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Cordilheira del Viento

Revista Bicicleta por Sampabikers
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07/11/2012
Cordilheira del Viento
Foto: Sampabikers

Fica difícil explicar em palavras o que uma viagem dessa causa na gente. A experiência de fazer uma viagem onde acampamos no meio de uma natureza tão imensa e majestosa, já é algo que te deixa desnorteado e maravilhado. Acho que as pessoas que se propõem a fazer esse tipo de viagem também são diferentes e especiais. São várias horas de pedal, de certa dificuldade, e depois a recompensa não é o conforto de um banho ou uma cama quentinha, mas sim olhar para o céu e ver milhões de estrelas piscando, e ouvir só os sons da natureza ou o total silêncio pertinho de você. Há uma aproximação bem maior entre todas as pessoas, e no final fica uma sensação de vazio e certa tristeza em ter que se despedir delas, depois de termos passados seis dias juntos vivenciando situações inesquecíveis, onde o companheirismo e o encantamento com a natureza deslumbrante eram sempre constantes”.

Atravessar os Andes de bicicleta é algo fabuloso, inesquecível. É possível atravessar os Andes por vários pontos diferentes, chamados de pasos. Quando você atravessa uma vez, a vontade é atravessar mais vezes por outro local. Nem sempre atravessar os Andes significa que vamos pedalar em meio a grandes altitudes, ar rarefeito e muito frio. Geralmente atravessamos pasos por estradas que cortam vales, não raramente passamos por grandes altitudes, isso deixa a viagem ainda mais bonita, pois a ideia é curtir essa maravilha da natureza em cima de uma bicicleta e pedalar em meio àquelas montanhas.

Os Andes, assim como as Montanhas Rochosas, são de formação geológica recente. Como a Cordilheira dos Andes ainda não foi muito desgastada pelos agentes da erosão, existem ali grandes altitudes como, por exemplo, o Pico Aconcágua, na Argentina, com cerca de 6.960 metros de altura. A Cordilheira dos Andes se estende da Venezuela até o sul do Chile, tendo aproximadamente 7.500 quilômetros. Em alguns trechos, apresenta 3.000 quilômetros de largura e enormes altitudes.

Os Andes, em algumas partes, deixam de formar uma única cadeia montanhosa e se ramificam, formando alinhamentos de montanhas, separados uns dos outros. Entre essas ramificações ou alinhamentos, encontram-se os altiplanos, que são planaltos de altitudes elevadas. Nessas ramificações também são encontrados vales, alguns deles ocupados intensamente pelo homem.

A Cordilheira dos Andes é um lugar fascinante e faz o Planeta Terra mais bonito. É a segunda mais alta cadeia de montanhas do mundo. Por isso, alpinistas do mundo inteiro vão para lá em busca de aventura e desafio. Mas a região não é reservada apenas para escaladores radicais. Podem-se fazer ótimas pedaladas, principalmente em uma Mountain Bike. É uma excelente opção para quem deseja começar a ter contato com as montanhas sobre duas rodas.

Nossa tradicional Travessia dos Andes, entre Malargue na Argentina e Curicó no Chile, segue por um trajeto de grande importância histórica e beleza incomum. Neste caminho foi realizada a primeira expedição na região central dos Andes que se tem notícia. Foi organizada pelo general San Martín, quando em 1817, cruzou a cordilheira para auxiliar a libertação do Chile, então dominado pelos espanhóis.

Um caminho de 350 km de montanhas que separam Mendonza da fronteira chilena. Paisagens únicas, deslumbrantes, desertos, geleiras e picos nevados. No verão, única época do ano possível para realização da viagem, a neve só ocupa os picos de algumas das montanhas. Na verdade, as atrações começam pelo tempo: quente e seco com temperaturas altas e céu azul, pois as chuvas são raras nesta época do ano. Durante o trajeto tudo muda. A flora e a fauna são limitadas pelo clima árido de altitude. Como a vida vegetal é quase nula - os últimos vestígios se apresentam no máximo aos 4.500 metros - a vida animal é reduzida a lebres, ratos-dos-Andes, poucos guanacos e raríssimos pumas. Ainda existem condores, perdizes, águias-brancas e falcões.

