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Cycle Chic

Revista Bicicleta por Anderson Ricardo Schörner
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18/12/2014
Cycle Chic
Foto: Cristi Iancu / Depositphotos

“Chegando de bicicleta e bem vestido a um restaurante para almoçar, o maitre logo me sugeriu colocar a bicicleta dentro do estabelecimento, numa espécie de quintal com mesas existente na entrada. Ele me acompanhou até a mesa perguntando:
- O senhor já morou na Europa?
- Não. Por quê?
- É que lá é que o pessoal anda de bicicleta assim, né?
- Bom, então transformemos aqui em uma Europa! - respondi sorrindo. - Vamos melhorar nossa cidade e um dia chegaremos lá.
O maitre saiu pensativo. Não somos como os europeus, mas podemos ser, nos pontos que importam, claro. E essa mudança depende de todos nós. É incrível como causa espanto chegar em algum lugar de bicicleta e roupa social, ou esporte fino, como chamam. Pedalar bem vestido é uma das formas de cicloativismo”.
(Willian Cruz) 

Na década de 50, os carros começaram a invadir Copenhagen, na Dinamarca. A tão conhecida cidade das bicicletas de hoje também passou pelo sufoco de um trânsito cheio de veículos. Mas nada como uma “boa crise” para mudar as coisas... Nos anos 70, quando a procura pelo petróleo começou a exceder a produção e o inchaço veicular nas vias começava a se tornar um empecilho, as pessoas procuraram outros meios para se locomover.

Como a reivindicação partiu dos cidadãos, logo o espaço urbano se transformou e o desejo pela qualidade de vida nas cidades ficou impregnado de tal forma que tornou-se cultura. O badalado arquiteto Jan Gehl, que ganhou o mundo com suas ideias para a transformação dos espaços urbanos em cidades para pessoas, relembra que participou das reivindicações. “Toda semana, nós fechávamos as ruas e pedíamos melhores condições para pedalar, para fazer com que os políticos soubessem que havia um desejo popular nessa direção”, afirma.  Nas pesquisas de hoje, ao contrário do que se possa imaginar, os dinamarqueses escolhem a bicicleta como meio de transporte pela sua praticidade e eficiência, e não só por ser sustentável. Claro: é prática e eficiente porque há, de um lado, o desejo do cidadão em utilizar a bicicleta, e por outro lado, infraestrutura que garante a segurança dos ciclistas. Além disso, os próprios motoristas dos carros também são ciclistas, ou seja, eles compartilham dos mesmos valores, e isso faz com que os motoristas tenham a sensibilidade necessária para conviver respeitosamente com pedestres e ciclistas.

Tudo isso contribuiu para o nascimento de um movimento relacionado com o “como pedalar”.

Uma foto, um blog, um movimento mundial

Foi na Copenhagen preparada para as bicicletas que o roteirista, fotógrafo e amante das bicicletas Mikael Colville-Andersen flagrou, em 2006, uma elegante jovem tomando impulso em sua bicicleta, após parar em um semáforo fechado: vestida com uma saia xadrez, um casaco preto, botas longas e com uma bonita bolsa no bagageiro, ela é o foco principal da foto que foi parar em um blog criado por Mikael, o Copenhagen Cycle Chic (www.copenhagencyclechic.com). Nascia um movimento que ganhou o mundo. Hoje, existem blogs no mundo inteiro com a mesma proposta, ou seja, fotografar pessoas da cidade pedalando com roupas e acessórios comuns, iguais aos de um pedestre ou motorista de carro, por exemplo.

