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Ciclismo de Estrada - Paixão Inexplicável

Revista Bicicleta por Claudia Franco
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28/07/2017
Ciclismo de Estrada - Paixão Inexplicável
A minha paixão pelo ciclismo de estrada não foi amor à primeira vista... tinha muitas resistências devido ao desconhecimento.
Foto: © Daniela Baek

O início nada amigável

Quando comecei a pedalar já fui direto para a prática do mountain biking. O mountain biking mudou a minha vida, meus valores, sonhos, objetivos. Focada totalmente no esporte passei a desejar a melhora do meu desempenho. Amigos experientes e insistentes me orientaram a treinar com road bike (sinônimos: speed ou bicicleta de estrada).

Sempre me esquivava da conversa quando o assunto era ciclismo de estrada e a tal road bike. Vários receios borbulhavam na minha cabeça: nem pensar em pedalar uma bicicleta destas! O pneu liso e fino, não terei estabilidade. O guidão baixo demais vai me causar dor nas costas. Pedalar em estrada dá muito medo. Enfim, simplesmente desconhecia e consequentemente ignorava toda a alta tecnologia que há por detrás da prática do ciclismo de estrada, não só no que se refere a desempenho e a conforto, como também a segurança.

Durante um bom tempo, olhei o esporte com certa distância. Simplesmente achava que não era para mim, além de considerá-lo monótono, arriscado e muito desconfortável. Mas vencida e cedendo à pressão dos amigos, acabei comprando uma road bike para treinar. Após os primeiros pedais com a bicicleta, de indiferença passei a detestar o ciclismo de estrada, pois o meu desempenho era péssimo, causado pelo forte desconforto. Terminava o treino toda moída, com muitas dores.

Eu não sabia que o desconforto, as dores e a falta de rendimento eram provenientes do uso de uma bicicleta de tamanho inadequado para a minha estatura, que tinha limitação de componentes, falta de ajuste da bicicleta para o meu corpo e também desconhecimento das técnicas de pedalar corretamente uma road bike. Diante do cenário nada favorável, desisti da prática.

A segunda tentativa

Acreditando que ciclismo de estrada não era para mim, continuei focada no mountain biking. O meu projeto com a escola de pilotagem de bicicleta Ciclofemini prosperou e passei a ser apoiada pela Specialized. Para a minha surpresa e engolindo a seco, no pacote da parceria recebi uma road bike, a Dolce, um dos modelos femininos do fabricante.

De bicicleta nova e com muita tensão, fiz mais uma tentativa de pedal pela ciclovia da marginal do Rio Pinheiros (São Paulo – SP). Lembro-me até hoje daquele dia, parece que havia atravessado o portal para uma nova era! A bicicleta era leve e funcionava maravilhosamente bem: as alavancas de freios eram perfeitas para as minhas mãos, conseguia frear com facilidade, a troca de marcha era precisa, o selim perfeito, o sistema de amortecimento ZERTS tirava as vibrações do quadro e imprimia muita suavidade na pedalada.

Neste dia pedalei quase o dobro da maior distância que havia pedalado em uma road bike até então. Ao final do pedal, sem nenhuma dor, percebi que muito dos preconceitos que tinha a respeito de uma road bike já haviam se desfeito. Em seguida fiz o ajuste da bicicleta para o meu corpo, o body geometry fit, e passei a pedalar com maior frequência. Após um ano, a minha Dolce foi trocada por um modelo de carbono, uma Ruby. Entusiasmada com a nova bicicleta, participei do meu primeiro desafio de longa distância, um Audax de 90 km. 

A experiência transformou de vez o meu sentimento e conhecimento a respeito da prática do ciclismo de estrada.

Acabando com os receios

Meus maiores receios a respeito da road bike: desconforto relacionado à geometria e postura de pilotagem e falta de estabilidade por conta de pneus finos não existiam mais. Passei a focar os treinos e passeios em distâncias maiores, acima de 100 km.

Aprendi que, assim como qualquer outro modelo de bici, a bicicleta de estrada é confortável, desde que tenha o tamanho adequado à sua estatura, que tenha a geometria correta ao gênero (masculino ou feminino), e que esteja ajustada ao seu corpo. Minha maior distância pedalada em uma road bike foi de 313 km sem nenhum desconforto, apenas o cansaço natural da longa distância.