Após pesquisas e conversas com muitas pessoas conhecedoras dos Andes, foi sugerido a Travessia pelo Paso de Pichachén - um caminho solitário, pouco conhecido e transitado. Em 2008, eu e meu parceiro na organização de viagens na Argentina - Mariano D'Alessandro, nos animamos e decidimos realizar uma viagem de reconhecimento.

A viagem foi realizada em um 4 x 4, e o objetivo era estudar a possibilidade de realizar a travessia de mountain bike. Verificamos o trajeto, seus desníveis, quilometragens, levando em conta a beleza do caminho e das suas paisagens. Também era necessário definir etapas com uma dificuldade razoável e homogênea, somada à necessidade de fazer bons acampamentos de etapa a etapa, aproveitando tudo o que a cordilheira tem a oferecer.

Logo depois de realizado o reconhecimento, no verão de 2009, e de haver marcado todo o trajeto em um GPS para registrar as distâncias e desníveis, tínhamos então um ano para fazer a devida promoção da viagem destinada a grupo de mountain bikers para a travessia. A partir de 2010, lançaríamos uma Nova Travessia dos Andes na Cordilheira do Vento.

O Paso Pichachén era uma incógnita para nós e nos surpreendeu incrivelmente. Era um caminho de montanha feito na medida, com variedade de paisagens, picos nevados, a lagoa La Laja de um azul tão intenso no meio dos Andes. A virgindade do caminho, a variedade de climas e relevos de um dia para outro, a magnitude dos Andes, expressadas no Cerro Domuyo, de 4700 metros e a Sierra Velluda de 3865 metros não nos deixaram dúvidas: íamos organizar uma travessia ali.

O Paso Pichachén havia sido uma via de comunicação para os índios araucanos e mapuches durante séculos, e havia sido também uma via de fuga para contrabandistas que comercializavam no que viria a ser Argentina e Chile. Hoje, é um caminho que permanece fechado entre abril e dezembro devido ao duríssimo clima invernal dos Andes. Logo, o gelo e a neve cedem aos primeiros raios de sol de primavera, gerando um degelo monumental, e no verão, com as águas mais calmas do degelo e boas temperaturas, o caminho é aberto para o trânsito dos aventureiros.

A TRAVESSIA

(Descrita por Mariano D’Alesasandro com comentários de Adriana Andrade, participante da viagem).

1º dia

Nossa aventura começou em Chos Malal, cidade de origem de minério e petróleo que se encontra a oitocentos metros do nível do mar, na Província de Neuquén, Patagônia Argentina. Nossa viagem teve início em um domingo. Logo após o café da manhã, os participantes demonstravam a ansiedade e o nervosismo para começar logo a aventura.

“Chos Malal parece uma cidade do velho oeste, esquecida no tempo. Ela já foi capital da província de Neuquén, mas agora parece só um lugar de passagem no meio do nada. Tem duas praças bem arborizadas e é só isso”.

Após um briefing sobre como seria a viagem, o grupo começou a pedalar. Em poucos minutos, todos se deram conta de porque a Travessia ser conhecida entre os locais como “Brisas do Pacífico” ou “Caricias de la montaña”: Sopra um vento fenomenal de 40 km/h que duplica o esforço a ser realizado. O Paso Pichachén nos surpreendeu com o Vulcão Tromen de quase 4000 metros e o colosso do Cerro Domuyo, o mais alto da Patagônia, tudo isso com poucos quilômetros de pedal.

Para nós, organizadores da viagem, os primeiros vinte quilômetros são ideais para estudar o grupo: observamos alguns que levam uma má postura na bicicleta, que numa travessia exigente como esta, se transforma em dores. Em outros, observamos suas bicicletas com vários tipos de ruídos, e é fundamental poder tirá-los para evitar problemas mecânicos e uma perda de energia.

