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Deserto do Atacama

Pedalar por um deserto situado em grande altitude é uma experiência fabulosa. E foi por essa paisagem, repleta de pedras e areia, que pedalamos durante seis dias por um dos lugares mais sensacionais do planeta.

Revista Bicicleta por Paulo de Tarso
37.136 visualizações
24/02/2015
Deserto do Atacama
Foto: Sampabikers

O deserto é um local que contamina, apavora e revela. No deserto, o jogo de luzes e sombras nos transporta a um outro universo, onde os sonhos são tão acessíveis quanto as miragens.

Em metamorfoses e contrastes, lentidão e leveza, ritmo e silêncio, grandeza e voluptuosidade, o deserto resume o essencial da vida.

E foi por essa paisagem, repleta de pedras e areia, que pedalamos durante seis dias por um dos lugares mais sensacionais do planeta e que ficou marcado para sempre em nossas memórias: o Deserto do Atacama.

O Deserto do Atacama ocupa uma estreita faixa de terra entre o Oceano Pacífico e a Cordilheira dos Andes e se estende do sul do Peru ao norte do Chile. Situado a cerca de 3.000 metros de altitude, o que torna seu ar rarefeito, é um dos lugares mais secos do planeta. Em algumas localidades não chove há mais de trinta anos. Com uma rede hidrográfica pouco densa, a região é pontilhada por vulcões e lagoas e está quase sempre coberta por uma bruma espessa e salgada. A escassa vegetação que conseguiu se fixar nesse ambiente quase estéril possui mecanismos para aproveitar a pouca umidade do ar, o que explica a existência de várias espécies de cactáceas, que fazem lembrar as bromélias típicas da mata Atlântica, que se encontram dispersas, sobretudo pelas áreas mais abrigadas dos ventos. 

A beleza da paisagem, os curiosos salares (depósitos naturais de sal) e gêisers de água quente atraem turistas do mundo inteiro para esse deserto sul-americano.

O Deserto do Atacama não se parece com nenhum outro deserto. O traço suave das dunas de areia esculpidas pelo vento é obra rara. Permanece a natureza violenta, provocando terremotos, erupções vulcânicas, cinzelando na terra dura e ressequida, imensos planaltos, salinas, desfiladeiros e quebradas.

A porta de entrada no deserto do Atacama é a cidade de Calama, situada ao norte do Chile. O avião pousa no pequeno aeroporto e o deserto se apresenta sem subterfúgios, em toda sua imensidão estéril. Cidade mais povoada do deserto do Atacama, com aproximadamente 120 mil habitantes, Calama se desenvolveu por abrigar ricas jazidas de cobre, nitrato de sódio, lítio e salitre, entre outros recursos naturais. Chuquicamata, o coração de cobre no deserto e a maior mina a céu aberto no mundo, emprega cerca de 60% da população local. Para quem assistiu ao filme Diários de Motocicleta, de Walter Salles, é nesta mina que Che Guevara discute com um capataz que recruta mão-de-obra e atira pedras em seu caminhão.

De lá a dica é seguir até San Pedro de Atacama e pedalar pela região.

Situada a 2440 metros acima do nível do mar, San Pedro é um verdadeiro oásis. O verde que a cerca é fruto do sistema de canais que sai do centro da cidade e se estende pelas ruelas. A cidade foi construída na desembocadura do Rio Grande, o maior entre os raros rios do altiplano, mas que morre no salar sem atravessar a cordilheira do Domeiko. A localização estratégica fez florescer neste lugar a cultura dos atacamenhos, cujos ancestrais chegaram à região há mais de 11 mil anos, embora as primeiras aldeias tenham surgido há três mil anos. 

Por ser o coração da cultura atacamenha e importante centro incaico, San Pedro é considerada a capital antropológica e arqueológica do Atacama. Composta por um cenário monocromático de ruelas de chão batido e casas de adobe, tudo com cor e odor de terra, guarda importantes construções históricas. A praça central é marcada por uma majestosa igreja do início do século XVII, feita de adobe caiada, com piso de algarrobo e teto de tábuas do quase extinto cacto gigante. 

A pequena e agitada rua Caracoles, também toda de terra, é o point de circulação de turistas do mundo inteiro. Restaurantes, bares, mercado, várias lojas, uma pequena feira de artesanatos e o agito dos jovens dão charme a essa pequena cidade no coração do deserto.

Mas a visita ao Museu Arqueológico Padre Gustave Lê Paige, que guarda um dos maiores acervos da cultura pré-colombiana no Chile, é visita mais do que obrigatória. Um mergulho em mais de 2000 anos de história.

As pedaladas

Pedalar por um deserto situado em grande altitude é experiência fabulosa. Em alguns momentos se tenta pedalar forte, mas em razão da menor quantidade de ar o fôlego começa a falhar.