Passei a entender que a estabilidade da bicicleta está relacionada a um conjunto de fatores e não única e exclusivamente ao pneu fino e liso. A estabilidade pode ter muito mais a ver com a técnica de pilotagem e com a geometria do quadro, do que com apenas a largura do pneu.

“Todas as vezes que participei de uma prova de ciclismo de estrada... me senti respeitada, valorizada e prestigiada. É um profundo sentimento de existência.” © Sérgio Borges

Pneu fino: o terror das mulheres

O motivo principal para a maioria das mulheres sentirem receio ou pavor de pedalar uma road bike é a largura do pneu. Pneu é assunto sério, mas não é a largura do mesmo que deve impedi-la de pedalar uma road bike. 

É importante saber que para cada tipo de prática de ciclismo e estilo de pedalada existe um pneu adequado. A indústria do pneu existe há mais de um século e usam altíssima tecnologia desde o projeto inicial até a manufatura do mesmo. Claro que a segurança do ciclista depende do pneu, porém, a atenção não deve estar na largura do mesmo, e sim na sua qualidade. Tente não economizar muito nesse item.

Falar sobre pneus demanda um artigo único, pois é muito interessante, vasto e complexo. Mas ressalto alguns pontos que a ajudarão a refletir sobre o assunto.

Resumidamente, o pneu fino dará mais rolagem e sendo liso terá maior área de contato com o chão e maior aderência.

A calibragem do pneu - pressão/quantidade de ar - deve ser feita conforme algumas variáveis, por exemplo: 

• Quanto mais leve o ciclista, menos pressão é necessária nos pneus.

• Quanto mais liso e perfeito o piso, maior pode ser a calibragem.

• Menos pressão nos pneus significa mais atrito com o chão, portanto maior aderência.
• Maior pressão significa menos contato com o chão, portanto menos aderência, e em contrapartida, maior velocidade.

• Quanto mais fino o pneu, mais pressão ele admite.

Deixando todas estas informações técnicas de lado e a largura do pneu, basta assistir a uma competição de ciclismo de estrada para entender que a road bike é estável e segura.

As vantagens e benefícios que encontrei no ciclismo de estrada

Praticidade na metrópole: a prática do mountain biking, principalmente para quem mora em uma cidade como São Paulo, demanda muito tempo de deslocamento, grandes distâncias e poucas opções de lugares próximos à cidade. Literalmente, é necessário sair da cidade para chegar até uma boa trilha, consequentemente o pedal fica relegado a um único dia da semana (sábado ou domingo), além disto, invariavelmente você vai acabar dependendo de um grupo para pedalar. Com a minha road bike posso pedalar sozinha, na maioria das vezes consigo sair de casa pedalando direto para os meus locais preferidos de treino.

Sem manchas roxas ou ralados: no mountain biking sempre me machuquei muito, nada sério, mas a cada trilha colecionava uma dúzia de ralados e manchas roxas. No dia seguinte ao pedal sentia dores e desconforto em muitas partes do corpo devido às pancadas. No ciclismo de estrada, a não ser que se sofra uma queda, você termina o pedal intacta, sem nenhum arranhão.

Volume: esta palavra incorporou muito fortemente no meu vocabulário. O ciclismo de estrada te permite pedalar uma quilometragem alta em poucas horas. No mountain biking a relação distância x tempo é bem diferente, pois tudo depende da dificuldade técnica da trilha. Poder pedalar acima de 100 km em poucas horas é algo que me atrai demais.

Pelotão: definitivamente, pedalar em pelotão eleva o seu nível de habilidade de pilotagem da bicicleta. Demanda muito foco, concentração, ritmo e atenção. No pelotão você aprende a mover-se com o fluxo do grupo, e depois de certa experiência logo perceberá que no grupo existe uma dinâmica. Além das vantagens técnicas, pedalar em pelotão cria uma sinergia incrível entre os integrantes. Você consegue perceber a intensão de cada um nos mais rápidos movimentos, seja do ciclista à sua frente ou ao seu lado. É simplesmente eletrizante. Muitas das grandes amizades que tenho começaram literalmente no vácuo de uma roda.

Facilidade de Treinamento: o ciclismo de estrada incorporou à minha vida o importante hábito de treino semanal. Primeiro porque tenho opções de lugares próximos para treinar, e segundo porque na minha cidade há centenas de assessorias esportivas voltadas para o esporte.

Disputa justa com semelhantes

O que selou de vez o meu casamento com o ciclismo de estrada foi sem dúvida alguma a categorização por idade nas provas/competições.