Passado o meio-dia, após quatro horas de pedal, o último ciclista chega à parada para o lanche. Em um oásis em baixo de uma gostosa sombra, protegido do vento, desfrutamos umas gostosas empanadas. Chegamos ao nosso acampamento do primeiro dia em Huinganco às 18h, muito cansados, mas com a alegria de saber que no primeiro dia havíamos superado 1375 metros de desnível e 61 quilômetros em meio a um cenário inigualável.

“Os primeiros 44 km foram em asfalto e achei bem puxadinho, pois não paramos de subir, e o vento forte não parava de soprar. Em certo momento, eu até desci da bici, com medo de ser jogada no meio da estrada e um carro me atropelar. Não haviam muitos carros, mas sempre aparecia um ou outro. Os últimos 17 km foram em rípio (cascalhos). O vento sempre presente. Acampamos num camping com chuveiro com água quente“.

À noite, uma surpresa. Jantamos um cabrito dos Andes com delicioso Vinho malbec de Mendoza.

2º dia

A primeira noite do acampamento havia sido muito boa, a transição para o selvagerismo completo era progressiva. Enquanto na primeira noite tínhamos certo luxo, como o banho quente, a partir da segunda noite já seria necessário acampar. Após um café da manhã completo e de haver recarregado as energias, começamos nossa pedalada. Seriam 43 quilômetros com 950 metros de desnível para superar.

Foi um dia de subidas e descidas, de vale em vale, conhecendo os verdadeiros rios de montanha da Patagônia, de um azul intenso, utilizados para a pesca de trutas com mosca (Fly Fish). Cruzamos o rio Neuquén, o rio Nahueve, o rio Lileo até chegar ao ponto do lanche.

“O trajeto foi todo no rípio. Atravessamos alguns rios, um visual muito legal. Parecia até as nossas chapadas. Vimos de bem longe o Vulcão Antuco com o pico nevado”.

Nesta travessia contávamos com uma grande vantagem. Enquanto o grupo pedalava e aproveitava a viagem, uma equipe de apoio formada por 4 argentinos tinha a tarefa de preparar os acampamentos e toda nossa comida.

Depois do almoço cruzamos por uma região vulcânica, um enorme deserto de pedras negras com pouca vegetação, dando a ideia do que podia ser uma erupção vulcânica no passado. Já no local de nosso segundo acampamento, o cenário era diferente: verde, em meio a um cânion, ao lado de um rio de montanha.

3º dia

“Foi meio difícil, o vento sempre soprando”. Começou bem ensolarado, mas pouco a pouco depois de haver iniciado a etapa, demonstrou porque os Andes são os Andes. Em minutos a temperatura baixou para quase 10°, obrigando os ciclistas a se agasalharem. Todos eram obrigados a levar consigo uma roupa de frio, e no carro de apoio que seguia sempre por último, mais roupa de frio para emergência.

Após 26 quilômetros chegamos ao controle de fronteira argentino, onde seriam realizados os trâmites da aduana e imigração. Para aproveitar o tempo perdido durante todo o trâmite, a organização preparou um reforçado almoço.

À tarde, ingressamos no Cajon Del Pichachén, subindo 300 metros em 12 quilômetros.

Tomar banho após a pedalada foi um desafio a esta altura. Sem dúvidas, era melhor tomar banho com os raios de sol da tarde, e mesmo assim: que frio! Tinham aqueles que aplicavam o famoso banho “checo” e aqueles mais corajosos que mergulhavam na água gelada. Era como pegar a água do freezer e se molhar. Foi a noite mais fria, chegando a -1° na madrugada. As barracas amanheceram com gelo.

4º dia

“Houve uma subida bem forte em direção à fronteira Argentina/Chile. Visual maravilhoso, pois saímos de um vale e subimos muito”.

Amanheceu com pouco vento, condições ideais para fazer o ataque ao cume. A subida foi intensa, subimos quatrocentos metros em oito quilômetros. Com o desejo de superação movido por uma energia inexplicável, os ciclistas devoravam quilômetros até chegar ao final da subida.

