado pela televisão. A realidade veiculada propaga o perigo e nos faz refém dos muros e grades de nossas próprias casas, que ao oferecer uma relativa segurança, nos priva de um mundo palpável, com cheiros, sons e sabores que nenhuma tecnologia digital, por mais moderna que seja, é capaz de proporcionar na sala confortável de uma residência.

Além de todas essas dúvidas e privações, há ainda a família. Como fazer uma expedição quando existem filhos e esposa (o)? E com relação ao trabalho? Como conseguir conciliar todas essas questões para poder pedalar com a cabeça tranquila, aproveitando a viagem sem preocupar-se dema- siadamente com assuntos deixados no local de partida?

Quem nos responde, na prática, a todas essas dúvidas, é um grupo de amigos de Itanhaém, litoral paulista, formado por Aleksandro Stankevicius (Pacato), 29, Érico Côrrea, 33, Marcelo Iberê, 38 e Marco A. O. Brandão, 36. A “ousadia” dos quatro amigos não foi nada pequena: sair do Oceano Atlântico e chegar ao Oceano Pacífico, atravessar um continente pedalando. A utilização da bicicleta, apesar de ser um simples instrumento de locomoção, permite uma aproximação maior com a natureza, contato real com outras culturas, paisagens e histórias. Ela humaniza, liberta. Era exatamente o que eles queriam.

Desafiante em todos os sentidos, a “Expedição do Atlântico ao Pacífico” (DAP II) teve seu giro inicial em 31 de março de 2011, contudo, seu planejamento aconteceu muito tempo antes. Fisicamente, o grupo treinou bastante, por meses. Mapas, relatos, dicas e todo material disponível soZbre o trajeto foi lido e relido para aproveitarem ao máximo e evitar surpresas desagradáveis. Afinal, não era qualquer caminho, durante a jornada iriam passar por maravilhosas paisagens, é verdade, contudo, também enfrentariam os perigos da estrada, dificuldades com relevos e condições climáticas extremas. Além, é claro, de suportar a distância da família. Às vezes, ficar longe de quem se ama é um modo pra descobrir o quão importante essa pessoa é em nossa vida.

Em todo caso, nem só de teoria se realiza uma viagem. É preciso colocar a bicicleta pra funcionar. É preciso se precaver, pois a aventura pode ser fascinante, mas ao final de um dia pedalado o corpo pede descanso. Por isso, são meses de planejamento. Claro, tudo isso é trabalhoso, essa parte da viagem é aquela que quase ninguém está habituado a ver, mas que costuma exigir muita dedicação por parte dos envolvidos. Por isso, o viajante precisa estar determinado a encarar o desafio sem subestimar a natureza, incluindo a do seu próprio corpo. Estar preparado também é uma forma de tranquilizar aqueles que ficam na hora da despedida. Com certeza, a cada retorno a confiança e apoio da família tornam-se bem maiores para uma próxima viagem.

Mas, com tudo devidamente pronto, também chegou a hora da partida. Com as bicicletas no asfalto, a saída de Itanhaém tinha como primeiro destino as terras paranaenses. Era a primeira fronteira de muitas pelo caminho, que mostrava-se perigoso em um primeiro momento: vários acidentes, sobretudo com caminhões, marcaram o trecho até o Paraná. Nosso país é movimentado pelo transporte rodoviário próximo aos grandes centros e, muitas vezes, as horas excessivas de trabalho diário é o principal fator para o acontecimento de tais sinistros. Aos ciclistas cabe a prudência e também a direção defensiva na bicicleta. Caso contrário não seria possível finalizar a subida insana da Serra do Azeite na rodovia Régis Bittencourt (BR-116), ainda no estado de São Paulo. Os primeiros dias na estrada são primordiais para ganhar confiança, seja através do bom funcionamento da bicicleta carregada ou da reação do corpo aos quilômetros iniciais.

No itinerário do grupo estava o estado do Paraná, o último da viagem em território nacional. Conhecido por sua capital moderna, Curitiba; longas, belas e quase extintas araucárias; interior rico em sua agricultura; e atrações turísticas naturais, entre outras tantas características.

