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A viagem de Raquel Jorge pela North Sea Cycle Route.

Medo. Solidão. A “depressão da volta”... Para finalizar a série de artigos sobre a viagem de Raquel Jorge pela North Sea Cycle Route, a protagonista da viagem de 6.200 km pela costa do Mar do Norte dá dicas e relata desafios que enfrentou durante e pós-viagem.

Revista Bicicleta por Anderson Ricardo Schörner Fotos
2.800 visualizações
13/08/2016
A viagem de Raquel Jorge pela North Sea Cycle Route.
Foto: Raquel Jorge

Quais foram os principais desafios em realizar uma cicloviagem com mais de 6.000 km sozinha? Como você lidou, por exemplo, com a solidão e o medo?

A solidão

Viajar sozinha é um desafio. Mas como tudo na vida, há vantagens e desvantagens. Quando só, você não precisa negociar nada. Faz tudo quando quer e como quer. Fica com o olhar mais aberto para o mundo, já que entre você e ele não há mais ninguém. Aprende a resolver os pepinos e a vencer os próprios medos. Depois de alguns dias me dei conta de que quando estamos sozinhos não reclamamos. Afinal, vai reclamar pra quem? E viver sem reclamar é delicioso e faz tudo ficar mais fácil – você resolve os problemas sem fazer drama e com muito mais objetividade. Nunca havia vivenciado isso. 

Mas houve momentos em que senti falta de dividir tudo que estava vivendo. Isso é inevitável e só prova que sou (quase) normal. Já notaram que a coisa que mais falamos quando viajamos acompanhados é: "olha"? É um tal de olha isso e olha aquilo que não acaba mais. É nossa necessidade de dividir se manifestando. Como se aquilo que vivemos só se tornasse real quando compartilhado.

A internet resolveu esta questão. Agora podemos compartilhar nossas experiências com qualquer pessoa no mundo. E com uma grande vantagem: podemos escolher o quê e quando compartilhar. Os amigos nem sempre se dão conta de que naqueles poucos minutos em que ficaram com você, no Skype, no Whatsapp ou no Messenger, eles foram sua companhia. Companhia importante, fundamental e querida, que recarregava as energias para seguir viagem.

Claro que nada substitui o famoso calor humano, principalmente quando você está sozinha em uma terra gelada e chuvosa – mas os momentos de solidão foram poucos. E os de solitude foram muitos, doces e valiosos.

São esses momentos que nos fazem fortes e é a autonomia que nos permite estar com alguém por escolha e não por necessidade. Por fim, se quer viajar sozinho vá em frente, mas, da mesma forma que você tem total autonomia para fazer suas escolhas, saiba que se der zica, a responsabilidade também é só sua!

A solidão foi um assunto (e um pensamento) recorrente durante a viagem. Fui muitas vezes questionada sobre ela e me coloquei a pensar sobre isso. Assunto complexo. Em quase quatro meses na estrada posso contar nos dedos das mãos a quantidade de conversas significativas que tive, ao vivo, com outro ser humano. A maior parte dos dias passei sem trocar mais do que duas ou três frases com outra pessoa, diálogos que se resumiam em: "há quarto para esta noite?" e "tem cardápio em inglês?", sendo que o "onde fica o banheiro?" foi a que mais se repetiu! 

E aí eu penso: eu me senti só? Às vezes sim, às vezes não. A solidão não está associada a ter companhia. Muitas vezes nos sentimos sós em meio a uma multidão (acho que esta é a mais triste solidão que se pode sentir). E muitas vezes estamos sós e nos sentimos completos.

Para mim, a solidão está associada a não conseguir dividir ou trocar o que acontece cá dentro. Quando sentimos que não estamos sendo compreendidos, quando não conseguimos expressar nossas dores, angústias e alegrias. Daí você se sente só. 

Eu nunca gostei muito de falar, ao telefone então, tenho horror... Eu escrevo e fotografo, é assim que me expresso, que digo ao mundo a que vim. Costumava escrever longas cartas, aos amigos, aos amores, à família... Hoje são e-mails ou mensagens de texto.

Estar "conectada", poder postar o que sinto e o que vejo é minha forma de dividir enquanto estou na estrada. E cada pessoa, cada amigo que participa (seja da forma que for) é alguém que está me fazendo companhia - e eles não têm ideia de o quanto esta companhia é valiosa.