“Chegamos ao topo, na fronteira, e de lá avistamos outro vale, já no Chile. Havia alguns lugares com neve, e o pessoal aproveitou para fazer uma guerra de bola de neve.”

Uma beleza deslumbrante e indescritível foi o prêmio no final da subida. Por alguns minutos, todos ficaram em silêncio olhando para o horizonte, contemplando o vulcão Antuco, de quase três mil metros, e a imponente Sierra Velluda, de 3865 metros de altitude. A descida de oito quilômetros foi curta, mas impressionante. Sobre um solo de areia vulcânica, nós deslizamos por velocidades indecentes, em meio a um cenário maravilhoso. Mas a etapa foi difícil. O vento começou a soprar a 20 quilômetros do centro de controle dos carabineiros do Chile, em Los Barros, deixando o trecho bem longo.

O acampamento dessa tarde foi uma obra de arte. As barracas solitárias junto ao rio, com o entardecer convertendo a neve branca do Vulcão Antuco em distintos tons de laranja: uma imagem que com certeza ficou marcada na mente de todos. 

5º dia

Laguna La Laja - Acampamento Rio Rucue: No quinto dia, pedalamos ao redor do vulcão, ao oeste e ao norte, deixando a lagoa azul "La Laja" à direita. Foi uma etapa fotográfica, difícil de pedalar, pois a todo instante tínhamos que parar para registrar os momentos.

“Sobe e desce, pedalamos ao redor do vulcão, vimos algumas lagoas bem legais e passamos também por várias cruzes de soldados chilenos que morreram em maio de 2005, por causa de uma nevasca que tirou a vida de 45 rapazes. Passamos em frente à pequena estação de esqui de Antuco”.

Após vinte quilômetros, começou uma descida até o início do asfalto. A equipe de apoio fez duas paradas intermediárias para o grupo hidratar e comer algumas frutas e barras energéticas, para recuperar as energias. Finalmente, no quilômetro trinta e um, chegamos ao asfalto. Algumas partes do nosso corpo ficaram felizes com isso.

A transformação da vegetação de montanha na floresta foi radical: Ciprestes, Radales, Lenga, Ñires e Coihues cobriam as encostas da montanha, enquanto cachoeiras apareciam por toda parte.

Terminada a etapa, aproveitamos para um mergulho no rio Rucue, a água não tão fria convidava para um banho mais longo. À noite, após repor as energias com um delicioso macarrão, a integração do grupo estava completa, o portunhol rolava engraçadíssimo em meio às montanhas andinas. A integração entre os ciclistas argentinos e brasileiros é excelente, são grandes amigos, verdadeiros hermanos.

6º dia

Foram 50 km no asfalto - Acampamento Rio Rucue - Los Ángeles: A última etapa nos levaria lentamente a civilização. A transição era suave, pouco a pouco o tráfico rural aparecia e aos poucos nos recordávamos de onde pertencíamos. Com a renúncia de saber que deixamos um mundo ideal, mas consciente de que nós éramos reféns deste mundo cheio de conforto e comodidades, nos entregamos a um ritmo esportivo intenso. Com certeza cada um fez um balanço vivido naqueles dias. Nos últimos dez quilômetros até Los Ángeles, o grupo seguiu em um pelotão, transformando assim um esporte individual num esporte coletivo.

“Havia um pelotão dos mais fortes bem na frente, depois um pelotão no meio e eu, a “pelotinha” pedalando sozinha por último, até ser resgatada pela Lili e mais três ciclistas argentinas”. Havia sempre uma van atrás do último ciclista”, comenta Adriana Andrade.

Mais Informações: 

O Sampa Bikers promove viagens de bicicleta pelo Deserto do Atacama há 10 anos, com duas saídas em setembro. Esse ano as viagens acontece de 10 a 15 e 15 a 19, esta com direito a um inesquecível trekking no vulcão Lascar.

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