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Bicicletas e Infância: indissociáveis

Revista Bicicleta por Therbio Felipe M. Cezar
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02/07/2018
Bicicletas e Infância: indissociáveis
Foto: L.F / Shutterstock.com

Uma vez, fui inquerido por uma jovem mãe sobre os benefícios que seu filho/filha poderia ter ao andar de bicicleta. Ela não via, segundo o que me contou, grandes vantagens de fazer sua criança andar de bicicleta ao invés de jogar bola, tênis, praticar natação ou dança. Afinal, tudo o que estaria realizando naquela tenra idade seria apenas convertido em gasto energético atribuído ao exercício físico. Então, disse-me ela, tanto faz se andar de bike ou dançar, o importante é estar em movimento. Pedi uns minutos de sua atenção e busquei reunir algumas possibilidades.

Primeiro, expliquei que tudo o que eu viesse a dizer fazia parte do repertório que a vida me havia contemplado, e que se quisesse buscar razões mais científicas poderia pedir a opinião de especialistas da área da saúde ou do movimento. Porém, propus que enquanto eu falasse ela pudesse observar as crianças que passavam por nós, em suas bikes. Ao notar que uma delas se aproximava, comecei a tentar responder por que motivos deveria incentivar sua criança a escolher pela bicicleta.

Equilíbrio. Ah, mais do que um malabarismo existencial trata-se de um desafio à vida. Antes de ser um estado de plena estabilidade, talvez, devêssemos compreendê-lo como um momento de descuido da instabilidade. Seria como se passássemos a entender o quanto de direita e de esquerda o caminho está composto. Ao buscar o equilíbrio, aceitamos que as pontes sempre possam unir duas margens, ao invés de dividir o rio. Na conquista do equilíbrio é possível conceber a possibilidade de que trabalho e prazer possam coexistir, sem que se anulem mutuamente.

Que o ‘não’ dado ou recebido nesta hora será o ‘sim’, possivelmente, para o restante dos dias. Que o chão não é, apenas, algo que me empurra para cima com a mesma força que eu e a atmosfera o empurramos para baixo. Aprender a dominar o equilíbrio faz com que tenhamos uma certa dose de ousadia, ao brincar com a incerteza, e outra de saudável loucura, ao trocar as pernas pelas rodas. O equilíbrio não nos permite, tão somente, andar em linha reta, mas também por outros caminhos declarados como impossíveis até o momento em que decidimos tentar, ainda que de olhos fechados, por eles passar.

Velocidade. A grande maioria de nós a compreende meramente como o ato de ir rápido, esquecendo que este é apenas um dos lados da moeda. Ir devagar também, da velocidade, faz parte. Esta noção nos aproxima da compreensão do tempo, horas e dias. Nos faz aceitar que os minutos passam tão mais rápido quanto mais queremos que tardem. E que não há força capaz de fazê-los passar mais lentos quando decidem voar, deliberadamente, para o infinito do tempo. Na bicicleta, as pernas irão propulsionar o que as mãos, nos freios, tentarão fazer parar.

Trata-se de um jogo fantástico que atiça a percepção e acelera o peito. Um jogo de ímpeto e temperança, de paciência e fugacidade, de constância e celeridade, de querer ficar e querer ir, tudo ao mesmo tempo. Que lindo!

Cognição. A capacidade de aprender receberá grande aliada caso a bicicleta seja a escolha. Um sem número de mundos se abrirão aos olhos de seu condutor, ainda que extremamente jovem. A imaginação será parceira do conhecer, a dúvida será comparsa da descoberta e perguntas deixarão de constranger. Assimilará formas, cores e sons, todos juntos, numa fração de segundos enquanto pedala.

Os aromas irão construir um relicário, associando tais informações e gerando na memória uma janela digna e habilmente acessível. Ao subir em sua bicicleta será capaz de interpretar teoremas cujas lousas não puderam tornar reais ou concretos. Física, química, álgebra, aritmética, enfim, se tornarão parte de cada pedalada criando um arcabouço fantástico que só a mente humana é capaz de associar e armazenar.

Geografia será muito mais do que relevo e hidrografia; será sinônimo de gentes esperando por nós em algum lugar. A cultura do outro será mais do que objeto de curiosidade; talvez se transforme na maior experiência de convívio com as diferenças. História será muito mais do que o passado necessariamente visitado, porque será também o presente imaginariamente construído. Cidadania e Democracia não serão conceitos dissociados da prática.

Biologia será um estudo de si no contexto e é bem possível que a sustentabilidade tenha mais sentido enquanto for saboreada, seja no banho de rio depois da pedalada ou quando usar a bike como escada para chegar às goiabas, amoras e laranjas que, roubadas na infância, têm mais sabor. No campo das relações, será mais fácil compreender a co-dependência entre seres humanos, animais, plantas, minerais, ar e água.

E o novo usuário da bicicleta se transformará em um protetor de toda a vida que encontrar, pelo simples fato de conhecê-la e já não poder mais, simplesmente, ignorá-la.

Política. Dentre tantas lições aprendidas na infância sobre conviver (viver ‘com’), a bicicleta irá ajudar a que se perceba, claramente, que direitos e deveres não são linhas tortas de uma régua. Que os compromissos com a verdade, com a proteção dos menos potentes e com a equidade são valores que já não serão possíveis de serem incorporados na maturidade.
Que participar é muito mais honroso do que vencer.

Que calar, nem sempre, é uma escolha. Que se omitir sempre ajudará quem oprime. Que coletivo não é apenas sinônimo de um conjunto de coisas, mas sim, de um grupo organizado lutando pelos direitos de todos. Que as ruas não pertencem a alguns; que as florestas não são meras coisas; que o sol nasce, sim, para todos; que as salas de aula vazias não educam ninguém.

Ao permitir-se rodar com sua bicicleta pela cidade e pelos campos sua criança sentirá a emoção de fazer parte de algo bem maior do que ela mesma. 

Por fim, se ainda todos estes argumentos não forem suficientes para convencê-la a promover que seu filho/filha faça da bicicleta sua companheira de todas as horas, acredito que há um ponto decisivo que deixei para comentar por último.

Felicidade. Estudo comprovam, e se não o fazem deveriam fazê-lo, que é humanamente impossível pedalar sem sorrir, sem esboçar no semblante alegria, paz, satisfação, realização. Sua criança notará aos poucos, que tal sensação acompanhará suas decisões ou escolhas pela vida; estará presente naqueles dias não tão bons e também no dia em que decidir incentivar seus filhos a optar pela bicicleta. Silenciosamente, o irresistível e irrepreensível sorriso no canto da boca irá declarar que sabe que está fazendo a coisa certa. E não haverá sensação de solidão, porque a roda é uma linha que une todos os pontos.

Não havia me dado conta que, enquanto terminava minha empolgada fala, a jovem mãe tinha levantado do banco da praça onde estávamos conversando, se dirigiu até onde estava sua criança e lhe deu um estrondoso abraço.

Obrigado, bicicleta. Obrigado. E sem perceber, chorei. 

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