A grande maioria das provas de ciclismo de estrada disponibiliza para as mulheres categorias de idade de 10 em 10 ou de 5 em 5 anos. As de 5 em 5 anos são as mais justas!

Nas provas de mountain biking, em sua grande maioria, esta categorização não acontece. Geralmente na modalidade feminina a categoria é over 30, over 35, over 40. Para mim, que já faço parte da “over 50”, a falta de categorização é totalmente desmotivadora.

Participar de uma prova e competir com ciclistas 10, 15 e até 30 anos mais jovem é muito frustrante. Você chega nas provas tendo que se contentar em conseguir a medalha de participação, mas pódio nem em sonho! 
Nestas provas sem a categorização sempre me sentia uma ninguém. Pagava igual a todos, fazia o mesmo esforço, passava pelos mesmos perrengues, mas não tinha os mesmos direitos: de competir de igual para igual, não passava de uma mera figurante! E por conta disto parei de participar das provas sem categorização por idade.

O ciclismo de estrada, por ter uma divisão igualitária, é muito mais estimulante, pois além de poder competir com seus semelhantes, existe a possibilidade concreta de uma conquista de pódio e também a comparação de tempos e desempenho que serão objeto de seus futuros treinos.

Todas as vezes que participei de uma prova de ciclismo de estrada, principalmente das provas que dividem as categorias de 5 em 5 anos, me senti respeitada, valorizada e prestigiada. É um profundo sentimento de existência.

Meu grande amor: pedalar!

Não pense que deixei de gostar do mountain biking e que não pratico mais. Simplesmente descobri uma nova paixão. E se me perguntarem qual dos dois eu gosto mais, certamente a minha resposta será: tanto faz, o que eu gosto mesmo é de pedalar!

E se me perguntarem qual dos dois eu gosto mais, certamente a minha resposta será: tanto faz, o que eu gosto mesmo é de pedalar! © Felipe Costa e Silva

 

Como escolher uma bicicleta de estrada

Abra qualquer revista sobre ciclismo e dentro das primeiras páginas você verá uma meia dúzia de novos modelos e marcas de bicicletas de estrada, com 100 razões para parar o que está fazendo e ir imediatamente comprar a nova bicicleta.

Comprar uma bicicleta de estrada é como comprar um carro novo!  É importante fazer o teste drive para entender e perceber as diferenças entre os diversos modelos e tecnologias oferecidas.

É importante levar em consideração o tipo de uso que fará da bicicleta, se a utilizará para competição  (endurance ou triathlon, por exemplo), ou simplesmente pelo prazer de pilotar ou treinar em uma bicicleta de estrada. A definição do tipo de prática o/a levará numa direção correta.

Tendo isto em mente, faça pesquisas antes de escolher a bicicleta para não gastar todas as suas economias, afinal, todos queremos bicicletas de carbono e componentes de última geração! Mas será que isto é realmente necessário?

Selecionando a bicicleta

Antes de pensar no tipo de material utilizado na construção da bicicleta (alumínio, aço, carbono), é prioritário escolher a geometria que mais lhe atenderá nos quesitos de conforto e aerodinâmica. 

Quando for escolher uma bicicleta, olhe primeiro os ângulos e depois os materiais.

Por exemplo: 

1 - Quanto mais íngreme o ângulo do tubo principal, mais responsiva será a bicicleta; 
2 - Ângulo do tubo principal mais reto, mais estável a bicicleta será, e terá menos sprint.

Observe os ângulos do canote em relação aos pedais, o comprimento do chainstay, distância entre os eixos. Cada angulação e medida lhe dará diferentes experiências de pedalada para diferentes práticas.

Um quadro de carbono pode ser mais leve que um quadro de alumínio, mas que tipo de prática você está fazendo? 
Você é um/uma atleta que precisa de uma bicicleta com grande rigidez, ou você é um peso pluma alpinista que vai escalar os altos pontos de montanha?

Além disto, considere também seu biotipo. Você é todo(a) troncudo(a) e pesado(a)  ou esguio(a) e leve?
Importantíssimo comprar o quadro no tamanho adequado à sua estatura. Não aceite um quadro maior ou menor ao seu tamanho achando que fará os ajustes e tudo ficará bem. Você deve ter uma bicicleta correta à sua altura. Porque aceitar fazer uma adaptação a uma bicicleta de tamanho errado? 

Você tem o direito de ter a melhor experiência com a pilotagem de uma bicicleta de estrada e para tanto um quadro no tamanho correto fará uma enorme diferença.