Alguns lugares que é possível chegar de bicicleta e são lugares de visita obrigatória:

Lagunas del Salar de Atacama: formado por três mil quilômetros quadrados de depósitos de sais. A uma altitude de 2300 metros, constitui-se na maior reserva mundial de lítio, além da presença de potássio, bórax e outros minerais. Sob a crosta de sal há um imenso lago de água salobra, que aparece na superfície em forma de lagunas. Durante o trajeto todo por estradinha de terra, dentre as muitas montanhas avistadas, uma das mais altas é na realidade um vulcão, o Lincancabur. Os seus 5916 metros de altitude separam o Chile da Bolívia. A paisagem encanta. 

A umidade relativa do ar é praticamente zero, nas margens da laguna Chaxa, os flamingos rosados fazem seus ninhos para depois migrar em direção às lagunas mais frias do altiplano andino. Durante o percurso é possível avistar algumas lagunas antes de atingir nossa próxima parada: duas pequenas lagunas em forma de cratera. Ali fizemos uma longa pausa para um lanche e um mergulho em suas águas geladas. Nesse dia pedalamos 70 quilômetros, o mais longo trajeto de nossa expedição.

Pukará Quitor: (Pukará significa fortaleza) não longe de San Pedro, a 3 km ao norte, seguindo o rio. Construída toda em pedra, a fortaleza do século XI conta a história da resistência dos atacamenhos até serem derrotados pelos incas em 1450, que por sua vez foram rendidos pelos espanhóis. Sua localização estratégica, como de todos outros Pukarás, tem uma vista panorâmica de toda região.

Atravesse a Cordillera de la Sal por um túnel construído em 1930. A subida faz o coração começar a bater em descompasso, os pulmões ficam ressequidos, em alguns momentos começamos a sentir tonturas, mas tudo isso é recompensado pela deslumbrante paisagem. Do outro lado do túnel começamos a descer e a paisagem vai ficando ainda mais bonita, imensas rochas dando um colorido que até então eu desconhecia. Só para ter ideia da beleza do lugar, percorremos 10 quilômetros em 3 horas, não pela dificuldade, mas sim devido às paradas para fotografar, filmar, admirar. Passado este trecho, no meio do nada, estava lá nosso caminhão de apoio, que havia seguido por outro caminho, a espera do grupo. Neste dia, para nossa surpresa, o almoço foi arroz com feijão preto.

Valle de La Luna: palavras, fotos ou filmes não são capazes de descrever o que sentimos ao admirar a beleza dessa dádiva da natureza. É simplesmente lindo! 

No Valle de La Luna só há pedra e cristais de sais. Nada respira, não há plantas ou animais. Uma paisagem lunar, como indica seu nome. Mesmo diante dos pequenos oásis, onde estão agrupadas as maiores vilas do deserto, a sensação é de estarmos em outro planeta. Ao alvorecer, próximo à duna, um movimento grande de turistas, estacionando seus carros ou bicicletas, para então subir a duna e buscar um ponto estratégico em cima da rocha para assistir um dos maiores shows da natureza: o pôr-do-sol. Após escutarmos instruções do guarda parque, seguimos para o lado oposto, em cima de uma outra rocha, com vista de 360° de toda região.

Mirador Cordilleira de la Sal: um mirante com linda vista de parte da região distante 6 quilômetros de San Pedro.

Valle de la Muerte: mais uma paisagem lunar, você vai parecer estar assistindo a um filme de ficção, tamanha a beleza do lugar.

Gêiser el Tatio: de carro são três horas até o local - um festival de erupção de águas vulcânicas, foi possível até se banhar em suas águas termais que fica a mais de 3 mil metros de altitude. Vale a pena voltar pedalando de lá até San Pedro. Só cuidado com a altitude.

Caspana: um verdadeiro oásis encravado em um cânion a 3260 metros de altitude. Impressionante! Com uma população de pouco mais de 400 habitantes, o charmoso povoado é uma aldeia de agricultores e pastores que abastece a cidade de Calama de verduras e legumes.

Ayquina: um fantástico povoado às margens do rio Salado. Logo na entrada do vilarejo há uma placa com o número de habitantes: 50! Um povoado bastante curioso, parecia até uma cidade abandonada. As construções parecem obras de um engenheiro maluco, com casas construídas uma quase sobre a outra.

Salar de Turi, Paso Del Diablo , Pukará de Lazana, Cânion Del Loa, às margens do rio de mesmo nome, o maior do Chile em extensão (440 km) e o único curso que nasce nos Andes e consegue atravessar todo o deserto de Atacama, para desaguar no Pacífico e Chiu-Chiu são outros locais que devem ser visitados.

Mais Informações

O Sampa Bikers promove viagens de bicicleta pelo Deserto do Atacama há 10 anos, com duas saídas em setembro. 

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