Durante a viagem a música foi minha maior companheira (além da minha magrela, é claro), as ouvi de verdade, prestando atenção no que diziam, músicas que remetiam a histórias, pessoas, lugares, sonhos, momentos, desejos. E quando a música acabava ficava com meus pensamentos. Não existe tédio quando você está na estrada e em constante movimento, tendo que pensar na logística do dia seguinte, tentando absorver o máximo de tudo que está vendo, vivendo, aprendendo.

O fato é que no geral fico bem sozinha, choro, dou risada, canto, danço, vivo.... E às vezes preciso tomar cuidado pois estar só é tão confortável que quando alguém quer conversar fico com preguiça, parece que esqueci como se faz e tenho a impressão que isso não é muito saudável. Os pensamentos e sentimentos vão ficando concentrados e só tenho vontade de abrir a boca para falar algo que valha a pena ser dito. Preguiça de "jogar conversa fora"! 

Além disso, pedalar por estradas desertas com sol é uma viagem pra fora. Pedalar por estradas desertas com chuva e neblina é uma viagem pra dentro. Sem visibilidade e tentando proteger o rosto da chuva forte e fria, acabo olhando para baixo. O girar da roda sobre o piso molhado, que vai espirrando milhares de pequenas gotas de água para todos os lados é algo hipnótico.

Vivi muitos dias assim. Às vezes eu parava, olhava pra frente, aquela reta infinita com o horizonte apagado. Olhava pra trás, a mesma imagem. No meio, eu e a chuva. 

O que esta viagem me proporcionou de mais especial foi o retorno ao mundo que eu sempre senti ser o meu. Remoto e selvagem. Não o simples contato com os elementos, mas estar inserida nele, com a sensação verdadeira de ser parte de tudo. É indescritível a paz que senti. A harmonia. A sensação de equilíbrio e pertencimento. Contradizendo tudo que imaginei, ao invés de sentir solidão me senti inteira, completa.  

O medo

Eu vi. Ninguém me contou. Vi vários pelas plantações de trigo por que passei. Alguns até que simpáticos. Outros de fato assustadores. Há algo muito sinistro em espantalhos. E o mais surpreendente é que são eficazes. As gaivotas nem se atrevem. Não sabem que aquilo não passa de um pau de vassoura com um boné e uma camisa velha – totalmente inofensivo.

Elas, as gaivotas, agem exclusivamente por instinto. Não têm a capacidade de raciocinar, analisar, testar e aprender. Nós, humanos, desfrutamos de todos estes privilégios. Ainda assim, há tantos “espantalhos” por aí que insistem em nos meter medo. E o louco, que ousa chegar perto e supera o medo, torna-se rei. Ora amado e admirado, ora odiado e invejado pelos que não se arriscam.

O medo está dentro da gente, ele é de quem tem, e nunca está no objeto (ou situação) que amedronta. O que fazer com ele? Cabe, a cada um que sente, descobrir!

Eu senti medo em algumas situações. Mas foi um medo quase infantil, como o medo do escuro. Simplesmente por não saber ou conseguir visualizar o que estava a minha frente. Essa sensação só aconteceu nos dias de muita chuva, neblina e retas intermináveis. Mas daí eu olhava pra frente e pensava: “qual a pior coisa que pode acontecer? A bicicleta quebrar e eu ter que empurrar? Passar frio? Passar fome?”. Tudo isso aconteceu e foi tranquilo. Eu consegui dialogar com esses medos e superá-los e isso só fez com que eu me sentisse mais confiante em relação às minhas próprias limitações. 

Eu viajei sem GPS. Até comprei um super-mega-plus, mas não consegui configurá-lo e acabei desistindo dele. Fiz toda a viagem usando mapas de papel e me amparando nas sinalizações locais. Isso foi incrível pois percebi que sem GPS você interage muito mais com a cultura local e aprende coisas que o pequeno device jamais poderia te ensinar - foram muitos “moço, onde fica?” -, mas também significa que me perdi muitas vezes em lugares desertos e remotos – o medo de me ver perdida se manifestou em alguns momentos, mas esse medo era quase gostoso, como coceira na sola do pé. E hoje, fazendo um balanço da viagem, acho que ter ido sem GPS trouxe muito mais vantagens do que desvantagens. 

O dia mais difícil da viagem

Quando vi a previsão do tempo, do vento e o trecho que teria que atravessar eu soube que seria difícil. Mas foi bem mais do que eu imaginei. O percurso seria de Harlingen até Stroe, na Holanda. Um total de 49 km, sendo que 37 km seriam por um dique, com mar aberto de um lado e mar represado do outro.   