Uma rápida olhada nos preços

O preço da bicicleta depende de muitos fatores. Quadros de carbono têm diferentes qualidades e espessuras, que determinam a variação nos preços.  

Tubos de alumínio têm diferentes séries e existem diferentes tipos de tubos de aço que afetam grandemente a relação da força x peso.

Tenha em mente que os componentes se desgastam, mas os quadros duram muito mais tempo.

Quando você estiver em dúvida entre um quadro de carbono mais barato com componentes de melhor qualidade ou um quadro mais caro com componentes mais simples, sempre escolha o melhor quadro. Você pode substituir os componentes mais tarde.

Outras partes da bicicleta

Fique atento(a) ao selim e também às áreas de apoio do guidão.

Faça um body geometry fit, ajuste da bicicleta a seu corpo, para conseguir o melhor ajuste da bicicleta para o seu estilo de pedalada, para as dimensões do seu corpo. 

Neste processo o profissional o/a ajudará a escolher o selim que melhor se adequará a seu corpo, aos ossos do assento (ísqueos), assim como também o/a ajudará escolher a largura correta do apoio do seu punho.

Conclusão

A escolha de uma bicicleta vai muito além de olhar o anúncio e se basear pela cor ou pela bicicleta top do mercado. Dedique um tempo para pesquisar os ângulos e componentes e pense a respeito do tipo de pedalada(aplicação) que fará com a bicicleta. E, sempre, sempre experimente antes de comprar.

 

Compartilhando a paixão

O ciclismo de estrada é inexplicável. Só pedalando para sentir a emoção da linha, da velocidade, do vento na cara. Na Escola de Bicicleta Ciclofemini, tenho o privilégio de poder contribuir para que outras mulheres descubram e se apaixonem pelo Speed. Daniele e Cíntia são exemplos de alunas que tiveram contato com o ciclismo de estrada, e falam sobre o que isto representa, agora, para elas:

 

Daniele Rodrigues

Fisioterapeuta, 41 anos, residente em São Paulo-SP

Eu gosto do ciclismo de estrada por ser um esporte fascinante, pois quando comecei a praticá-lo não quis mais parar. Dá uma sensação gostosa de bem-estar, de alegria ao final de um treino ou trajeto. É viciante! Sempre quero mais, ao sentir que cheguei ao topo ou ao final de um treino através do meu esforço. Tudo começou quando a Cláudia Franco me convidou para um pedal na ciclovia. A partir desse dia, tomei gosto pelo esporte. No início, pedalava uma vez por semana e atualmente pedalo três a quatro vezes por semana. Estou em um grupo com assessoria. A bicicleta de estrada tem esta facilidade, de poder treinar em São Paulo através da ciclovia marginal, USP, sem precisar sair da cidade.

O esporte fez com que eu me sentisse mais confiante (superação de medos), determinada, com autoestima elevada e com sentimento de que “eu posso, eu consigo”. Até participei de alguns desafios, flying lap e alguns treinos fora de São Paulo, como em romeiros, Cunha. E no ano que vem estou querendo participar do L’Étape Brasil.

A bike de estrada me tornou mais atenta com os pedestres e principalmente com os ciclistas no trânsito. Além de participar de um grupo de amizade e companheirismo, sempre um ajudando o outro com palavras, exemplos, dicas e com alguns empurrõezinhos. Proporcionou-me disciplina, organização, tanto nos treinos como na vida pessoal, e conscientização de que tudo depende de mim através do meu esforço, treino e do trabalho físico e mental. Na hora dos obstáculos, como uma subida, aprendi que consigo enfrentá-los sem medo e com determinação e persistência, pois só assim chegarei ao topo da colina.

 

Cíntia Borges Margi

Professora universitária, engenharia elétrica com ênfase computação, 41 anos, residente em São Paulo

O ciclismo de estrada me ajuda a encontrar equilíbrio. Quando estou na bike, o foco é a cadência, a respiração, aquele momento único, a subida, de repente, uma risada ou um comentário de um(a) ciclista apontando um fato inusitado ou a vista incrível. Companheirismo também faz parte, por mais solitário que o esporte possa parecer. Ao pedalar, desligo do cotidiano, dos problemas e ansiedades. É uma sensação de leveza, liberdade, independência, mas ao mesmo tempo basta um segundo, um movimento, para nos lembrar o quão pequenos e frágeis somos”.

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