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A pedagogia das ruas

A formação social se faz também com emoção, com imaginação e com indignação, e não só com a razão matemática.

Revista Bicicleta por André Geraldo Soares
36.528 visualizações
24/05/2013
A pedagogia das ruas
Foto: Canuzuner

É característica distintiva do Homo Sapiens aprender, fazer e ensinar, desta forma escapando, mais do que qualquer outra espécie, da carga instintiva na condução da própria vida. Este processo, chamado corriqueiramente de educação, ocorre do nascimento à morte de cada indivíduo. Educação é o processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral do ser humano, habilitando-o para o convívio social.

Ela ocorre em todos os lugares, em todas as relações, mediante o manuseio de objetos e a interação com o ambiente circundante. A dada altura da vida sabemos como devemos nos comportar em cada lugar devido ao arranjo do ambiente e ao tipo de pessoas que ali se encontram. Todo mundo está, mesmo sem o saber e mesmo a contragosto, carregado de elementos que formam sua memória e suas opiniões, seus desejos e suas rejeições, seus medos e seus valores.

Isto dado, cabe agora a pergunta: como e para quê nos educam as ruas da cidade? Vamos derivá-la: o que nos ensina o sistema viário? Quais informações estão incutidas no pavimento, na sinalização, nos veículos e nos seus ocupantes? A que os engenheiros de trânsito e os secretários de transporte querem nos disciplinar com aquilo que eles chamam de “planejamento da mobilidade urbana”?

Ninguém precisa ir à faculdade para compreender que o trânsito nosso de cada dia reproduz a segregação social imposta no trabalho, na política e na comida sobre a mesa. O simples ato de atravessar uma rua no centro de qualquer cidade média já nos ensina quem é que manda ali. Toda pessoa que usa cadeira de rodas torna-se doutor em matéria de igualdade de oportunidades já na primeira tentativa de vencer qualquer meia dúzia de quarteirões. Vá pegar um ônibus, então, naquele ponto sem assento, tendo que adivinhar o horário, sujeito a banho de poça, pensando no assalto na roleta e você também compreenderá que a prefeitura é a maior marketeira da indústria automobilística.

Os ciclistas são outros catedráticos em urbanismo. A falta de estruturas e equipamentos propícios para eles é uma clara lição de que o modo padronizado de se locomover para fazer coisas na cidade é por motores. Para eles decorarem a lição, cada vez que se faz uma “melhoria viária” (viadutos e afins), nela não consta ciclovia. E quando pintam alguns metrinhos de ciclovia é fácil concluir, sem queimar neurônios, que a secretaria de obras não entende nada de bicicleta. E para não deixar os ciclistas se esquecerem de nada disso, não são poucos os motoristas que se fazem de mestres do trânsito: passam em alta velocidade, buzinam, não cedem passagem e outros atos de maior soberba.

Poderia ser diferente, não? O trânsito, que praticamente todos vivenciam quase todos os dias, poderia ser um lugar onde a sociedade não medisse esforços para aplicar a solidariedade e a igualdade entre as pessoas, o bom senso no uso dos recursos ambientais, a repartição do dinheiro público e outros valores que cada vez mais ficam confinados nos livros.

Felizmente, a educação não é puro adestramento – e se assim fosse não haveria mudança social. A formação social se faz também com emoção, com imaginação e com indignação, e não só com a razão matemática. Há aqueles que não ficam presos às regras e mensagens – subliminares ou explícitas – aplicadas no trânsito pela mentalidade hierarquista e economicista que prepondera na civilização. Podemos, por isso, contar com um lote numericamente grande e razoavelmente estruturado de pessoas e entidades que se esforçam – pela prática e/ou pelas ideias – para dar visibilidade a um outro possível e necessário modelo de mobilidade urbana.

Por isso, é importante a inclusão de educadores e psicólogos nos conselhos de trânsito e transporte, para ressaltar o aspecto pedagógico da mobilidade urbana. E também, é claro, de usuários de todas as modalidades de mobilidade, pois eles são os verdadeiros conhecedores da realidade vivida e das necessidades de cada parte.

Reformular o trânsito concedendo prioridade às modalidades mais justas, limpas e eficientes não é apenas uma medida técnica por parte dos gestores públicos. Abrir mão do conforto individual proporcionado pelos automóveis e exigir a melhoria das condições de deslocamento não-morotizado e coletivo não é apenas um gesto de bom coração por parte dos motoristas. São ações para dar sentido à afirmação de que o homem é um bicho inteligente.

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