Ao atravessarem a fronteira entre São Paulo e Paraná, não foi difícil notar as diferenças, a começar pela temperatura. Embora ainda estivesse no começo do mês de abril, o frio era perceptível, principalmente durante as noites. Aliás, elas eram curtas para o grupo que começava a pedalar ainda na madrugada, por volta das quatro horas.

Apesar das baixas temperaturas, do sobe e desce constante do relevo e problemas mecânicos, o foco era avançar mesmo com algum atraso que já ocorria de acordo com a planilha original. Sem desanimar, foi possível seguir viagem deparando- se com a exuberante fauna e flora da região, companhia perfeita para os olhares mais atentos. A diferença de viajar pedalando está nos detalhes que, por sua simplicidade, muitas vezes acabam passando despercebidos em outras ocasiões. Em qual outro momento seria possível, durante uma viagem, ser agraciado com um flagrante espetacular do pássaro joão-de-barro construindo meticulosamente sua casa? Ou ver uma borboleta que mesmo com sua aparente fragilidade e tamanho não mede esforços para conquistar sua liberdade e a revoar-se exibe sua beleza e particularidade, capaz de impressionar a todos do grupo.

A região central do Paraná sofre menos com os impactos das extensas plantações de soja, milho, entre outras culturas, do que, por exemplo, no oeste. Talvez por esse motivo seja possível se encantar com as paisagens de matas pouco exploradas. A Serra da Esperança, nas proximidades de Guarapuava é um desses lugares onde as cores parecem mais intensas e a natureza mais viva. Encontrar uma cachoeira às margens da estrada e poder refrescar-se com um banho em suas águas é simplesmente uma força extra para seguir viagem. E o que já estava surpreendente ficou ainda melhor durante o maravilhoso por do sol em meio a um ar bucólico peculiar à região.

Assim, os viajantes seguiam em direção a Foz do Iguaçu, no oeste do estado. A cidade era passagem obrigatória para ingressar no Paraguai. Mas antes de chegar à Tríplice Fronteira (Foz faz divisa com Argentina e Paraguai), o pessoal ainda teve a oportunidade de passar por um dos poucos resquícios indígenas, tratava-se do aldeamento nos arredores de Nova Laranjeiras.

Ao chegarem a Foz do Iguaçu, famosa pelas magníficas Cataratas do Iguaçu, o grupo ficou hospedado pela segunda vez na viagem. A hospitalidade entre cicloturistas é uma das coisas mais bonitas da modalidade pela amizade que surge a partir de algo em comum. São histórias contadas de ambas as partes, experiências que despertam atenção de quem ouve e empolgam aqueles que relatam com fervor as aventuras vivenciadas.

Pedalar em território internacional com certeza é algo que emociona, sobretudo, para quem atravessa a fronteira, vindo de tão longe. Para chegar até Ciudad Del Este foram mais de mil quilômetros. Parece muito, mas era menos de um terço do que precisavam percorrer para chegar ao litoral chileno. No Paraguai, o objetivo era atravessar o país em direção à sua capital, Assunção, de onde se direcionariam à fronteira argentina. Foram poucos dias em território paraguaio, mas o suficiente para surpreender-se com uma cultura muito diferente da qual estão acostumados no Brasil. A começar pelo idioma (fala-se o espanhol e guarani), a culinária, moeda e os mais diversos veículos que circulam pelas rodovias.

A culinária foi degustada sem hesitação pelo grupo, mesmo que por muitas vezes o tratamento com o alimento parecesse não ser dos mais higiênicos, afinal, não é muito comum (sul/sudeste do Brasil) encontrarmos aves abatidas e dependuradas em frente dos estabelecimentos. Conhecer essa diferença e estar preparado para receber esse outro cotidiano, buscando entendê-lo sem preconceitos, é o que uma cicloviagem também proporciona.

No país vizinho, a plantação extensiva também é visível da estrada. O trânsito parece não seguir leis. Mas o espírito aventureiro tem que estar presente. No Paraguai, qualquer canto disponível para montar acampamento foi suficiente para passar a noite. Muitos se referem ao país como violento, mas isso se mostrou relativo à medida que se avançava e tudo corria muito bem. Assim, atravessaram a ponte sobre o famoso Rio Paraguai, último marco antes de ultrapassarem mais uma zona fronteiriça.

