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Desvendando a Cordilheira dos Andes

Revista Bicicleta por Renato Perim
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28/08/2017
Desvendando a Cordilheira dos Andes
Foto: Renato Perim

Difícil explicar a decisão por uma cicloviagem sozinho em um lugar de natureza inóspita como a Cordilheira dos Andes. Montanha acima, ar abaixo, sabia que seguiria por dezenas de quilômetros sem cruzar uma alma viva e, ainda assim, as incertezas sucumbiram à intuitiva escolha de também seguir para dentro de mim. O tal caminho interior, trajetória comum de religiões e filosofias.

Foto: Renato Perim

O trecho escolhido percorria 500 km por isolados caminhos de terra no coração dos andes peruanos, seguindo o sul da região da Cordilheira Blanca até a Carretera Central. Apesar do ganho total de elevação de 12.000 m, entre altitudes de 3.500 m e 5.000 m, decidi topar a encrenca. Quando dei por mim, já pedalava pelo entorno do Lago Conococha, início da viagem.

Impossível descrever, em palavras, a magnitude das paisagens. Lagos azuis, picos nevados, vales pitorescos e cachoeiras despontavam, a cada curva, como quadros emoldurados. A sutileza da bicicleta permitia uma integração absoluta com o ambiente, agigantando minúcias outrora despercebidas.

Foto: Renato Perim

Na vastidão deste remanso, passei a ouvir vozes. Tímidas, de baixo tom. Convidavam-me para entrar, abrigavam-me. E meu interior, descalço, caminhou por outros interiores. Foi assim na comunidade Pacocha, uma porta aberta antes que eu encontrasse um espaço para estender o saco de dormir. Sonho alimentado de sopa, milho e conversa mansa.

Entre tantas descobertas, a receptividade do povo peruano foi a mais grata delas. No primeiro dia, após dezenas de quilômetros pedalados e ansioso para o primeiro encontro com os serranos, como é conhecido o povo das montanhas, avistei o vilarejo de Ticlos. Apreensivo pela reação dos moradores à presença do estranho com alforjes e barraca pendurados numa bicicleta, deparei-me com um campo de futebol repleto de crianças. Parei e um instante de silêncio precedeu ao grito do zagueiro magrelo – “Gringo, ven a jugar”! Não marquei gol, mas, sem dúvida, foi uma pelada memorável. Ao final, cercado por eles, segui para o refeitório do colégio, onde me ofereceram comida e cama.

As boas-vindas do pequeno povoado criaram em mim uma intimidade que perdurou pela travessia. Além da ancestralidade indígena, aquelas pessoas carregavam uma aura latina que aflorava, entre nós, uma afinidade nos detalhes mais ocultos. Um déja vu do sertão de Minas Gerais na mão calejada do lavrador ou no olhar tímido da elegante senhora de chapéu florido.

Foto: Renato Perim

Num certo dia, há tantos outros sem um banho, subia obstinado uma ladeira infindável a Cajatambo, vilarejo onde havia uma hospedagem com chuveiro quente, objeto raro por aquelas bandas, mas, a 25 km do destino, o crepúsculo me forçou a parar. Frustrado, procurava um local apropriado para acampar e uma van se aproximou. Um veículo no meio do nada, naquela situação, só podia ser sinal do além e sucumbi à maior das heresias para um cicloturista ortodoxo: carona! Bike amarrada no teto, bagagem no colo, adulto, velho, criança, nunca imaginei caber tanta gente num espaço tão pequeno. A graça logo acabou quando, pela janela, vi o abismo que margeava a estrada, perspectiva que me faltava da bicicleta. Após duas horas, muitas paradas e um pneu furado, havíamos percorrido apenas 18 km e novidade: o motorista orientou-me a descer, pois seguiriam por outra rota. A pedalada noturna, que, a princípio, me causou receio, foi um dos pontos altos da viagem. Iluminado pelas estrelas, pedalei por uma hora até o melhor banho da minha vida.

Foto: Renato Perim

Outra surpresa, um pouco menos agradável, foi o clima. Quando o sol se punha por detrás das montanhas, a temperatura desabava até abaixo de zero. Descobri, após duas noites praticamente em claro, que a barraca e o saco de dormir eram impróprios para tanto frio e, adiante, tive que me adaptar para sempre pernoitar em vilarejos. Além do chuveiro, outra escassez foram os trechos planos. Numa montanha-russa infindável, acumulei mais de 200 km de downhill pelos Andes, em que, louco e concentrado, bailava Cordilheira abaixo entre lhamas e vicunhas.

Foto: Renato Perim

Apesar de não me enquadrar no perfil esportista, o elemento altitude trouxe um viés de desafio à viagem. A escassez de oxigênio tornava o trajeto acima de 4.500 m uma via crucis. Eram horas de pedalada para subir lentamente, alternando paradoxos, físico e psicológico, ao cume de cada passo. Para o Chucompama, o mais difícil deles, demorei cinco horas nos últimos 20 km de pedalada. Ali, com o infinito sobre os olhos e a Cordilheira sob os pés, uma brisa sussurrou sobre toda minha insignificância e levou consigo um sorriso que, até hoje, vaga por aquela imensidão.

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