Em palestra ministrada recentemente no Brasil, o precursor do movimento disse que em Copenhagen a bicicleta é tão comum quanto andar a pé, e o termo “ciclista”, portanto, não é um rótulo da minoria. Aliás, como a bicicleta é amplamente utilizada na cidade, existem vários estabelecimentos comerciais especializados no ramo, que vão desde as oficinas até as lojas de roupas e acessórios. “Em cada bairro existem bikeshops em que há acessórios dos mais simples aos mais sofisticados. Pode-se encontrar, por exemplo, um chapéu com estrutura interna de capacete”, relata Sérgio Batista, que esteve recentemente em Copenhagen. No Cycle Chic, os acessórios elegantes na bike, uma roupa bonita e descolada que identifique o seu estilo ou que seja ideal para o seu trabalho, o cuidado com a maquiagem e uma boa proteção de corrente são mais importantes que a quantidade de marchas, a aerodinâmica e o desenho das roupas específicas para pedalar mais rápido. Como Mikael mesmo expressou, “se você quiser ir de bicicleta ao trabalho ou ao supermercado, em distâncias curtas, você não precisa de nada especial. Basta abrir o seu armário”.

O movimento tem mais a ver com o uso da bike como veículo de transporte. Alguns pregam que é uma volta ao passado, quando as pessoas utilizavam a bike para se locomover. “Eu não estou sempre necessariamente bem vestido. Se eu estiver indo para algum lugar que exija que eu esteja bem vestido, então eu me visto adequadamente. O principal é que eu estou normalmente vestido”, destaca Tiago Moraes Leitman, carioca, criador do blog Rio de Janeiro Cycle Chic, primeiro blog Cycle Chic da América do Sul afiliado ao original, de Copenhagen. Essa é a grande sacada do movimento. Assim como um motorista não coloca macacão de fórmula 1 para ir trabalhar, o ciclista não coloca roupa fitness para pedalar até o trabalho. Além disso, vestido de maneira mais casual, o ciclista pode ser melhor aceito pelas pessoas que utilizam outros modais. Para Zé Lobo, do Transporte Ativo, “pedalar Cycle Chic é muito tranquilo e talvez até mais seguro do que pedalar com roupas esportivas, provavelmente pela surpresa que causa. As pessoas aceitam bem quem está pedalando bem vestido.” Por isso, o Cycle Chic pode ser encarado como uma forma de cicloativismo, pois é capaz de reivindicar, de forma pacífica, mas presente, mais bicicletas nas ruas. Ser chic é, acima de tudo, ser gentil consigo mesmo, com os outros e com o meio ambiente.

No Brasil

O Brasil é um país de pessoas criativas, ativas, bonitas e elegantes. O Cycle Chic bem que poderia ter nascido aqui... Temos algumas capitais brasileiras que possuem um blog Cycle Chic, onde são postadas notícias, artigos, dicas e principalmente fotos de pessoas pedalando elegantemente. Além desses blogs, há outros sites e eventos que difundem a ideia do movimento. “Acho que o movimento está crescendo e se espalhando em diversas regiões do país, de Porto Alegre à Aracaju, o que é muito positivo. Mais importante do que elevar o status da bicicleta é resgatar a sua normalidade enquanto meio de transporte”,  destaca Tiago.

Guee Siqueira, idealizador do blog Curitiba Cycle Chic, também se diz otimista com o crescimento do movimento em prol da mobilidade por bicicleta. “Começamos a divulgar o conceito Cycle Chic com a criação do blog, em março de 2009. Apesar da cultura do automóvel, o interesse pelo conceito é crescente no Brasil. Adotamos o slogan Mobilidade Sustentável com Estilo, pois estilo, bom gosto e consciência ecológica estão presentes em todas as áreas e muitos brasileiros estão começando a ver a bicicleta como uma ótima opção para o transporte urbano”. O movimento tende a crescer no país justamente porque mais pessoas estão sentindo que a bicicleta é a melhor opção de locomoção. “A classe média brasileira hoje está presa numa armadilha que já não pode mais ser entendida só pelo lado da praticidade. O carro está deixando de ser prático. O que ainda mantém as pessoas presas aos seus automóveis é uma questão de hábitos e cultura estabelecida. A bicicleta já foi um meio de transporte perfeitamente normal e não tem nenhuma razão para não voltar a ser”, finaliza Tiago.

