REVISTA BICICLETA - Ciclovia do Danúbio
Baixe Gratuitamente a Edição Digital de Maio - Junho 2017 da Revista Bicicleta!
Pneus Kenda

O Portal
da Bicicleta

SHIMANO
Revista Bicicleta - Edição 76

Leia

Revista
Bicicleta



+bicicleta - Roteiros - Europa

Ciclovia do Danúbio

Em 2008, um amigo cicloturista falou-me que iria percorrer o Rio Danúbio. Desde então, não me saía da cabeça a ideia de percorrer pelo menos uma parte do mais famoso rio da Europa, consagrado na valsa de Strauss, “O Danúbio Azul”. Dois anos depois, o sonho se tornou realidadade.

Revista Bicicleta por Marici Slavec
40.246 visualizações
25/11/2016
Ciclovia do Danúbio
Foto: Artur Bogacki

Além da cicloviagem de oito dias ao longo do Danúbio, desde sua nascente na Floresta Negra, Alemanha, até a cidade de Linz, na Áustria, percorri dois dias pela Estrada Romântica. No total foram 522 km alternados com alguns trechos de trem para economizar tempo e conhecer melhor algumas cidades ao longo do caminho.

De Munique à Floresta Negra 

Em Munique, uma das primeiras coisas que fiz foi ir até uma loja enorme de bicicletas chamada Radl Bauer para comprar a minha Pegasus 24 marchas completa com vários acessórios inclusos por 500 euros. É uma bicicleta para viagem que eles chamam de Trekking-Rad. Esse modelo é muito vendido por lá. Já vem com bagageiros, paralamas, luz alimentada por dínamo, protetor de corrente e até o suporte da garrafinha de água. Só precisei acrescentar o ciclocomputador e um cadeado.

No dia seguinte, pela manhã, peguei o trem em Munique para Hörnberg, uma pequena vila situada na Floresta Negra. Queria conhecer o famoso Freilichtmuseum (que em português significa Museu ao Ar Livre), e experimentar o original Bolo Floresta Negra. Por orientação do meu professor de alemão fiz a reserva das passagens de trem aqui no Brasil com dois meses de antecedência pelo site da Deutsch Bahn. Isso porque o trem a ser utilizado seria Intercity e é necessário reservar lugar, principalmente, para a bicicleta: ouvia pessoas comentando no trem que haviam feito a reserva até com três meses de antecedência.

Início da Ciclovia do Danúbio

Parti para o meu primeiro dia ao lado do Rio Danúbio – um domingo ensolarado – sob as badaladas do sino da igreja local. Descobri, seguindo as placas indicativas da ciclovia, que seu percurso, não necessariamente, permanece ao lado do rio. Em diversos trechos ela pode se distanciar centenas de metros ou mesmo mais de um quilômetro. Algumas vezes segue pela margem direita, e outras pela margem esquerda. Ao atravessar pequenas vilas e cidades é fácil se confundir com outras ciclovias regionais. Algumas vezes me perdia, o que possibilitava conversar com outros cicloturistas também perdidos pelo caminho. O que acabava se tornando muito agradável porque permanecíamos juntos pedalando por vários quilômetros. A grande maioria deles já tinha seus cabelos brancos.

Logo depois de percorrer cerca de 100 km vi que nos telhados das casas havia vários ninhos de cegonhas. Dava para vê-las com seus filhotes; no inverno elas voltam para a África. Nas cidades em que elas ficam, existem várias estátuas e cartazes fazendo referência a elas.

Algumas vezes tive dificuldade para encontrar pousadas a preços mais acessíveis. Acredito que para viajantes em grupo seja imprescindível ter uma reserva. Restringe um pouco a liberdade, mas economiza tempo e dinheiro.

Um passeio pela Estrada Romântica

Ao fazer meu planejamento da viagem descobri que na cidade de Donauwörth, a Ciclovia do Danúbio cruza com a Estrada Romântica, uma das rotas turísticas mais bonitas da Alemanha. Oficialmente ela começa perto de Frankfurt, na cidade de Würtzburg, e vai em direção aos Alpes sentido sul, terminando na cidade de Füssen, no sul da Alemanha, perto da fronteira com a Áustria. 

Cheguei a Rothenburg, uma linda cidade medieval localizada na Estrada Romântica, depois de ter pego três trens a partir de Donauworth. Para quem gosta da atmosfera da Idade Média, Rothenburg é uma verdadeira viagem no tempo. Essa cidade tem suas origens no séc. XII, mas o maior desenvolvimento ocorreu no séc. XV. Visitei três museus, os quais são uma magnífica aula de história. A cidade é toda cercada por uma muralha extremamente conservada. Demorei mais de uma hora para dar a volta toda nela filmando e fotografando a cidade. Estava deslumbrada com a cidade e o pôr-do-sol lá de cima.