A chuva foi intensa e ininterrupta do começo ao fim. O vento cruel. Por quase todo o percurso eu fui protegida pelo morrinho que contorna o mar, uma curiosidade geográfica típica desta região. O vento vinha do lado de lá do morrinho e isso amenizou um pouco sua violência. Mas nas passarelas, em que você vai por cima do morrinho, eu tive que descer da bicicleta e empurrar. No início tentei ir pedalando, mas o vento me jogava para o lado da estrada com tanta força que apenas usar o peso do corpo para me manter equilibrada não estava surtindo efeito, e nestas tentativas consegui apenas quebrar dois raios da roda dianteira.

Mas o mais difícil ainda estava por vir. Já havia percorrido 1/3 do braço de terra em que consiste esta estrada (e o dique). O mar, de ambos os lados, parecia inóspito e com cara de poucos amigos. Avistei uma gaivota no chão, linda, enorme. Quando me aproximei achei estranho ela não voar. Ao passar por ela, bem devagar, notei que ela estava muito ferida, com uma das asas totalmente estraçalhada, havia muito sangue e algo que só posso deduzir serem fraturas expostas.

Meu coração saltou, continuei pedalando. Comecei a chorar e uma grande discussão se iniciou dentro de mim. Eu ia simplesmente seguir em frente e deixar aquele pequeno ser em agonia? Covarde! Mas o que eu podia fazer? Pensei no meu kit de primeiros socorros. Queria que meu irmão estivesse comigo. Ele (veterinário) certamente conseguiria ajudá-la. Já eu, não fazia a menor ideia. Pensei na dor daquele animal, na agonia. Ela não podia voar, se alimentar, se proteger. Quanto tempo demoraria para morrer? Seria de fome? De frio? De dor?

Já havia pedalado uns 800 metros, me xingando de todos os nomes por deixar para trás aquela ave ferida. Dei meia volta. E fiz algo que jamais pensei ter coragem de fazer nesta vida. A matei.

Segurei seu corpo frágil, acariciei suas penas. Ela tentou me bicar, mas nem para isso tinha forças, apenas abria de vez em quando o bico para soltar um grito silencioso.  Segurei seu pescoço com as mãos e o torci. A sensação de seus ossos se quebrando e o barulho que se seguiu vão me acompanhar eternamente. As lágrimas quentes escorriam, misturando-se com as gotas frias da chuva que caía.

Para meu desespero ela continuou respirando, seus olhos olhavam diretamente para dentro dos meus. Pedi perdão e torci com mais força ainda. Senti seu corpinho se aquietar sob minhas mãos. E finalmente seus olhos se fecharam.

Acho que foi a coisa mais difícil que já fiz na vida. Logo eu, amante dos pássaros. Como pude tirar uma vida com minhas próprias mãos? A vida de um anjo, como a de tantos que me acompanharam durante a viagem.

A cobri com algumas folhas e coloquei flores sobre seu corpo sem movimento. Segui viagem e o vento e o frio deixaram de ser um incômodo. Havia um incômodo maior. Fiz a coisa certa?

Deveria ter deixado o curso natural do mundo seguir seu rumo? Mas o que há de natural em uma ave selvagem atropelada? Pois só posso deduzir que foi isso que aconteceu. Seus ferimentos certamente foram consequência do choque com algum veículo na estrada. Os 20 km seguintes, com frio, vento e chuva, passei chorando e pedindo desculpas. Nas luvas, o sangue vermelho foi se misturando com a água da chuva até desaparecer completamente.

A forte neblina ia revelando aos poucos o horizonte. Quando avistei a terra novamente senti um enorme alívio. Parei embaixo de uma ponte para olhar o mapa e entender para onde eu precisava ir. Apesar dos impermeáveis eu estava completamente molhada e com muito frio. Já estava perdendo a sensibilidade das mãos e dos pés. Mas como sabia que estava perto não me preocupei. Tirei as luvas ensopadas e segui por mais 9 km até chegar no camping de Stroe.

Mas o que faz meus olhos brilharem e meu coração saltar é pedalar por novos caminhos, por lugares em que nunca estive... Em outras palavras, o que me move (e comove) é viajar. © Raquel Jorge

Fui direto para debaixo do chuveiro quente, com roupa e tudo. Tirei tudo e mesmo sabendo que a água estava queimando ainda sentia frio. Demorou uns bons 20 minutos para conseguir aquecer o corpo. Fui dormir com fome e uma enorme tristeza dentro de mim. Foi o dia em que me senti mais só.