Para a paulista Fernanda Guedes, ilustrada e adepta ao Cycle Chic, “o movimento ainda é incipiente no país, mas tem tudo para ganhar muitos adeptos, principalmente nas grandes cidades, pois não é preciso abrir mão do conforto e, claro, do estilo pessoal para ter-se mais qualidade de vida. As dificuldades para quem pedala Cycle Chic são as mesmas que qualquer outro ciclista vivencia, mas as reações são sempre muito positivas. Às vezes, as pessoas param o carro perto de mim para me dar os parabéns, comentar que estou chique, perguntar se eu vou para o trabalho de bike, essas coisas... Sempre muito respeitosas e gentis”, afirma. 

Para as mulheres, que geralmente são mais ligadas nas novidades da moda e estão sempre buscando soluções para se vestir elegantemente, a bike é um charme a mais, e não uma barreira. Várias grifes internacionais já perceberam isso e as bikes estão cada vez mais presentes em desfiles no mundo inteiro. A coleção verão 2011/2012 da Moncler Gamme Bleu, por exemplo, foi apresentada combinando itens para ciclistas. Há, inclusive, semanas de moda exclusivas para o público biker, como a Dublin Cycle Fashion Show, na Irlanda. 

“Tenho duas bicicletas e não vivo sem elas. Hoje, todos os lugares que posso vou pedalando: trabalho, aula de ioga, massagem, visitar meus pais, praia, casa do namorado, cinema... Só à noite eu tenho medo e não me sinto segura de bicicleta. As pessoas reclamam do suor no calor, e do frio no inverno. São desculpas, nós sabemos”, enfatiza a jornalista Luiza Carvalho. A programadora Márcia Fregolon, do Rio de Janeiro, revela que gosta dos benefícios que a bike proporciona, principalmente o contato com as pessoas. “Moro em Santa Teresa e trabalho no centro do Rio. Há alguns meses comecei a fazer o trajeto de bicicleta, pois é o jeito mais rápido de chegar ao trabalho, e o mais divertido também! Sinto-me conectada com a cidade e mais disposta. Uma das coisas mais divertidas é exatamente a reação das outras pessoas. É verdade que alguns carros chegam muito perto e dá um baita frio na barriga, mas, felizmente, no geral os motoristas são bem simpáticos. Outro dia fui abordada por um grupo de 10 senhoras, que fizeram várias perguntas e tiraram fotos, como se a bicicleta fosse uma atração turística.”

A presença masculina no movimento também é crescente, porém, mais tímida, pois os homens são mais competitivos e estão saturados com a ideia de que o sucesso se mede pela potência do carro que possui. Para os mais conscientes, pedalar Cycle Chic “é uma negação viva, presencial e à prova de contestação da crença popular de que o ciclista sempre chega ao destino sujo, suado e cheirando mal. Faz com que as pessoas entendam que ciclista não precisa ser sempre um adolescente sem camisa, um homem com roupa de atleta ou alguém que pedala por falta de dinheiro para a condução”, afirma o ativista e mantenedor do site Vá de Bike, William Cruz.

Quero pedalar Cycle Chic

De nada vale uma boa ideia sem ação. Mas, então, o que fazer?

Mude. Faça diferente. Você quer mais infraestrutura para as bicicletas? Então, o que vai surtir mais efeito: pichar palavrões e frases grosseiras na rua, ou procurar as autoridades competentes para dialogar e propor melhorias? Disponha-se a ajudar, sugira soluções. Sabemos que entupir uma cidade de carros fracassa quaisquer tentativas de mobilidade urbana. Mas os carros estão nas ruas... Os cidadãos brasileiros querem seu carro... E o governo “se vê obrigado” a construir mais estradas.

“Adoraria ver trajetos exclusivos para bicicletas no centro e também na zona norte do Rio, e imagino que quanto mais gente andar de bicicleta, mais essa necessidade vai se tornar clara. Enquanto isso, faço minha parte. Procuro me vestir o melhor possível quando estou de bicicleta, ainda melhor do que se fosse usar outro meio de transporte”, Márcia dá o exemplo. Se queremos mais ciclovias, precisamos estar com as bicicletas nas ruas. Precisamos querer a bicicleta como meio de transporte. As dificuldades existem, é inegável, mas temos exemplos de cidades que superaram seus desafios e hoje estão prontas para receber os ciclistas. É fácil, e até covarde, acomodar-se e apenas reclamar. A pressão e as exigências de condições mínimas de segurança para pedalar devem sempre continuar, mas da forma correta. Contagie outras pessoas para aderirem à bicicleta e acompanharem você. Faça a ideia se espalhar. 