Na Argentina, assim como nos países pertencentes ao Mercosul, o requisito básico para ingressar no país é a cédula de identidade (R.G), que dispensa o passaporte. Na aduana, após o registro de entrada, o viajante recebe a permissão de ficar por três meses em território argentino, isso na condição de turista, impossibilitado, por exemplo, de trabalhar. Agora o desafio tornava-se ainda maior. A partir da cidade de Clorinda, na Argentina, iniciou-se um extenso trecho de planícies, e seriam mais de 700 km de retas, sem subidas ou descidas, apenas retas. Uma prova para ver se estavam realmente bem preparados fisicamente. Nestas condições, o joelho é o que mais sofre pelo contínuo movimento.

As paisagens campestres ficam cada vez mais solitárias em relação à presença humana. Aves como o Carcará são avistadas frequentemente, e muitas acabam sendo vítimas do trânsito nas rodovias que cruzam seu habitat.

A América Latina sofreu muito com as ditaduras militares impostas nas décadas anteriores. A Argentina não foi uma exceção, teve um dos governos mais violentos. Na região de Margarita Belém havia um monumento histórico em homenagem a “los compañeros peronistas montoneros fusilados el 13 de diciembre de 1976 por fuerzas conjuntas del ejercito, la policia del Chaco y la colaboración de civiles, durante la dictadura militar. Memoria y gratitud a su sacrificio por la libertad de la patria” conforme indicava uma placa fixada na obra. Momento de reflexão, afinal, a liberdade pela qual aquelas vítimas lutavam, era de alguma forma, usufruída pelo grupo que tinha caminho livre para seguir em frente.

As longas retas até a cidade de Resistencia são sem acostamento, no entanto, o trânsito tranquilo permite um deslocamento sem muitos perigos. Contudo, após a referida cidade, o fluxo de veículos aumenta significativamente, deixando a pedalada tensa ao extremo.

Para a viagem, levam-se muitos dos mapas e anotações sobre o roteiro. Eles são de vital importância para localizar- se e traçar as próximas metas. Afinal, aquele planejamento inicial acabou sendo prejudicado. Nada que não viesse a ser solucionado, neste caso, pedalando cada vez mais cedo, ainda de madrugada.

Conforme seguiam, as companhias das retas infinitas continuavam, agora, com a presença de temperaturas elevadas na região do Chaco Argentino. Não é à toa que Pampa Del Infierno, uma das cidades pelo caminho, tem um nome mais do que sugestivo. O sol forte também requer cuidados aos ciclistas: filtro solar e muita hidratação são o mínimo para evitar uma insolação.

As eventualidades da viagem vão acontecendo. No interior do quase inóspito norte argentino a precariedade da região fica estampada no transporte de trabalhadores sendo realizado por um trator, a imagem choca ao ver a condição pela qual são submetidos. A flora se apresentava distinta em determinados lugares. Diferente também é a religiosidade e a forma de expressá-la daqueles que frequentam a estrada, caso dos altares construídos à beira da rodovia para a Defunta Correa: “[...]Segundo a lenda, María Antonia Deolinda Correa era uma jovem mulher na década de 1840, que decidiu seguir o seu marido quando este foi recrutado para combater na guerra civil. Levando um bebê recém-nascido nos braços, Deolinda Correa seguiu o progresso do exército argentino durante algum tempo. Quando atravessou a zona desértica em torno da província de San Juan, os mantimentos e água que levava acabaram e ela morreu de sede e exaustão. Algum tempo depois o seu corpo foi encontrado e, para espanto dos viajantes, o bebê estava ainda vivo, supostamente graças ao leite que o corpo da sua mãe continuou a produzir, mesmo depois da morte.”

Com o fim das retas, logo após Joaquim Gonzáles, a sensação é de vitória e superação, mesmo que parcial, pois era possível visualizar as primeiras montanhas que em seguida começam a formar a Cordilheira dos Andes. Para trás ficava um dos maiores obstáculos da viagem, o temido norte argentino, com seu calor extremo e as longas retas. Agora o desafio era outro, aguentar subir a “maior cadeia de montanhas do mundo (em comprimento), [...] seus trechos mais largos chegam a 160 km do extremo leste ao oeste. Sua altitude média gira em torno de 4000 m e seu ponto culminante é o pico do Aconcágua com 6962 m de altitude”.

