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Deficientes visuais pedalam por novos horizontes

Revista Bicicleta por Nidia Nóbrega
38.160 visualizações
22/01/2013
Deficientes visuais pedalam por novos horizontes
Foto: Nidia Nóbrega

Pedalar, sentir o vento no rosto, o cheiro da natureza, desbravar trilhas, se surpreender com novas paragens, paisagens, cores e sensações é uma experiência inenarrável. Seja um ciclista experiente ou iniciante - o prazer da sensação de liberdade e independência amplia percepções e permite a cada trajeto uma nova descoberta. Descrever essa emoção é normal para quem vive sem restrições. Já compartilhar com pessoas deficientes visuais esse sentimento não tem explicações para Ricardo de Carvalho - o Cau, 44 anos, casado, pai de três filhos e empresário de seguros de Florianópolis, que criou o projeto “Novos Horizontes” para inserir essas pessoas no ciclismo.

O projeto que tem pouco mais de um ano, não é oficial, nem subsidiado. Ganhou credibilidade e adeptos à medida que os passeios aconteceram e os vínculos se formaram. “Foi um projeto pessoal no início e hoje tem vida própria. Não sou dono de nada, apenas mais um dos apoiadores da ideia que foi bem aceita entre deficientes visuais, cicloativistas e voluntários”, afirma Cau.

Pedal com coração

Não teve mídia e nem pretendeu vender marca ou atender interesses particulares. A ideia foi guiada pelo desejo de compartilhar o prazer de pedalar com pessoas cegas.

“Sempre pedalei e compartilhar essa sensação com os cegos que ficam limitados por falta de oportunidades me mobilizou. Num evento de ciclismo noturno em Brasília conheci uma pessoa que tinha uma tandem (bicicleta de dois lugares) e treinava para participar de um circuito como guia de um deficiente visual. Isso me deu o norte para acrescentar na vida dos outros”, diz. 

Foram vários desafios para a construção de equipamentos seguros e depois a compra das bicicletas. As parcerias vieram aos poucos, na medida em se provou que não havia intenções políticas, financeiras ou marqueteiras. Cau lembra que o primeiro passeio foi recheado de temores e inseguranças. “E quem me deu força, tranquilizou e incentivou foram os deficientes que participaram. E não paramos mais”, conta rindo.

Cau, como é chamado pelos amigos, não contabiliza os custos do projeto de forma tangível. Seu balanço fala do aprendizado e da alegria do compartilhamento. “Sou muito melhor e mais feliz depois desse projeto, pois vê melhor quem enxerga com os olhos do coração”.

Sábado de pedal

Todos os sábados, o grupo se reúne para roteiros pela ilha. Cada pedal tem em média 20 km e o trajeto inclui parada para um café e uma boa conversa, ou para planejar a participação em projetos mais ambiciosos como o Audax 200 e 300 km, outros eventos esportivos como o Desafio Marcio May, em Rio do Sul, ou até mesmo pedalar em Buenos Aires.

Humanização, inserção e garantia de direitos 

Inês Berlanda Seidler, 33 anos, pedagoga e professora de crianças cegas, casada e mãe de uma menina, perde seu ar tímido quando fala da experiência de pedalar. “Sou cega e essa oportunidade ampliou meus horizontes, me integrou e humanizou. Ao pedalar estou mostrando que os cegos não são coitadinhos que devem ficar à parte do mundo, mas pessoas que têm direito de desfrutar novas vivências no mundo dos esportes e noutros setores da sociedade. Pedalar quebra essa coisa do tratamento diferenciado, da superproteção. Adoro pedalar e não falto nunca, me deixou mais segura e independente”.

Inês lembrou a luta milenar do direito dos cegos. “A história mostra que o cego teve que lutar para continuar vivendo e na atualidade luta por respeito, chance de crescimento intelectual, lazer, cultura e espaço como cidadão. Esse projeto chama a atenção para esse ponto”.
Alírio Alves Seidler, massoterapeuta, e marido de Inês, diz que pedalar lhe deu a chance de “brincar de ser atleta”. “O projeto é uma grande oportunidade de praticar um esporte do qual estaríamos excluídos se não fosse a iniciativa dos Novos Horizontes. Pedalar me ajuda a ampliar os sentidos, a apurar minha capacidade de percepção. Hoje tenho mais conhecimento do meu entorno, dos trajetos, do tempo. Fora o prazer de viver esse momento em parceria com o grupo. Essa integração também faz parte do exercício. Ter esses momentos é fantástico”, afirma ele.