O que é pedalar para você? Certamente, não é simplesmente se locomover em duas rodas...

Não. Para mim não é. Sim, eu uso a bicicleta como meio de transporte em São Paulo, mas é algo que faço normalmente, sem grandes expectativas. A bicicleta é simplesmente o meio e optei por ela por ser mais rápido, prático e prazeroso.

Mas o que faz meus olhos brilharem e meu coração saltar é pedalar por novos caminhos, por lugares em que nunca estive, de preferência lugares remotos, desabitados, fora dos grandes centros, onde não sei o que vou encontrar e onde em cada curva algo novo se revela. Em outras palavras, o que me move (e comove) é viajar.

E viajar de bicicleta amplia não só os horizontes, mas todos os seus sentidos. É como voltar a ser criança, quando toda experiência é nova, onde o aprendizado é constante. Tudo se intensifica e nada passa despercebido. 

É uma viagem para dentro tanto quanto é para fora. Sua fragilidade é também sua força. O mundo físico e palpável vai sendo vivido e sentido com a mesma intensidade em que outro mundo vai acontecendo dentro de você. Lembranças, ideias, emoções. Isso gera uma sensação de pertencimento. Em que você se torna, de forma verdadeira, parte do todo. 

É diferente de "mochilar", de viajar de trem, carro, ônibus. De bicicleta o fator "liberdade" ganha novas nuances. O vento no rosto, a leveza, a flexibilidade de entrar em qualquer lugar, a inexistência de burocracias, a intimidade que se cria com os elementos. A exposição diante do sol, da chuva, do frio, do calor, do vento, dos barulhos, dos cheiros, do solo, do claro e do escuro. E nem vou mencionar os insetos!

É sair da bolha. É abrir mão do conforto, do conhecido, do ar-condicionado, do aquecedor, da língua que se entende, do percurso que se conhece, da comida que acolhe e do afeto que acalenta. É a plena consciência do estar vivo. E simplesmente viver. Paradoxalmente, de bicicleta você viaja com muito pouco, e este muito pouco te proporciona o mundo! 

Para o leitor que está pensando em percorrer a Rota Ciclística do Mar do Norte, quais são as dicas cruciais que você daria?

- Os pontos de informação ao turista estão por toda parte, são excelentes e te dão bons mapas de graça – as pessoas estão ali com o único intuito de te ajudar!  

Confie nas pessoas, se está com alguma dúvida pergunte para quem mora na região, eles sabem mais do que qualquer site. Pare e pergunte quantas vezes achar necessário. 

- Sempre verifique o quarto / chalé antes de partir, principalmente as tomadas, não há nada mais desesperador do que descobrir que o carregador da sua câmera está a 50 km de distância.

- Leve sempre um saco plástico com você (desses de supermercado mesmo), ele pode servir como lixo ou para colocar roupa molhada.

- Coloque os impermeáveis por último no alforje (mesmo que esteja o maior sol). O tempo muda constantemente e se começar a chover fica fácil para pegar.

- Durante o pedal, se algo está te incomodando e você pode resolver (frio, calor, sede, distribuir melhor o peso, levantar o selim), pare e resolva. Algo que te incomoda um pouco agora vai te incomodar muito depois de 15 km.

- Mesmo quando algo der defeito, tenha calma. Busque soluções com tranquilidade. A pressa é inimiga de tudo que é bom!

- Se você não sabe se algo “pode ou não pode” ou tem dúvida sobre como se comportar, observe os nativos. Eles são os melhores professores e vão mostrar como é que faz!

- Tenha sempre algum dinheiro com você, alguns lugares só aceitam cartão e outros só aceitam dinheiro. Alguns banheiros públicos você precisa pagar para usar.

- Quando estiver em uma cidade com mais estrutura, verifique se a bicicleta precisa de algum cuidado. Mecânicos são raros em cidades pequenas. E nada funciona aos finais de semana. Em lugar nenhum.

- Leve sempre algo para comer quando for pegar a estrada, mesmo que a distância seja curta. Quando não conhecemos o caminho, distância e tempo não podem ser associados. Às vezes, 20 km podem ser mais difíceis do que 60 km. Ter energéticos, uma maçã ou um chocolate é sempre bom. 