No dia seguinte, de Rothenburg à Dinkelsbühl, percorri de bicicleta 76 km da Estrada Romântica com predominância de subidas e mais de 30 °C. Enquanto que na Ciclovia do Danúbio a circulação é exclusiva de ciclistas, a Estrada Romântica é uma estrada com circulação de carros e ônibus turísticos. No dia que passei por lá estava pouco movimentada e também só cruzei umas duas vezes com ciclistas que vinham no sentido oposto, com predominância de descidas. Em alguns trechos da Estrada Romântica, é possível pegar estradinhas e ciclovias paralelas. Atravessei até uma floresta que tinha sido acrescida ao roteiro recentemente. Entre Rothemburg e Dinkelsbühl, predominam os campos. Foi uma viagem muito solitária. Comparando os dois roteiros concluí que o melhor da Estrada Romântica são as cidades medievais, mas que a Ciclovia do Danúbio é muito melhor para percorrer de bicicleta e com uma frequência bem maior de cicloturistas, o que acaba enriquecendo a viagem depois de algumas conversas. 

Voltando à Ciclovia do Danúbio

Foi com muita alegria e até um certo alívio que voltei para as margens do Danúbio. Prossegui até Neuburg, onde me hospedei. Durante o café da manhã na pousada, conheci quatro senhores alemães que também estavam pedalando pelo Danúbio. Indaguei sobre as esposas e eles rindo disseram que elas preferiam ir ao shopping e tomar café com as amigas. Discutimos um pouco sobre política, a crise da União Europeia e Ângela Merkel. Acabei descobrindo que eles iriam para o mesmo sentido que eu, perguntei se poderia acompanhá-los e pedalamos juntos por 20 km até Ingolstadt. Formávamos uma bela cena pois eles me escoltaram, dois na frente e dois atrás, portando bandeiras alemãs no guidão. No dia seguinte a Alemanha iria jogar na Copa do Mundo de Futebol.

Nos despedimos e peguei um trem até Regensburg. Regensburg no passado abrigou um acampamento das legiões romanas. Após 843, passou a ser sede de Ludovico II, o Germânico. Na Idade Média, destacou-se como importante centro comercial e cultural do sul da Alemanha. Passeando pela cidade, deparei- me com uma festa em que estavam se apresentando vários grupos folclóricos tocando polcas, regada à cerveja e com a melhor salsicha da Alemanha. Pelo menos é o que dizem os habitantes de lá. A cidade estava lotada de turistas.

Em minha opinião, um dos trechos mais bonitos da ciclovia fica entre as cidades de Passau e Viena.  Passau, uma charmosa cidade barroca, é também conhecida como “cidade dos Três Rios” porque nela o Danúbio se encontra com os rios Inn (do sul) e Ills (do Norte), perto da fronteira com a Áustria.

Passando cerca de 50 km de Passau, chega-se num trecho conhecido como Schlögener Schlinge, uma curva fechada de 180 graus do rio, no Vale do Danúbio, onde atravessei com a bicicleta num pequeno barco para o outro lado. Cheguei em Linz depois de exatos 100 km. Mas esse trecho é tão bonito que me arrependi de tê-lo percorrido num único dia. Devia ter pernoitado numa Bauerhof (casa de campo) perto de Schlögen. Fica a dica para quem for.

Em Linz, hospedei-me numa Gasthof (hospedaria) cujo edifício existe desde 1595. Fiquei imaginando os cavaleiros daquela época chegando para comer e dormir para seguir viagem no dia seguinte. Foi o que fiz nestes dias de bicicleta. Só que antigamente era a única maneira possível das pessoas viajarem e hoje em dia fazemos isso por opção.

A bicicleta aproxima as pessoas promovendo o espírito de cooperação. Você faz parte da paisagem e não simplesmente passa por ela, diferente de quando se está de carro. Uma viagem de bicicleta traz algumas características do peregrino ao cicloturista. O peregrino aprecia cada dia como único, prioriza o que é realmente importante, desapega das “tranqueiras” que carregamos conosco, sabendo que assim mais leve será a jornada.

Essa viagem foi diariamente descrita no blog pedalnodanubio.blogspot .com.br. Em setembro estarei percorrendo mais uma vez a Ciclovia do Danúbio. Desta vez organizando um grupo de cicloturistas. Maiores informações também podem ser obtidas no blog.

Um pouco sobre o Danúbio

O Rio Danúbio nasce em uma cidade chamada Donaueschingen, na Floresta Negra, Alemanha, atravessa oito países passando por parques nacionais de preservação ambiental, campos, vilas, cidades medievais, mosteiros e igrejas seculares. Sua extensão é de 2.875 km até desaguar no Mar Negro.

O Danúbio é o segundo maior rio da Europa e sua ciclovia é uma das mais famosas rotas para cicloturismo da Europa. Tem tudo que um cicloturista sonha: é plana, possui lindas paisagens e rico patrimônio cultural. A ciclovia passa por Alemanha, Áustria, Eslováquia, Hungria, Croácia, Sérvia, Bulgária, Moldávia, Ucrânia e Romênia.