Não seria uma tarefa fácil. As vestimentas deixavam os cicloturistas cobertos em sua quase totalidade. Com os fortes ventos a sensação térmica despenca e o risco de sofrer uma hipotermia é alto. Para manter o corpo aquecido, nada melhor do que estar em movimento, por isso continuavam a pedalar diante das incríveis paisagens que a Cordilheira proporcionava, eram vales, cujos largos rios desfilavam entre as altas montanhas. No topo das montanhas era possível admirar ainda melhor todo capricho da natureza que entre suas obras de arte, deixou literalmente colorido o Monte das Sete Cores em Purmamarca. O pequeno povoado tem no turismo sua principal fonte de renda. Muitos visitantes encontram-se entre as ruas de terra batida, seca e árida, por onde se caminha e observa os vários artesanatos exibidos nas lojas e pela feira na praça central, onde o charme acompanha a peculiaridade dos produtos. Arquitetura é outra característica peculiar.

Purmamarca era o último povoado antes da mais difícil subida da expedição, a famosa Cuesta de Lipán, com quase 25 km de extensão. No topo, com mais de quatro mil metros de altitude é possível ver todo o caracol (formato pelo qual a estrada é desenhada na montanha). Um cenário incrível! Novamente o grupo conseguiu vencer o desafio da subida, faltava encarar a baixa temperatura.

No topo de Lipán, o grupo resolve montar acampamento, uma decisão, no mínimo, arriscada, pois na altitude superior a quatro mil metros, a sensação térmica fica abaixo de zero grau. Era preciso precaver-se de todas as formas. E para protegerem-se do vento, ergueram uma barreira com as pedras locais, criando assim uma pequena cabana, no intuito de sentirem menos o efeito do vento andino. Certamente foi uma sábia alternativa. Apesar dos agasalhos, sacos de dormir e isolantes térmicos, a noite foi uma das mais difíceis da expedição. O resultado foi nítido na manhã seguinte, as garrafas de água estavam literalmente congeladas. Estava na hora de descer.

A descida de Lipán é sensacional, no entanto, impossível de atingir velocidades altas em razão das várias curvas fechadas, qualquer deslize joga despenhadeiro abaixo. Terminada a descida, uma surpresa no horizonte; todo branco, ele aparentava estar coberto de neve, mas não. Era tudo sal! Trata-se do imenso deserto de sal, denominado Salinas Grandes, mais uma preciosidade do caminho. Aqui, tudo é sal, inclusive o restaurante, recentemente desativado, porém, muito visitado pelos turistas que passam pela região.

De Salinas Grandes o grupo seguiu em direção à última cidade argentina antes da fronteira com o Chile, Susques. O caminho continuava sendo marcado pelas longas subidas e um ambiente cada vez mais inóspito. No entanto, existia uma companhia diferente de todas até agora, são as lhamas e vicunhas, mamíferos ruminantes, característicos dos Andes.

A viagem se encaminhava para os momentos finais, mais uma fronteira (Chile) se aproximava, quando começaram a avistar ainda mais montanhas, agora com seus picos congelados, um branco que pode ser admirado de muito longe. Ao chegar mais perto, encontravam-se lagos que ficam ainda mais belos por suas cores ao refletirem as montanhas em suas águas, essas são provenientes do degelo das próprias montanhas. Atravessar a fronteira para o Chile era sinal que o destino estava mais próximo, todavia, o desgaste físico era aparente no semblante de cada participante.

Em território chileno, o Planalto Andino revela maravilhosas surpresas com fauna e flora extremamente ricas em lugares aparentemente impossíveis de existir vida, ainda mais de maneira encantadora, como nos lagos e pássaros típicos do local. Antes de chegar ao lendário Deserto do Atacama, o mais alto e árido do mundo, haviam que demonstrar uma força extra pra chegarem na maior subida de todo o itinerário, alcançando 4.800 metros de altitude. Apenas uma energia descomunal e muita força de vontade para avançar em condições adversas como aquelas. Antes de São Pedro de Atacama veio a recompensa do dia, uma descida aproximada de 30 km, adrenalina total.