- Estude o clima dos locais que pretende visitar e organize suas roupas de acordo. Lembre-se que esta rota passa por países com temperaturas severas: muito frio e muita chuva, assim como muito sol e muito calor. É aconselhável fazê-la nos meses de verão. 

Depois de uma jornada assim, como é “voltar”? E quais são os planos agora?

Todos que viajam têm uma certa familiaridade com o que alguns chamam de "bode" ou "depressão da volta". 

Quanto mais longa é a viagem, mais difícil é voltar. Conforme o dia do retorno vai se aproximando os sintomas começam a se manifestar. Um certo desânimo na alma. Aquela dor de cabeça que você nem lembrava mais que existia começa a incomodar novamente. E você torce para chover, porque ter que ir embora em um dia ensolarado é ainda mais sofrido.   

Senti tudo isso nos dias que antecederam meu voo para São Paulo. Mas a saudade dos amigos, da família e do meu cão me mantiveram firme, e pensar em revê-los manteve a alma leve.

Daí você entra no avião e enquanto ele sobrevoa o Atlântico vai dando uma tristeza difícil de explicar. Você fecha os olhos e começa a reviver momentos da viagem, lembra do sabor da torta de maçã, do vento frio na pele, das cores do pôr do sol e se dá conta que agora tudo isso só existe na sua memória. Que acabou. Que você não vai acordar amanhã e estudar mapas, e pedalar por estradas desconhecidas. 

Ao contrário disso, você volta para os caminhos conhecidos. Vai passear com seu cão, dar bom dia para o porteiro, caminhar pelas ruas que, ao contrário de você, não se transformaram.

E conforme você vai, aos poucos, retornando para a vida com a qual está familiarizada, se dá conta que nela habitam as opções desnecessárias. Opções demais, opções que só atravancam a vida. E descobre que, paradoxalmente, quanto mais opções você tem, mais preso você se sente. 

Eu abro meu armário e não consigo escolher qual roupa vestir. E lembro com um imenso saudosismo da liberdade que vivi durante a viagem, quando não havia opção. Não havia o que pensar, o que considerar, o que combinar. Era o short ou a calça e fim de papo. E fui muito feliz usando a mesma roupa por quase quatro meses.

Daí vou ao supermercado e me sinto perdida, lembrando que em um voo a opção é quase sempre frango ou pasta, e o quanto essa limitação de opções é leve. Você demora dois segundos para escolher e pronto. Ou quando está na estrada e simplesmente come o que está disponível, o que deu para levar no alforje.

Lembro de uma cena do filme "Guerra ao Terror", em que o personagem principal volta para casa, ele vai ao supermercado e entra no corredor de cereais. Ele para e olha para aquela imensidão de opções, e aquilo o preenche de um infinito vazio. Eu nunca me identifiquei tanto com uma cena de filme como me identifico com esta. 

Sei exatamente o que ele sentiu. E é bem complexo, algo que envolve todo o mecanismo da sociedade moderna. A sociedade do consumo. O "consumir e aparentar" são mais importantes do que o "ser e sentir". Essa cena na realidade revela muita coisa sobre o mundo em que vivemos, é possível fazer uma análise sociológica imensa sobre isso. Mas não me atrevo.

Não gosto de fragmentar a humanidade, mas há pessoas que vão me compreender e se identificar e há aquelas que vão achar que sou louca. Porque somos todos diferentes e encontramos prazer e sentido em coisas (e lugares) diferentes. E que bom que é assim, sempre digo que o mundo seria insuportavelmente chato se fôssemos todos iguais, com os mesmos ideais, sonhos e objetivos. É a diferença que nos enriquece, mas esta já é outra história. 

Voltando à volta: é sempre difícil e o processo é lento, cada dia voltamos um pouquinho, mas nunca completamente. Você conta com paixão o que viveu e conheceu, ainda assim existe uma solidão no relato, pois por mais precisa que seja a descrição, só você estava lá. E você se esforça para atravessar a ponte e dividir isso, sabendo que no fundo, esta ponte só pode ser atravessada parcialmente.  

Tenho total consciência de que não importa o que eu faça, estarei sempre com um pé em cada continente, com um oceano no meio e enquanto as pernas se esforçam para se manter em equilíbrio, os braços tentam abraçar essa bola maravilhosa que chamamos de mundo! 

O plano agora é trabalhar fazendo algo que me complete, que seja relevante a tudo aquilo que eu acredito e claro, começar a pensar na próxima viagem. Pode ser logo, pode demorar, desde que em algum momento, ela aconteça! 

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