Além disso, precisamos unificar os valores e concepções dos usuários das vias públicas. Seja pedestre, ciclista, motorista ou usuário de transporte público, com ou sem necessidades especiais, todos possuem exatamente o mesmo objetivo: se locomover. É o exercício do direito de ir e vir. E, infelizmente, até entre os ciclistas pode haver antagonismos. “Curiosamente, é nos grupos de ciclistas que percebo mais preconceito por não me encaixar na categoria ‘biker’”, diz Fernanda, quando perguntada sobre como é a aceitação e a abordagem para quem pedala Cycle Chic. Guee Siqueira relata a mesma situação. “A grande dificuldade de aceitar o conceito Cycle Chic, aqui no Brasil, partiu principalmente dos próprios ciclistas, com críticas negativas e preconceito, como se o movimento fosse apenas um modismo passageiro. Felizmente, atualmente há uma maior aceitação por parte de todos”.

Temos muitos obstáculos, é fato. Se você quer ir pedalando ao trabalho, vai enfrentar cidades com algumas subidas íngremes, o calor tropical, terá que pedalar entre os carros, e quando chegar suado não vai encontrar um chuveiro para tomar um banho nem bicicletário adequado para deixar a magrela. Novamente, o aumento no uso das bikes e a cobrança de maneira correta poderão produzir resultados. Será difícil por um tempo? Sem dúvida. Mas o exemplo de Copenhagen demonstra que as dificuldades são superáveis. Quando a cidade começou a se modelar para receber bicicletas, críticos afirmavam que a Dinamarca não era a Itália, fazendo alusão ao fato de que na Dinamarca o clima frio é muito mais rigoroso e isso impossibilitaria o uso da bicicleta. Hoje, é comum vermos fotos de pessoas pedalando em Copenhagen mesmo debaixo de neve. As desculpas não passam de muleta psicológica para a acomodação.

“O Brasil produz e usa muita bicicleta como meio de transporte, mas a maior concentração ainda está nas cidades menores, nas áreas mais rurais e principalmente nas camadas mais pobres da sociedade. A imagem que vemos ser disseminada nos centros urbanos é a da bicicleta como atividade esportiva ou de lazer, e que quem usa a bicicleta como meio de transporte deve se tratar de um fanático por bikes, um ecologista radical ou alguém sem meios financeiros para usar um transporte mais ‘digno’. Se a bicicleta não pode ser usada como um meio de transporte normal pela classe média, dificilmente ela vai ganhar status de veículo de transporte. Num momento em que a classe média baixa tem um aumento no poder de compra, o que vemos é um aumento absurdo nas vendas de motos e, progressivamente, de carros também. Isso ocorre num contexto em que faltam alternativas de transporte público de qualidade e o planejamento urbano na maioria dos grandes centros urbanos é deplorável”, afirma Tiago.

Neste cenário, duas inovações da indústria ciclística são muito bem-vindas, tanto pela praticidade, quanto pela promoção da cultura da bike no país: a bicicleta elétrica e a bicicleta dobrável. Para não chegar suado no trabalho, você pode usar a tração elétrica na ida. Na volta, depois do expediente, aí sim é hora de usar os pedais e fazer aquele exercício físico reconfortante para quem já enfrentou as pressões do dia. E com o problema da falta de espaço, a bike dobrável é compacta para guardar e pode facilmente ser conjugada com outros modais, como ônibus e metrô. Além de práticas e eficientes, essas bikes são muito elegantes e sofisticadas.

O mais importante, no final das contas, não é como você está vestido, que bike você usa, que acessórios pode ter: é utilizar a bicicleta como veículo de transporte, sem qualquer impedimento, da forma mais natural possível, inclusive no vestir.

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