Já Artur Mantelli, 56 anos, massoterapeuta, perdeu a visão na juventude. É um entusiasta do projeto e tem um bom humor contagiante. Além das conquistas na sua saúde, da redução do colesterol, das triglicérides e do melhor desempenho físico, festeja a sua evolução emocional. 

“Fiquei mais arrojado em minhas atitudes, mais independente e com a autoestima resgatada. Além disso, sentir o vento no rosto é uma sensação de liberdade que não tem preço. A cegueira não pode e não deve jogar as pessoas no imobilismo, encerradas em casa, sem nada para fazer. Além do exercício físico, é fundamental a chance de termos acesso a local e eventos, a uma vida cultural e social mais ativa e até mesmo ousar competir em eventos esportivos como o Audax”, ressalta esse garotão que foi para a academia para garantir mais massa física e condicionamento para enfrentar a bicicleta e já pedalar em Buenos Aires, Argentina.

Parcerias necessárias e crescimento compartilhado

Um dos parceiros dos Novos Horizontes é Milton Della Giustina, que tem uma loja de bicicletas. “Quando vi que era consistente, coletivo e sério, eu assumi a manutenção das bicicletas. Mas, como ciclista  é uma emoção ver os cegos sentirem o prazer de pedalar, sua alegria e entusiasmo a cada sábado diante da expectativa de uma nova experiência”.

Outro condutor é Manoel Carlos, engenheiro de 30 anos, que chega a ser filosófico. ”Pedalar com esse grupo me faz sentir a vida com mais intensidade. Sintonizar movimentos, a respiração, a soma da energia e entender a vida com seus altos e baixos, perdas e compensações, dificuldades e a alegria de vencer limites. Todo sábado é uma experiência diferente e única. Fiz amigos e estar com eles é uma grande festa”.

Já Milena Machado, guia de Inês, se emociona ao falar dessa experiência. “Fico realizada a cada sábado. É indescritível o que sinto quando pedalo com a Inês. Hoje vejo a vida de outra forma, com uma perspectiva maior. Somos uma dupla onde impera a confiança, respeito, atenção e preocupação com o outro. Não sou eu que dou a ela a chance de pedalar. Ela que tem me ensinado sobre a vida de forma muito mais clara e consistente”, diz Milena, emocionada.

Daniel Costa, biólogo e presidente da ViaCiclo, é outro apaixonado que faz parte do grupo e do pelotão de apoio. “Andar com eles é fantástico porque apesar de sua deficiência visual, têm muito mais visão, sensibilidade, força e coragem do que nós. Além de sua alegria, curiosidade e disponibilidade para a experiência, eles nos mostram o quanto a bicicleta é uma ferramenta de inclusão social, esportiva e de valorização humana quando abre novas oportunidades”.

Bicicletas Utilizadas

A primeira possui quadro Mônaco e foi montada no Della. A segunda é uma Houston que Cau e Artur compraram. A terceira sem marca foi doada pela Academia Racer. Outras duas são da marca Mongoose e foram compradas em Nova Iorque com custo rateado entre os voluntários do projeto. A última aquisição é uma KHS comprada este ano para o grupo participar do Audax 200 km com três bikes.

Cau ressalta que o custo de manutenção e aquisição de novas bicicletas é alto. “Um patrocínio, apoio ou subsídio seria muito bem-vindo e poderia levar algumas duplas a disputarem mais provas. Em pouco mais de um ano tivemos cinco duplas no Desafio Marcio May de Rio do Sul e três no Audax 200 de Floripa, e o grupo quer participar de mais provas”.

Como participar

Para participar do projeto como deficiente visual (propulsor) ou condutor basta entrar no endereço eletrônico  novoshorizontesfloripa.blogspot.com.br.

O sábado dos ciclistas começa às 9 horas com definição de destino e roteiro já que além da aventura sempre tem um bom café. Tem interesse? Acesse e entre em contato que será bem recebido.

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