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Cair faz parte

Revista Bicicleta por Cláudia Franco
49.634 visualizações
23/05/2013
Cair faz parte
Foto: Ingram Publishing

A grande maioria das mulheres que fazem o curso de mountain biking com o Ciclofemini dizem que o maior medo é de cair.

Andar de bicicleta exige certa destreza e bastante equilíbrio. Toda pessoa é capaz de andar de bicicleta e adquirir a destreza necessária a partir do momento que fizer da prática uma constante. Ou seja, quanto mais pedalar, mais equilíbrio, mais destreza vai se obtendo: é um processo evolutivo.

O mais importante é alinhar as expectativas. Saber que a dificuldade inicial deixará de existir dali a algum tempo, principalmente se houver persistência e dedicação.

Na prática do mountain biking, a queda é inexorável. Não existe nenhum ciclista que não tenha levado um tombo, do menos ao mais experiente, todos já caíram.

O mountain biking é praticado em terrenos irregulares de diversos tipos, com mato, areia, terra batida, terra fofa, pedra, brita, lama, água. Portanto, as chances de queda existem e com elas vêm as manchas roxas, arranhados, esfolados, corte e até problemas mais sérios, como possíveis fraturas.

Desanimador? Claro que não! O mountain biking traz tantos benefícios físicos e emocionais que a queda faz parte do cenário e conseguir completar uma trilha sem cair torna-se um divertido desafio.

Quando comecei a praticar mountain biking levei muitos tombos. Foram tantas as quedas que eu dizia que o meu esporte predileto era cair e, em segundo lugar, vinha o mountain biking.

Sendo muito honesta, eu caía por qualquer motivo, o primeiro deles era a insegurança. Qualquer movimento em falso da bicicleta que representasse uma pequena ameaça eu apertava as alavancas de freio com força máxima e o resultado era a queda. Já com quase dois anos de prática, percebi que os responsáveis pela grande maioria das quedas não eram os terrenos irregulares das montanhas e sim:

1 -  Insegurança
2 - Medo
3 - Desconhecimento de técnicas
4 - Desconhecimento do equipamento
5 - Pouca experiência ou prática
6 - Negligência
7 - Excesso de confiança

A insegurança e o medo são fatores bloqueadores. Quando tomada de medo ou insegurança, a pessoa não consegue raciocinar corretamente e também não consegue fazer os movimentos corretos, tudo trava e com isto o risco da queda torna-se maior. Para perder o medo e ter mais segurança é necessário praticar. A prática vai lhe trazer a autoconfiança. 

Além disto, se for possível, procure participar de cursos e clínicas. Nestes cursos, você vai adquirir conhecimento a respeito da sua bicicleta e também conhecimento das técnicas do mountain biking. O principal objetivo de um curso é entregar ao aluno as técnicas adequadas para que ele sinta-se seguro ao realizar um percurso ou uma manobra mais arriscada. Saber a hora correta de frear, qual freio utilizar, se será o traseiro ou o dianteiro. Como trocar a marcha corretamente de forma que a corrente não saia do conjunto coroa e cassete. Técnicas e exercícios de equilíbrio. Tudo isto pode ser aprendido em um curso. O aprendizado obtido em um curso certamente lhe dará mais segurança.

A bicicleta é sua amiga. Você e ela formam um conjunto harmonioso. A bicicleta é a extensão do seu corpo, portanto, não tente dominá-la. A bicicleta é para ser entendida e respeitada.

A bicicleta de mountain biking é um veículo que foi concebido para andar sobre os terrenos mais inóspitos possíveis. Ela está preparada para suportar grandes impactos. Obviamente, existem diferenças de qualidade nos quadros, suspensão dianteira e traseira, freios, enfim, o conjunto como um todo. A grande diferença entre as diversas marcas existentes é a durabilidade, estabilidade e a qualidade dos componentes em geral, que irão proporcionar mais ou menos conforto ao ciclista.

Eu tinha muito medo das descidas e principalmente daquelas que tinham muitos buracos ou pedras. A minha reação era sempre frear bruscamente diante do obstáculo e a consequência eram as quedas.

Hoje, já sei que a bicicleta está preparada para passar sem nenhuma dificuldade sobre estes obstáculos. Portanto, a partir do momento que entendi isto, deixei de querer controlar a bicicleta simplesmente deixando que a minha magrelinha fizesse o seu percurso livremente. A suspensão e a geometria da bicicleta de mountain biking são preparadas exatamente para passar por cima destes obstáculos. Apenas use o movimento correto do seu corpo para ficar em harmonia com a magrela.

O lado oposto do medo e da insegurança é exatamente o excesso de confiança e a negligência. A medida que sua autoconfiança cresce, e a bicicleta passa a ser a extensão do seu corpo, existe uma tendência de nos tornamos autoconfiantes demais e até negligentes. 

Não há nada mais delicioso que descer uma ladeira a 60 km/h. O vento na cara, a velocidade, a adrenalina, o prazer de estar em sintonia com a bicicleta tornando-se um único elemento, o coração disparado e a sensação de poder, de domínio. Tudo isto é muito lindo, mas certamente a chances de quedas e acidentes serão proporcionais.

Depois de superar a fase do medo, deixei de cair. Mais recentemente percebi que comecei a cair novamente. E sem dúvida alguma todas as minhas quedas foram causadas pela negligência e pelo excesso de confiança. Sempre filmo e fotografo as trilhas, os passeios e os cursos que ministro. Com o aumento da minha segurança, técnica e habilidades, passei a conduzir a bicicleta com uma mão no guidão e na outra vou segurando a filmadora e/ou a máquina fotográfica. Troco de mão, faço tomadas de diversos ângulos, me abaixo sobre a bike, e o tempo todo pedalando. Qual o resultado disto? A queda. Todas as quedas recentes foram por pura negligência e autoconfiança.

Conheça a si próprio. Não superestime suas habilidades, elas podem lhe causar joelhos roxos e pernas arranhadas. 

Risco controlado. Seja em que estágio estiver é importante saber que o mountain biking é um esporte de risco, mas que pode ser controlado ao passo que dominar as técnicas e conhecer os limites da sua companheira, a bicicleta, e também os seus próprios limites.

Apesar das manchas roxas e marcas de arranhados, o mountain biking me trouxe muito mais benefícios. Meu corpo está muito melhor do que era antes, como também minha saúde física e mental. Outro benefício incomensurável é o círculo de amizades. Nunca, na minha vida toda, tive tantos amigos como agora. Os praticantes do mountain biking formam uma comunidade forte, unida, solidária e harmoniosa. Todos se respeitam, não importando o nível intelectual, financeiro, credo ou cor. 

Maria Alice Frontini, 46 anos, executiva do segmento de informática, praticante de mountain biking há apenas três meses, disse que participar de um curso de mountain biking deu-lhe o suporte necessário para experimentar algo novo que queria fazer, mas que não se sentia preparada.

“A cada experiência foi possível perceber que aprendi, que evoluí dentro dos meus limites e do meu ritmo, o que me motivou a ir em frente. Se eu tivesse tentado  sem esse suporte eu iria me paralisar com o medo e possivelmente me machucar e abandonar. O comentário geral é que não é necessário fazer curso para andar de bicicleta, basta pedalar. Mas não é verdade, há técnica. Dominando a técnica, o pedal será mais prazeroso e seguro. Outro aspecto importante foi engajar-me a um grupo com desafios e motivações semelhantes, para ter as oportunidades de experimentar e aprender de uma forma lúdica”, finaliza Maria Alice.

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