Em São Pedro de Atacama, o grupo teve o único dia “sem” pedal, ao menos na estrada, pois aproveitaram para conhecer melhor a cidade e suas atrações mundialmente conhecidas, como o Valle de la Luna, um paraíso natural localizado em pleno Deserto do Atacama, com uma grande variedade de espécies animais e vegetais.

A próxima cidade era Calama, conhecida como capital do cobre, uma vez que está concentrada numa região riquíssima em minérios. Contudo, para chegar até a cidade era preciso atravessar o deserto de novo. Entre São Pedro de Atacama até Calama são pouco mais de 100 km que podem facilmente se tornar muito mais longos do que realmente são. Tudo em razão do Deserto do Atacama. Se para chegar a São Pedro existiu uma maravilhosa descida no dia anterior, agora o efeito era contrário, uma subida nas mesmas proporções. Entre os dois pontos, nada, absolutamente nada. Literalmente um deserto. Uma situação delicada que foi planejada com muita atenção, afinal, não havia água ou comida em nenhum local entre as cidades e qualquer imprevisto poderia ter consequências graves, considerando que poucos carros circulam pela estrada.

A cor “pálida” do deserto é característica marcante entre São Pedro e Calama, contudo, ao chegar nesta última, um verde intenso surpreende a todos como se fosse uma miragem. Do nada, surge uma cidade arborizada em meio ao deserto, simplesmente incrível. Entre uma população relativamente grande e prédios históricos, Calama tem uma das maiores e mais famosas minas a céu aberto do planeta, Chuquicamata. Recentemente foi superada em tamanho pela Mina Escondida, mas sua produção ainda é a maior, apesar de 90 anos de intensa exploração. É referência mundial na produção de Molibdênio. Não surpreende que o local chamasse atenção de Che Guevara, que em sua viagem de motocicleta pela América Latina passou por Chuquicamata e se deparou com a triste condição de trabalho dos mineradores.
Após Calama, o relevo ajudou os viajantes, a altimetria começou a ficar menor à medida que o Pacífico se aproximava. Não demorou muito e chegaram à Província de Antofagasta. No caminho ainda encontraram mais peculiaridades da região, principalmente relacionadas à mineração; caminhões enormes são comuns pelas rodovias, já a produção destas é deslocada pelo transporte ferroviário que funciona ao lado da estrada. Os trens destacam-se por seus inúmeros vagões.

A região ainda continuava apresentando seus monumentos históricos, antigas oficinas salitreiras tem suas ruínas declaradas como patrimônio histórico. No início do século XX muitas famílias moravam e trabalhavam no local, este tinha uma enorme produção de sal que durou até meados do século passado. Com tempo ensolarado e estrada perfeita (assim como em todo território chileno, até então), a emoção de estar chegando à cidade de Antofagasta deixava o coração mais acelerado e as pernas inquietas, contudo, o grupo ainda realizava algumas paradas para refrescar o corpo. Entre elas, um surpreendente vendedor de sorvete e sua barraca às margens da estrada. No detalhe de seu pequeno estabelecimento uma placa interessante: “Cuidate! Alguien te espera”.
Era preciso lembrar-se de continuar com a mesma disciplina pela qual conduziram a viagem. Mas faltavam realmente poucos quilômetros e os guerreiros não iriam se perder justamente agora. Com muita felicidade avistava-se a placa de boas-vindas em Antofagasta. Pouco depois, de maneira magnífica o imenso Oceano Pacífico se mostrava imponente ao horizonte. Era a viagem se concretizando com total sucesso: 3.500 km em 28 dias pedalados. O sonho realizado, corpo cansado, alma leve e coração pulsando forte. Lembranças para toda uma vida! Agora poderiam voltar de braços abertos e cabeça erguida para suas esposas e filhos. A vida deles nunca mais seria a mesma.

Após conhecerem Antofagasta, estava na hora de retornar ao Brasil. Longas horas depois, estavam se dirigindo a Itanhaém. Estavam de volta! Em silêncio poderiam muito bem dizer: “Quem quer algo acha sempre um jeito. Mas quem não quer acha uma desculpa!”. Eles encontraram o caminho, do Atlântico ao Pacífico.

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