Trens

Sempre fico tensa quando tenho de pegar o trem com a bicicleta. Prevalece a “Lei de Murphy”, aquela que diz que se algo pode dar errado, dará: se você achar que o vagão de bicicleta é o primeiro, ele com certeza será o último e você vai ter que correr até o outro lado, e vice-versa. É melhor ficar no meio da plataforma e correr para o dito cujo assim que descobrir em qual lado está.

Nas estações: se não tiver elevador de acesso às plataformas, não haverá outro jeito a não ser retirar os alforjes da bike, abandonando-a por alguns momentos na plataforma para descer a escada com eles e em seguida voltar para pegar a bicicleta. Algumas vezes encontrei ajuda dos transeuntes que se ofereciam para levar meus alforjes enquanto eu descia e subia as escadas com a bicicleta. 

Ao retirar os alforjes, aproveite e deixe a bicicleta sem pesos para embarcar. Se o trem que você for pegar for dos antigos, ele vai ter três degraus bem altos e vai ser complicado você levantar a bicicleta para entrar. Principalmente no meu caso que sou mulher e não tenho muita força. Falaram-me que o maquinista fica olhando se todos embarcaram, mas eu tinha pesadelos só de imaginar eu embarcando e minha bicicleta me acenando adeus da plataforma.

Vou transcrever aqui algumas das dicas da Allgemeinen Deutschen Fahrradclub (ADFC) que estão fixadas nos vagões de bicicletas.

• Ofereça ajuda aos demais ciclistas que estão embarcando.
• Deixe viajantes saírem primeiro.
• Pergunte aos demais ciclistas quem vai desembarcar primeiro para na medida do possível arrumar as bicicletas de forma a facilitar o desembarque.
• Permaneça próximo à sua bicicleta por toda a viagem.
• Seus alforjes devem estar fora da bicicleta antes de embarcar.

Nós sempre ouvimos falar que os trens na Europa são pontualíssimos, mas essa regra é para os Intercities. É comum ocorrer atrasos com os trens regionais e você perder outras conexões. 

Nunca viaje sem o ticket. Você será um “Scharzfahren” (viajante clandestino). A multa é de 40 euros sem exceção e a fiscalização está intensa. Não se esqueça de comprar o ticket da bicicleta à parte. Aliás, as máquinas automáticas são um pouco complexas de usar. Peça ajuda.

Dicas

Quando fiz o check-in, meu par de alforjes pesava 13 kg e levei uma pequena mochila de 15 litros de bagagem de mão com meu netbook, filmadora e guia de viagem que não devia passar de 3 kg.

Quanto às roupas, a melhor escolha dependerá muito da estação. Prefiro levar o mínimo possível e, se precisar de algo, comprar o que for preciso. É melhor do que levar coisas desnecessárias.

Só levo camisetas dryfit que secam logo e são leves. Para dias mais frios, gostei muito de ter levado uma blusa de fleece com zíper na frente, uma blusa térmica preta como segunda pele e uma jaqueta 100% impermeável e transpirante de goretex. Não sou fã de roupas de ciclismo, mas isso já é questão de gosto pessoal.

Pode-se dizer que o começo da viagem está e traçar o roteiro. Com o guia de viagem personalizado, faça reservas com antecedência nas cidades mais turísticas e trens mais utilizados, como os Intercities. No caso desta viagem fiz reserva apenas em Munique, Rothenburg e Dinkelsbuhl, que são cidades turísticas. Também fiz reserva da passagem de trem Munique-Hornberg (Floresta Negra). Imprimo todas as reservas, mapas do google, informações turísticas, horários dos trens que irei pegar, e-ticket da passagem, telefones da companhia aérea etc. Encaderno com espiral e levo comigo.

Sobre o celular, uma dica boa é só comprar um chip local e colocar no seu celular. Foi muito útil, pois em vez de chegar numa cidade e ficar pedalando a esmo procurando hospedagem, algumas vezes verificava no mapa da ciclovia, que tinha alguns endereços e telefones de hospedarias, e ligava perguntando se tinha quarto livre e o preço.

Levei meu netbook para ir descarregando as fotos e filmes, alimentar o blog, ler e escrever e-mails. Também usei o Skype para falar online e ligar para telefones fixos. Praticamente todos os dias consegui usar o netbook com rede Wi-Fi enquanto jantava no restaurante, pois poucas hospedarias tem Wi-Fi.

Não tem nenhum mercado, padaria e feiras que funcionam aos domingos. Caso não reserve seu lanchinho de véspera, só vai achar comida em restaurantes.

Curtiu esse post?

Quer receber mais conteúdo sobre bicicleta e ciclismo em sua casa? Então clique aqui conheça nossas ofertas de assinatura.

Comentários Facebook
Comentários
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar.

Para postar seu comentário faça seu login abaixo.

E-mail
Senha

 

Cadastre-se Aqui | Esqueceu a senha?

Edições On-lineCadastre-se Esqueceu a senha?
E-mail
Senha
Revista Bicicleta 2012 © Todos os Direitos Reservados