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Ciclistas são índios

Revista Bicicleta por André Geraldo Soares
35.153 visualizações
01/07/2013
Ciclistas são índios
Foto: Digitalpress

Para que as cidades tornem-se cicloinclusivas, costumamos peticionar, entre outras medidas, principalmente infraestrutura adequada, reeducação para o trânsito e fiscalização ostensiva. Tais políticas públicas são indispensáveis, entretanto, caracterizam-se por confinar as causas do problema dentro de marcos temporais, espaciais e culturais muito estreitos. A realidade é complexa e mesmo questões que julgamos mais remotas também interferem na consecução dos nossos anseios.

É preciso reconhecer que o trânsito cicloexcludente não é a única injustiça do mundo, que as demais injustiças também doem nas suas respectivas vítimas e que todas elas coexistem no mesmo caldo cultural. E basta prestarmos um pouquinho de atenção para reconhecermos, em todas elas, a ação de padrões econômicos, políticos e ideológicos que, se não mudarem, não nos darão o prazer de viver em um mundo igualitário. 

Questões tão distintas como exploração trabalhista, machismo, homofobia, hidrelétricas, genocídio, racismo, favelização, concentração fundiária e desmatamento constituem nossa sociedade e a análise de qualquer um dos seus aspectos não pode ignorar todo o conjunto. Vejamos algumas ilustrações.

O desenvolvimento econômico – diretamente ou através dos seus capatazes no governo – trata os ciclistas na cidade da mesma forma que trata os índios nas reservas e os agricultores familiares no campo.

O genocídio dos povos indígenas, iniciado em 1500, continua diariamente e tem em Belo Monte seu maior expoente contemporâneo; a usina hidrelétrica é empurrada sobre as poucas culturas sobreviventes, que ali conseguiram um sossego, para possibilitar o progresso do país – diga-se: das cidades, que precisam iluminar seus outdoors e avenidas, carregar suas bicicletas elétricas e celulares, fabricar seus artigos descartáveis e supérfluos. O mundo do automóvel – toda sua vasta cadeia produtiva e seus consequentes efeitos colaterais – continua sendo construído com o sacrifício de culturas que compartilham conosco o mesmo território.

As cidades avançam sobre as florestas e rios e são ligadas por rodovias que rasgam matas e devoram morros; sua população demanda, para fartar seu poder de consumo, cada vez mais matéria-prima e energia extraídas da natureza: madeira, petróleo, peixe, minérios, água. O agronegócio inventa que sem a monocultura vamos passar fome, homogeneíza toda a paisagem ao seu alcance e ensopa o solo de veneno; não contente com isso, inviabiliza a produção dos seus vizinhos agricultores familiares e incorpora suas pequenas propriedades, forçando-os a serem serviçais na cidade. E tudo vai piorar: o passivo povo permitiu a mutilação do Código Florestal, selando um golpe de misericórdia nos retalhos de habitats naturais que restaram e ampliando as chances de enchentes e deslizamentos. O conforto material e tecnológico, pelo qual pelejam entre si os indivíduos que vivem na urbanidade, é ampliado com a redução da biodiversidade e da sociodiversidade.

O transporte coletivo, o caminhar e o pedalar não terão primazia na cidade porque isso não interessa ao desenvolvimento econômico, assim como não lhe interessa a produção rural familiar, tampouco tribos vivendo sobre jazidas. Uma mobilidade urbana só será social e ecologicamente decente se houver decência nas relações humanas e destas com a natureza. E mesmo que a cidade se torne um aglomerado mais aprazível, devemos perguntar: interessa-nos ciclovias em qualidade e quantidade suficientes sem termos florestas íntegras e rios limpos? Queremos ser uma sociedade de ciclistas e de passageiros coletivos que despreza a aflição dos trabalhadores rurais e dos indígenas? Basta o respeito no trânsito enquanto o saque da natureza só serve ao desfrute da ponta da pirâmide? Respondendo positivamente, no máximo nosso esforço servirá para desobstruir o trânsito de quem não vai abandonar as regalias do seu estilo de vida.

Vejamos os países que nos servem de exemplo quando falamos em bicicleta. Não é por acaso que a bicicleta, símbolo da simplicidade e da autonomia, seja mais usada onde os direitos humanos e a natureza são mais respeitados. Alguém há de lembrar: mas eles já barbearam todo o seu solo e enviaram suas indústrias para países com mão-de-obra mais barata e com menor controle ambiental! Ora, isso só nos faz compreender o tamanho da encrenca com a qual estamos lidando! O capital mundial é integrado e afeta todos os países, os oceanos e o céu não têm fronteiras e sua poluição impacta em todos os cantos do planeta: a transformação terá de ser humana e planetária, ou será apenas um rearranjo dos privilégios.

O desenvolvimento econômico – diretamente ou através dos seus capatazes no governo – trata os ciclistas na cidade da mesma forma que trata os índios nas reservas e os agricultores familiares no campo. Não resta outra saída além da solidariedade: o ciclista que age para promover seu meio de transporte precisa sentir-se um índio, assim como, inversamente, o camponês que almeja viver em paz na sua terra terá que combater o latifúndio automobilístico em que se transformaram as cidades.

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